Sobretaxa dos EUA expõe 79% das exportações gaúchas e ameaça setores estratégicos do agronegócio

Por Felipe Vieira


A entrada em vigor da nova sobretaxa de 25% determinada pelos Estados Unidos deverá produzir efeitos mais intensos no Rio Grande do Sul do que na média nacional. Nota técnica elaborada pela Assessoria Econômica da Federação da Agricultura do Estado, a Farsul, mostra que 79% do valor exportado pelo Estado ao mercado norte-americano em 2025 está incluído na lista de produtos alcançados pela medida.


A proporção representa cerca de US$ 1,3 bilhão em vendas externas gaúchas. No conjunto do Brasil, a tarifa atinge 38% das exportações destinadas aos Estados Unidos, equivalentes a US$ 14,33 bilhões. A diferença revela uma vulnerabilidade significativamente maior da economia do Rio Grande do Sul, provocada pela concentração de sua pauta exportadora em mercadorias que permaneceram fora da lista de exceções.


A decisão foi anunciada pelo Escritório do Representante Comercial dos Estados Unidos, o USTR, com base na Seção 301 da Lei de Comércio norte-americana de 1974. A cobrança adicional começará a valer em 22 de julho sobre os produtos brasileiros incluídos na relação final. O governo dos Estados Unidos afirma que a investigação envolve temas como comércio digital, serviços de pagamento eletrônico, tarifas preferenciais, propriedade intelectual, acesso ao mercado de etanol, combate à corrupção e desmatamento ilegal. 


No agronegócio, a disparidade entre o Rio Grande do Sul e o restante do país também é expressiva. Enquanto 32,7% das exportações agropecuárias brasileiras aos Estados Unidos estão submetidas à nova tarifa, no Estado a parcela chega a 70,4%. Em valores, aproximadamente US$ 541 milhões dos US$ 768 milhões exportados pelo agro gaúcho para o mercado norte-americano em 2025 estão dentro da área atingida. No Brasil, a exposição alcança US$ 3,74 bilhões de uma pauta agropecuária total de US$ 11,4 bilhões.


A Farsul calcula que, caso a alíquota de 25% fosse aplicada integralmente sobre o volume exportado no ano passado, o impacto tarifário potencial chegaria a US$ 325 milhões para o conjunto das exportações do Rio Grande do Sul. Somente no agronegócio estadual, o valor estimado seria de US$ 135 milhões.


Esses números não representam, necessariamente, prejuízo direto na mesma proporção. A entidade ressalta que os efeitos dependerão da reação do mercado, da capacidade de renegociação dos contratos, do comportamento dos compradores e da possibilidade de redirecionamento das mercadorias.


Parte do custo poderá ser absorvida pelos exportadores por meio da redução das margens de lucro. Outra parcela poderá ser repassada aos preços pagos pelos importadores e consumidores norte-americanos. Também existe o risco de empresas dos Estados Unidos buscarem fornecedores em outros países, reduzindo a participação brasileira naquele mercado.


A concentração do impacto em poucas cadeias produtivas aumenta a preocupação. Os cinco principais produtos agropecuários gaúchos alcançados pela medida representam aproximadamente 64% de toda a exposição do setor no Estado.


O fumo não manufaturado do tipo Virgínia ocupa o primeiro lugar. Em 2025, as exportações gaúchas desse produto para os Estados Unidos somaram US$ 122 milhões, com um impacto tarifário potencial estimado em US$ 30 milhões.


Na sequência aparecem a madeira serrada de pinus, com vendas de US$ 81 milhões e efeito potencial de US$ 20 milhões; os calçados de couro, com US$ 62 milhões exportados e possível incidência de US$ 16 milhões; o fumo do tipo Burley, com US$ 49 milhões e impacto aproximado de US$ 12 milhões; e o sebo bovino, com US$ 33 milhões em vendas e projeção tarifária de US$ 8 milhões.


Somados, os diferentes produtos de fumo respondem por aproximadamente um terço da exposição do agronegócio gaúcho à nova política comercial norte-americana.


A situação preocupa especialmente o Vale do Rio Pardo, o Centro-Serra e outras regiões cuja economia depende da produção, do beneficiamento e da exportação de tabaco.


A cadeia da madeira também aparece entre as mais vulneráveis. Além da madeira serrada de pinus, diferentes segmentos de madeira processada, compensados e produtos voltados à construção e à indústria permanecem sujeitos à sobretaxa. O aumento do preço de entrada nos Estados Unidos pode pressionar contratos, reduzir encomendas e afetar empresas instaladas principalmente na Serra, nos Campos de Cima da Serra e em áreas produtoras de florestas plantadas.


O setor calçadista, já submetido a forte concorrência internacional e a oscilações cambiais, enfrenta uma dificuldade adicional. Os Estados Unidos são um mercado tradicional para o calçado brasileiro, especialmente para produtos de maior valor agregado. Uma cobrança de 25% pode reduzir a competitividade das fábricas gaúchas diante de concorrentes asiáticos e de países que não estejam sujeitos ao mesmo tratamento.


A lista final de exceções, no entanto, produziu algum alívio. Entre os produtos que ficaram fora da sobretaxa estão ferro-gusa, determinados itens de madeira, hidróxido de alumínio, couros bovinos, pescados, mel orgânico, café solúvel sem sabor, sucata de ferro e aço, obras de arte e alguns produtos farmacêuticos.


A ampliação das exclusões reduziu a abrangência da medida em relação à proposta apresentada inicialmente pelo USTR. Na versão preliminar, 43,7% das exportações brasileiras aos Estados Unidos estavam expostas. Na lista definitiva, a participação caiu para 38%.


No Rio Grande do Sul, o percentual recuou de 81,1% para 79%. Dentro do agronegócio, a redução foi de 72,5% para 70,4%. Embora a inclusão de novos produtos entre as exceções tenha diminuído o alcance da tarifa, a pauta gaúcha continua proporcionalmente muito mais atingida do que a nacional.


A nota técnica também chama a atenção para uma limitação metodológica. O cruzamento dos dados foi realizado no nível HS6, uma classificação internacional com seis dígitos. Como algumas exceções norte-americanas são aplicadas a códigos mais específicos ou a usos determinados, a estimativa pode apresentar pequena superestimação em determinados grupos.


Um exemplo é o mel, cuja isenção se aplica ao produto orgânico. Isso significa que nem todo o mel brasileiro necessariamente ficará fora da cobrança. A definição dependerá do enquadramento aduaneiro e das características da mercadoria apresentada na entrada nos Estados Unidos.


A Farsul considera que o início da vigência exigirá acompanhamento permanente das operações. Além da cobrança efetiva nas alfândegas norte-americanas, produtores, indústrias e exportadores terão de observar possíveis revisões da lista, limitações de escopo e regras transitórias aplicáveis às cargas que já estavam em transporte.


O impacto também poderá variar de acordo com o produto. Mercadorias com oferta limitada, contratos de longo prazo ou menor possibilidade de substituição podem manter espaço no mercado norte-americano, ainda que com margens reduzidas. Em outros casos, compradores poderão migrar rapidamente para fornecedores concorrentes.


A medida surge em um momento de elevada incerteza para o comércio internacional. Durante as audiências realizadas pelo USTR, representantes brasileiros argumentaram que a sobretaxa poderia atingir empresas e consumidores dos dois países. O governo brasileiro também declarou que considera injustificadas as razões apresentadas pelos Estados Unidos e que continuará buscando uma solução bilateral. 


Para o Rio Grande do Sul, os números mostram que a discussão está longe de ser abstrata. A nova tarifa alcança cadeias produtivas espalhadas por diferentes regiões do Estado, com reflexos potenciais sobre contratos, faturamento, empregos, renda e decisões de investimento.

A lista de exceções reduziu parte da pressão, mas não alterou o quadro central apontado pela Farsul. Com quase quatro quintos das exportações gaúchas aos Estados Unidos submetidos à cobrança adicional, o Estado entra na nova fase da disputa comercial como uma das unidades da Federação proporcionalmente mais expostas.


O efeito concreto será conhecido somente com o comportamento dos compradores e a execução das primeiras operações após 22 de julho. Até lá, o desafio das empresas será preservar clientes, renegociar custos e buscar mercados alternativos sem perder espaço em um dos principais destinos das exportações gaúchas.


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