Lula teme derrota de Haddad e vitória de Tarcísio no 1º turno

Pesquisas sobre batalha entre Tarcísio e Haddad levam tensão ao entorno de Lula

Afunilamento da disputa em São Paulo aumenta a possibilidade de eleição acabar no primeiro turno. 

Por José Benedito da SilvaPedro Jordão

Revista Veja – 4/7/2026 

Na eleição presidencial de 2018, Jair Bolsonaro conseguiu uma vitória acachapante sobre Fernando Haddad no estado de São Paulo, com uma dianteira de mais de 8 milhões de eleitores, fundamental para a vantagem de 10,7 milhões de votos que construiu sobre o petista na corrida nacional. Quatro anos depois, contra Lula, Bolsonaro não teve a mesma sorte nas urnas paulistas: viu sua vantagem cair para menos de 3 milhões de apoiadores e, muito em razão disso, perdeu a reeleição para o rival por 1,8 milhão de votos. A ironia foi o desempenho de Haddad como candidato a governador diante de Tarcísio de Freitas, em 2022. Mesmo derrotado, Haddad ajudou Lula a reduzir a vantagem para Bolsonaro e obter o terceiro mandato. Agora, o ex-ministro da Fazenda se vê diante de desafio parecido, contra o mesmo Tarcísio, mas em um cenário mais difícil. Com apenas dois candidatos competitivos na disputa ao governo, o primeiro objetivo será impedir que o governador liquide a fatura já no primeiro turno. 

Sondagens recentes mostram que Tarcísio está próximo da reeleição na primeira etapa — segundo o último levantamento do instituto Paraná Pesquisas, do final de maio, o governador tem 47,3% das intenções de voto, muito perto de garantir o patamar necessário para evitar o segundo turno. A situação tende a ficar ainda melhor com a desistência dos pré-candidatos Kim Kataguiri (Missão) e Paulo Serra (PSDB), que somavam 7,7% dos votos. Ambos têm perfis mais à direita no espectro ideológico, o que cria a expectativa de que a maior parte de seus eleitores migre para Tarcísio. 

Lula sabe mais do que ninguém a importância do desempenho em São Paulo, tanto que não poupou esforços para montar palanque competitivo no estado. Primeiro, convenceu Haddad a ir de novo para o jogo. Depois, bancou duas de suas ministras mais importantes, Simone Tebet (PSB) e Marina Silva (Rede), para disputarem o Senado — no caso de Tebet, convenceu-a a trocar de estado (era de Mato Grosso do Sul) e de partido (era do MDB). Por fim, reuniu Haddad, Tebet, Marina e o vice Geraldo Alckmin, que governou São Paulo por quatro mandatos, para convencer Márcio França, outro ex-governador, a ser vice de Haddad — ele queria o Senado ou o governo. Além disso, Lula vai intensificar a agenda em São Paulo, enquanto Haddad aposta em obras e programas federais para fazer o enfrentamento a Tarcísio. O PT decidiu inclusive pagar para impulsionar dezenas de vídeos no Facebook e no Instagram em que Haddad fala das realizações da gestão Lula no estado. 

Lula x Flávio: os eleitores que devem decidir a disputa 

O outro lado da disputa também considera a batalha importante. Flávio Bolsonaro planeja usar o favoritismo de Tarcísio, coordenador de sua campanha em São Paulo, para construir maioria segura sobre Lula no estado. Nos últimos dias ele esteve com o governador em eventos em Guarulhos (segundo maior município) e Presidente Prudente, numa feira do agronegócio. Segundo pesquisa Real Time Big Data, no primeiro turno Flávio vence Lula no estado por 36% a 31%, mas o governador alcança 46% no duelo com Haddad e, em algumas regiões do interior, chega a 57%. Captar esse eleitorado será um dos principais objetivos de Flávio na campanha. 

Uma das preocupações de Lula na eleição paulista é não ter segundo turno no maior colégio eleitoral do país, com 22% do total de votantes. Em 2022, o petista teve um bom exemplo desse risco. Em Minas Gerais, ele venceu Jair Bolsonaro por 5 pontos no primeiro turno, mas viu a vantagem cair a quase nada no segundo, depois que Romeu Zema (Novo), reeleito, passou a percorrer o estado pedindo voto a Bolsonaro — no final, o petista teve 50,2% contra 49,8% do rival. Cenário parecido ocorreu no Rio de Janeiro, onde Bolsonaro ampliou a vantagem sobre Lula depois que Cláudio Castro (PL) fechou a eleição ao governo na primeira votação. “O risco é ter no segundo turno nacional uma eleição que já foi encerrada em São Paulo. Aí fica uma eleição perigosa”, admitiu Haddad. 

Infográfico com resultados de pesquisas eleitorais e dados históricos. Embate direto entre Tarcísio de Freitas (51,4%) e Fernando Haddad (37,9%). Corrida presidencial de 2022: Jair Bolsonaro (55,2%) e Lula (44,8%). Disputa ao governo: Tarcísio (55,3%) e Haddad (44,7%). Gráfico de barras mostra o número de candidatos a governador por ano, de 1990 a 2026. Listas de partidos que apoiam Tarcísio, Haddad, outras candidaturas e indefinidos 

Se Tarcísio vencer em primeiro turno, há dois cenários possíveis no estado, segundo especialistas. Um deles, o mais provável, é o governador reeleito se empenhar por Flávio, dedicando-se à campanha presidencial. Qualquer deslocamento percentual em São Paulo pode ser o fator que vai decidir a eleição nacional. O desafio de Tarcísio, segundo Yuri Sanches, head de análise política da AtlasIntel, será fazer o eleitor que o apoia, mas não é bolsonarista, ir às urnas no segundo turno só para votar em Flávio. “O eleitor que é de direita, mas antibolsonarista, deve votar no Tarcísio porque não quer o PT governando São Paulo, mas, para um segundo turno presidencial, ele pode ficar mais refratário a ir votar. Tarcísio precisará convencer esse eleitor”, diz. Para Murilo Hidalgo, diretor do Paraná Pesquisas, Tarcísio pode tirar o pé das ruas após ser eleito. “Hoje, ele já não está de corpo e alma na campanha do Flávio. Então, após vencer, é muito provável que irá descansar, como muitos fazem. Em 2022, Ratinho Jr. venceu a reeleição no Paraná no primeiro turno e, três dias depois, viajou por quinze dias”, relembra. 

A consagração de Tarcísio ainda no primeiro turno seria um fato raro na política paulista. Desde a redemocratização do país, em apenas três oportunidades o governador foi escolhido sem segunda votação: com José Serra, em 2006, e com Geraldo Alckmin, em 2010 e 2014, todas durante a longa hegemonia tucana no estado. O perfil da disputa também mudou; se nenhum outro candidato se apresentar, o páreo deste ano é o que terá o menor número de postulantes ao governo desde o fim da ditadura: cinco. Além de Haddad e Tarcísio, deverão estar na disputa três candidatas de partidos nanicos de esquerda: Vera Lúcia (PSTU), Izadora Dias (PCO) e Vivian Mendes (Unidade Popular). A possibilidade de haver mais nomes de siglas médias e grandes é quase nula, porque a maioria já se alinhou a Lula ou a Haddad (veja o quadro). 

O desfecho da eleição em São Paulo será decisivo não só para a atual disputa presidencial, mas também para 2030. Se for reeleito em primeiro turno, Tarcísio mostrará muita força contra o petismo e o lulismo e se credenciará como o principal nome da centro-direita e da direita para a corrida ao Palácio do Planalto em 2030. Preferido por muitos setores da economia, do eleitorado e do establishment partidário para ser o principal candidato de oposição neste ano, ele acabou cedendo o lugar a Flávio por decisão do ex-presidente Jair Bolsonaro, seu padrinho político. Para daqui a quatro anos, terá o caminho aberto, mas sua musculatura vai depender da vitória que construir em São Paulo. Já para Haddad será a derradeira tentativa de se cacifar como o herdeiro de Lula para 2030. O ex-ministro não tem mais margem para errar, após três derrotas eleitorais consecutivas: prefeitura de São Paulo em 2016 (não foi reeleito), eleição presidencial de 2018 e disputa pelo governo paulista em 2022. Um fracasso em São Paulo ainda no primeiro turno poderia ser fatal para suas pretensões. A menos de 100 dias da votação, o tabuleiro paulista, agora com duas peças relevantes, caminha para um fim de jogo rápido — e extremamente decisivo.

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