- Felipe Cima, especialista em Renda Variável da Manchester Investimentos
O senador Flávio Bolsonaro tentou, nos Estados Unidos, defender uma postergação da aplicação de tarifas adicionais ao Brasil. Algumas ponderações são necessárias.
A primeira: o atual governo brasileiro, via Itamaraty, não considera essa audiência um canal oficial. Trata-se de mais uma sessão pública em que atores privados apresentam considerações sobre a investigação em curso, conduzida pela autoridade comercial americana (seção 301), que apura práticas consideradas desleais.
O que chama atenção no caso brasileiro é a amplitude dessa investigação. Normalmente, ela se dedica a um aspecto específico — tarifas ou barreiras protetivas. No caso do Brasil, o escopo vai desde o PIX até corrupção e desmatamento. Parece que o governo americano busca ganhar margem de negociação com o Brasil, já que, no momento das tarifas, o Brasil apareceu como um "ganhador relativo": foi sobretaxado, mas no fim grande parte da pauta exportadora acabou isenta.
Essa isenção é relevante porque recai justamente sobre itens que encareceriam o custo de vida do americano médio — café, por exemplo. O governo dos EUA não tem grande interesse em taxar esses produtos, especialmente num momento em que a autoridade monetária (com o novo presidente do Fed) busca equilíbrio fino sem subir juros.
Ao mesmo tempo, há o pano de fundo político: Eduardo Bolsonaro fez movimentação para que sanções fossem aplicadas ao Brasil. Inicialmente, pareceu vitorioso (pessoas foram sancionadas). Mas os EUA desejam participar da exploração de terras raras no Brasil. Washington quer se posicionar com poder de barganha para negociações futuras, possivelmente envolvendo etanol e a relação com outros países.
No primeiro mandato de Trump, o Brasil foi grande ganhador relativo do atrito EUA–China. O deslocamento de comércio fez o Brasil substituir os EUA nas compras chinesas de agro e minerais. Um eventual segundo round de tensão EUA–China poderia beneficiar novamente o Brasil em detrimento do produtor americano, o que enfurece grande parte do agronegócio dos EUA (chegaram a exportar quase zero soja para a China num período).
Por isso, dois temas estão na mesa: etanol e desmatamento.
No curto/médio prazo, os maiores perdedores relativos seriam produtores de bens industriais brasileiros que exportam para os EUA — WEG, Tupy, Embraer. Algumas já estão na lista de exceção, o que dificulta medir impacto imediato, mas a tendência é negativa para a maioria dos players.
No médio prazo, produtores de etanol podem ser afetados, pois a produção brasileira pode entrar na mesa de negociação para liberar o etanol de milho dos EUA (mais produtivo que o de cana). O Brasil, por ora, vê poucos benefícios.
Há ainda uma questão de segunda ordem sobre o PIX: os EUA temem que o Brasil se torne fornecedor dessa infraestrutura para outros países, o que atacaria as taxas das empresas americanas (bandeiras, processadoras) e, no longo prazo, até facilitaria a bancarização global. O Brasil, contudo, não levou adiante essa bandeira.
Conclusão: o resultado para o mercado ainda é difícil e incerto. Já o resultado político para Flávio Bolsonaro parece ser difícil: a família Bolsonaro foi inicialmente culpada pelas tarifas, depois tentou adiá-las, e agora surge a notícia de que Trump suspendeu tarifas da Turquia por relacionamento com Erdogan — enquanto Flávio talvez tenha o seu prestígio a ser testado e não tenha nenhum ganho efeti
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