Artigo, especial, Carlos Eduardo Bellini Borenstein - A polêmica das pesquisas eleitorais

Carlos Eduardo Bellini Borenstei é Cientista Político

Em toda eleição, as pesquisas de intenção de voto geram polêmicas. Com metodologias distintas, os números de um ou mais institutos acabam divergindo. Naturalmente, as candidaturas que aparecem em posição favorável não contestam os resultados. Por outro lado, quem apresenta números desfavoráveis questiona as pesquisas, pois elas impactam o humor de seus eleitores, assim como a capacidade de mobilização da militância. 

Faltando cerca de três meses para a eleição presidencial, essa polêmica apareceu de forma mais forte nesta semana. A pesquisa do instituto Quaest, divulgada na última quarta-feira (15), mostrou números favoráveis ao presidente Lula (PT) nas simulações de primeiro e segundo turnos – 40% a 28% (primeiro turno) e 45% a 37% (segundo turno).

Além disso, mostrou um índice de rejeição do presidente menor do que o de seu principal adversário, o senador Flávio Bolsonaro (PL): 50% de Lula contra 57% de Flávio. A Quaest apresentou ainda uma mudança na aprovação de Lula (48% de aprovação e 47% de desaprovação) e também na avaliação do governo (36% de índice positivo, mesmo percentual da avaliação negativa).

Os números da Quaest divergem dos levantamentos divulgados também nessa semana pelos institutos Nexus, Futura e PoderData. Nessas pesquisas, Lula e Flávio aparecem tecnicamente empatados nas simulações de segundo turno – no primeiro turno, a vantagem é de Lula.

No Nexus, no primeiro turno, Lula aparece com 40% contra 34% de Flávio. No segundo turno, Lula atinge contra 44% de Flávio. Na Futura, Lula registra 40,1% contra 36,8% de Flávio Bolsonaro no primeiro turno. No segundo turno, Flávio atinge 46,3% das preferências contra 46,1% de Lula. No PoderData, na simulação de primeiro turno, Lula tem 40% contra 34% de Flávio. No segundo turno, Lula registra 45% enquanto Flávio contabiliza 43%.

Os índices de rejeição dos dois players da eleição são similares. Também nessas pesquisas, a desaprovação de Lula supera a aprovação em percentuais que giram em torno de seis pontos. Além disso, a avaliação negativa do governo supera a positiva. 

Uma possível explicação para as diferenças da Quaest para o Nexus, Futura e PoderData reside na metodologia. A Quaest, por exemplo, aplica seus questionários presencialmente, realizando pesquisa domiciliar. Os demais institutos fazem a coleta das entrevistas à distância. A Nexus e o instituto Futura, por exemplo, utilizam o método CATI (Entrevistas Telefônicas Assistidas por Computador).

O PoderData usa a metodologia IVR (Interactive Voice Response, em inglês). Nesse método, uma secretária eletrônica faz as perguntas e o entrevistado responde digitando os números no teclado do próprio celular ou telefone fixo. 

Essas diferenças de métodos são importantes, sobretudo por conta de seu impacto entre o chamado “eleitorado desmobilizado”, ou seja, aquele segmento que possui uma relação esporádica com a política, mas costuma ser o “fiel da balança” em eleições acirradas. 

Essa fatia do eleitorado tem uma tendência a ter maior resistência em responder à pesquisa. Nos levantamentos à distância, isso pode fazer com que esse perfil de eleitor seja mais difícil de ser entrevistado. Nos levantamentos online, o eleitor mais mobilizado é quem mostra maior disposição em responder ao questionário.

Por outro lado, as pesquisas à distância podem captar melhor as chamadas mudanças bruscas na opinião pública, que ocorrem quando surge um fato novo que impacte o tabuleiro da sucessão. Além disso, nas pesquisas à distância, o eleitor pode ficar mais à vontade para expressar seu posicionamento do que na presença do entrevistador em sua casa ou quando ele é abordado por ponto de fluxo.

Também merece ser observada outras questões em relação às pesquisas – e que não se costuma dar a devida atenção, produzindo uma leitura equivocada dos números:

1) A função das pesquisas não é predizer o resultado da eleição. Embora a opinião pública espere que se antecipe o resultado, as pesquisas são um retrato do momento; 


2) As pesquisas não mensuram neste momento a abstenção, que tem sido elevada, girando em torno de 20% nos últimos anos – nos levantamentos mais próximos do primeiro turno, a Quaest costuma aplicar o chamado Likely Voter, instrumento que se busca identificar a motivação, o interesse e o grau de participação em eleições anteriores. O objetivo do Likely Voter é atribuir a cada entrevistado uma probabilidade ou chance de ir votar, buscando amenizar o efeito da abstenção. A questão da abstenção é importante, sobretudo na eleição presidencial, pois a maior abstenção, que costuma ser mais elevada entre eleitores de menor renda e escolaridade, é potencial mais prejudicial para Lula


3) Na véspera da eleição, as pesquisas podem ser impactadas pelo chamado “voto útil”. Isso ocorre quando uma parcela dos eleitores muda de voto com objetivo de tentar derrotar o candidato que mais antipatiza, podendo gerar mudanças no comportamento eleitoral; e


4) Fatos novos são uma constante nos processos eleitorais, gerando mobilizações na reta final. Esses movimentos, quando ocorrem perto da eleição, são difíceis de serem captados pelas pesquisas.

Em que pese as diferenças de metodologia, assim como as vantagens e limitações dos diferentes métodos utilizados pelos institutos de pesquisas, é importante observamos que: 

1) Lula e Flávio Bolsonaro polarizam a sucessão;


2) Lula está em vantagem no primeiro turno. No segundo turno, com exceção da Quaest, que mostra o presidente com oito pontos à frente do senador, o quadro é de empate técnico. Ou seja, Lula tem uma vantagem parcial, mas a sucessão está em aberto;


3) A aprovação de Lula e a avaliação do governo dividem a opinião pública. Mesmo na Quest, que indica uma recuperação da popularidade presidencial, o quadro é de empate técnico entre a aprovação e a desaprovação do presidente, refletindo o fenômeno da polarização calcificada;


4) A maioria dos eleitores acha que Lula não merece um novo mandato. O paradoxo é que mesmo entendendo que o presidente não merece ser reeleito, ainda prefere o presidente à Flávio; 


5) O espaço para uma alternativa “fora da polarização” é limitado, e a disputa entre Lula e Flávio deve ser decidida por uma margem estreita de votos. Vale observar que Lula agrega poucos novos eleitores do primeiro para o segundo turno – o presidente 40% das intenções de voto no primeiro turno, e 45% no segundo turno.


Por todos esses aspectos, propostas como a implementação de um "selo de acurácia eleitoral" para premiar aqueles que mais acertarem os resultados do pleito parece ser pouco afetivo, afinal de contas, como dito anteriormente, a função de uma pesquisa eleitoral não é predizer o resultado da eleição, mas sim mensurar o clima da opinião pública naquele momento em que o levantamento é realizado. 

A medição desse clima será impactada pela metodologia –os institutos utilizam métodos distintos – assim como fatores como abstenção; movimentos de última hora dos eleitores; e fatos novos, que são complexos, deixando os processos eleitorais cada vez mais imprevisíveis. 


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