A resposta exige abandonar uma ingenuidade perigosa. Muita gente ainda olha para Moraes como se ele fosse uma anomalia, um ponto fora da curva, um ministro que avançou demais enquanto o resto do sistema observa constrangido, sem conseguir contê-lo.
Não é isso.
Um homem sozinho não censura parlamentar, não bloqueia conta de jornalista, não prende opositor por postagem, não enquadra críticos, não retira adversários do jogo político e não mantém uma máquina de perseguição por anos sem que ninguém reaja. Isso não existe. Para chegar tão longe, é preciso ter fiadores. É preciso que muita gente importante olhe para aquilo e conclua, em silêncio ou em público: isso nos serve.
Esse é o ponto central. Moraes não está sozinho. Ele é a ponta de lança de um arranjo maior, usado para criminalizar a oposição, intimidar críticos e manter o sistema sob controle. A atuação dele beneficia setores poderosos demais para ser tratada como excesso individual. Beneficia o Supremo, que ampliou o próprio poder a níveis inéditos. Beneficia o governo, que ganha uma ferramenta brutal contra adversários. Beneficia parte do Congresso, que se blinda de pressão popular. Beneficia a militância de redação, que aplaude a censura quando ela cai sobre o lado certo.
Cada setor recebe algo em troca. Por isso cada setor sustenta a engrenagem.
A prova mais reveladora veio com o escândalo do Banco Master. Quando o império de Daniel Vorcaro desabou, veio à tona um contrato milionário entre o grupo do banqueiro e o escritório de advocacia da esposa do ministro. O número impressiona. Mas a reação oficial impressiona ainda mais. A Procuradoria, tão veloz para perseguir críticos do regime por postagem, tratou o caso como negócio entre particulares, dentro do exercício regular da advocacia, sem densidade suficiente para mobilizar uma investigação.
Pense no contraste.
Para um cidadão comum, uma frase pode virar inquérito. Para um jornalista, uma crítica pode virar censura. Para um parlamentar da oposição, uma postagem pode virar caso de polícia. Mas quando aparece um megacontrato cercado de perguntas óbvias, envolvendo gente poderosa demais, a máquina pública descobre subitamente a prudência, a cautela, o formalismo, a delicadeza jurídica.
A régua muda conforme o alvo.
É isso que desmonta a ideia de que as instituições estão apenas “falhando”. Elas não estão falhando. Estão funcionando exatamente como foram ajustadas. Quando o alvo é a oposição, a máquina acelera. Quando o caso encosta em quem serve ao projeto, a máquina desacelera, arquiva, relativiza, empurra para a gaveta, transforma o escândalo em tecnicalidade.
A pergunta, portanto, não é por que ninguém faz nada. Essa formulação ainda pressupõe que as instituições gostariam de reagir, mas não conseguem. O problema é mais grave. Os únicos que poderiam fazer alguma coisa são, em muitos casos, os mesmos que se beneficiam do arranjo.
O Senado poderia agir. Mas quantos ali realmente querem enfrentar um operador que também serve como blindagem contra pressão popular? A Procuradoria poderia agir. Mas age com velocidade seletiva. A imprensa poderia tratar a questão como escândalo nacional permanente. Mas parte dela prefere reservar sua indignação para os inimigos corretos. O Supremo poderia conter excessos internos. Mas durante anos se beneficiou da expansão de poder criada por esse mesmo ambiente.
E assim o círculo se fecha.
Moraes se tornou, na prática, o rosto mais visível de uma coalizão de interesses. Não porque todos o amem. Não porque todos confiem nele. Não porque todos concordem com cada gesto. Mas porque, enquanto ele fizer o serviço que interessa ao establishment, sua blindagem permanece útil.
Esse é o retrato mais sombrio do Brasil atual: o abuso deixou de ser desvio e virou método. A censura deixou de ser escândalo e virou ferramenta. A perseguição deixou de ser exceção e virou rotina administrativa. Tudo sob o vocabulário nobre de sempre: defesa da democracia, proteção das instituições, combate à desinformação, preservação do Estado de Direito.
Toda concentração de poder precisa de uma justificativa bonita. Nenhum regime admite que persegue opositores porque quer preservar privilégios. Sempre há uma causa elevada, uma emergência, um inimigo interno, uma ameaça difusa. O que muda é a embalagem. O mecanismo é velho: criminalizar o adversário para impedir que ele dispute de igual para igual.
Mas há uma nuance importante. A blindagem não é absoluta.
O simples fato de certos contratos, relações e decisões começarem a vir à tona mostra que o arranjo tem rachaduras. A exposição internacional dos abusos encareceu o custo político de sustentar esse modelo. Dentro do próprio Supremo, já aparecem dissidências mais claras. Até em setores da imprensa, ainda que de forma tímida, começam a surgir críticas que antes eram interditadas.
Isso não significa que o sistema esteja prestes a cair. Seria ingenuidade. Mas significa que sustentar a blindagem ficou mais caro do que era. E regimes de exceção não se desfazem apenas quando perdem força jurídica. Começam a ruir quando perdem a aura moral, quando o público percebe que a defesa da democracia virou apenas o nome elegante da repressão seletiva.
Por isso é tão importante nomear o problema corretamente. Moraes não é o defeito do sistema. Ele é o sistema funcionando como foi desenhado para funcionar. Enquanto servir aos interesses que serve, continuará protegido. A blindagem não é apenas dele. É do projeto.
E é justamente por isso que a indignação não pode parar no personagem.
O Brasil não precisa apenas discutir um ministro. Precisa discutir o arranjo que permitiu a um ministro se tornar tão poderoso. Precisa discutir o Senado que não reage, a Procuradoria que seleciona alvos, a imprensa que aplaude censura seletiva, o Congresso que se acomoda na própria blindagem e o Supremo que aceitou transformar exceção em normalidade.
Enquanto esse arranjo permanecer de pé, trocar um nome não resolverá o problema. O operador pode mudar. A lógica continuará.
A pergunta inicial era por que ninguém faz nada.
A resposta é amarga: porque muita gente poderosa ganha alguma coisa com isso.
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