Ives Gandra Martins fala no Senado sobre o ingresso da Venezuela no Mercosul

Depoimento na Comissão de Relações Exteriores do Senado por ocasião do pedido da Venezuela para ingressar no Mercosul.

Eu vejo o entrosamento, a integração da Venezuela no Mercosul analisando sob quatro aspectos: o político, o econômico, o jurídico e o técnico. Em relação ao político, indiscutivelmente, ternos todas essas preocupações apresentadas pelo Ministro Celso Lafer.

Há três ou quatro meses, para um debate, estudei as constituições brasileira, venezuelana,
boliviana e equatoriana. E uma das grandes características da Constituição Brasileira, que permitiu vivermos sem problema de qualquer espécie nos últimos 21 anos, é exatamente o equilíbrio dos poderes. Tivemos crises sérias, entre 1988 e agora, e nunca se falou em golpes de Estado ou em rupturas institucionais, porque a nossa Constituição, até porque formatada para um sistema parlamentar de Governo, só no Plenário se transformou numa Constituição para um regime presidencial. De tal maneira, que esse equilíbrio de poderes faz com que a democracia brasileira seja estável. A constituição venezuelana, que anotei em diversos dispositivos, é uma constituição de rigor que apresenta dois poderes: o Poder Executivo e o povo. Aliás, formatada como a constituição equatoriana e bolivariana num grupo de estudos de constitucionalistas espanhóis do CEPS, Centro de Estudos de Problemas Sociais, na qual o povo é o detentor de todo poder democrático e o seu representante natural é o Presidente, é o Executivo, razão pela qual os plebiscitos, os referendos se multiplicam.

0 Poder Legislativo e o Judiciário, que são poderes relevantes, perdem sua função dentro de um sistema semelhante, razão pela qual são Constituições de países que ainda vivem um aprendizado de democracia de um poder só. Porque sabemos perfeitamente que o povo se expressa por meio dos seus representantes e dificilmente o povo pode discutir os grandes temas em nível de plebiscitos e de referendos. Então, não temos, efetivamente, na Venezuela, um regime democrático propriamente dito, embora tenha uma Constituição com princípios muito bonitos. Isso traz preocupações.

Vê-se nas consultas sucessivas do Presidente Chávez posições efetivamente não democráticas. No último plebiscito, inclusive, não se permitiu que a oposição ocupasse os mesmos espaços do Governo, para a defesa da reeleição e por mais de um mandato. Por outro lado, vimos manifestações do Presidente Chávez que, muitas vezes, não são próprias de um chefe de Estado, como quando atacou o Senado Brasileiro ou quando disse que as empresas são todas do Governo.

Vale dizer, a sociedade está representada pelo Executivo e o Executivo, que é o Presidente Chávez, faz aquilo que lhe parece o mais importante: colocar seu projeto socialista, seja em invasão de Órgãos de comunicação, ao negar recursos aos Governos de oposição que ganharam as últimas eleições ou expropriando empresas. Esta é a razão pela qual concordo com o Ministro Celso Lafer, no sentido de que não temos propriamente uma democracia nos moldes propugnados pelo Tratado de Assunção. Essa é a razão pela qual, politicamente, deveríamos aguardar um pouco a evolução dos acontecimentos na Venezuela, para verificar se este modelo de Constituição de dois poderes, povo e Poder Executivo, e dois poderes acólitos, Judiciário e Legislativo, é um modelo propriamente democrático. Então, me parece que, nesse particular, creio que ainda não é o momento de a Venezuela entrar no Mercosul, muito embora seja extremamente relevante sua presença futura no bloco.

Do ponto de vista econômico, faria algumas considerações. Todo trabalho em torno do progresso das relações econômicas Brasil-Venezuela, de 2003 para cá, a rigor, aconteceram independentemente da participação do país vizinho no Mercosul. Em outras palavras, temos um tratado, que prevalecerá até 2011, com o Pacto Andino. Por meio desse acordo, temos um superávit na balança comercial, muito embora, se analisarmos o que os outros países, principalmente os chineses, tiveram de aumento de exportação para a Venezuela, verificaremos que o Brasil ainda está atrás.

A Venezuela, de certa forma, vive urna monoeconomia, a monoeconomia do petróleo. 0 que leva, evidentemente, a urna situação que beneficia muito nossa balança comercial, mas que também agraciou outros países que chegaram a crescer 450%, contra os 250% de incremento em nossas relações econômicas. Eu não sou contra a entrada da Venezuela, mas entendo que temos que esperar até que se prove que é uma democracia e respeita contratos e direitos de propriedade. Podemos manter, até 2011, a garantia dos acordos comerciais que asseguram a projeção brasileira no que concerne as relações econômicas, comerciais e mercantis com a Venezuela.

Do ponto de vista jurídico, preocupa-me profundamente o direito de veto na Tarifa externa comum e nos acordos extra Mercosul. O estilo histriônico do Presidente Chávez, que não se controla quando está perante o microfone e parece ter a síndrome do holofote, pode, efetivamente, trazer problemas seríssimos, de vetar relações que poderiam fortalecer o Mercosul. Isso também poderia atingir o Sistema de Solução de Controvérsias.

0 eminente Professor Joao Grandino Rodas, membro titular, indicado pelo Brasil, do Tribunal Arbitral Permanente de Revisão do Mercosul e companheiro do Ministro Celso Lafer na Universidade de São Paulo, declara que poderemos ter, com a entrada da Venezuela, problemas sérios em relação ao Tribunal Permanente de Recursos. Preocupa-se com a entrada da Venezuela. Conversamos longamente antes da minha vinda. Numa primeira fase, há necessidade de consenso para o exame das controvérsias e se a Venezuela não der, não é da tradição dos países o recurso ao Tribunal Permanente de Resoluções (TPR), o que poderá deixar sem solução inúmeras controvérsias. Então, sob o ponto de vista jurídico, parece-me prudente esperar antes de se admitir um país que não tem o perfil democrático que desejaríamos e cujo presidente apresenta demonstrações histriônicas, inclusive desrespeitando o Senado brasileiro em suas manifestações.

Do ponto de vista crítico, esse me parece o aspecto mais relevante. 0 Embaixador Simões, em função do encontro de Salvador, poderá trazer novos dados, mas os dados são preocupantes. Na União Europeia há necessidade de adesão ao Acervo Normativo completo. Ora, em 169 das 783 normas não há indicação de prazo para definir a
Integração da Venezuela no Mercosul. Quer dizer, estaríamos permitindo o ingresso sem que ela definisse prazos suficientes no que diz respeito ao acervo normativo, em que o país que entra tem de aceitar e apenas diz o período de adequação.

Em relação a adesão a TEC, definiram-se prazos e percentuais, mas não se definiram os produtos e nem a lista de produtos. Ora, o que é mais relevante no TEC é saber efetivamente a lista de produtos. Quanto à implementação de livre comércio, não há conclusão do cronograma da liberalização entre Venezuela e Brasil. Ainda há gargalos sobre as negociações com terceiros países. Na proposta estão há mais de 270 dias sem qualquer manifestação venezuelana sobre as mesmas.

Entendo que a entrada da Venezuela é importante, mas não vejo necessidade de pressa para uma decisão, pois temos um acordo até 2011. A crise está levando o Presidente Chávez à expropriação de empresas e uma retórica contra a propriedade e a contratos estabelecidos, fundamentos de uma economia de mercado que lastreou inteiramente a formação dessa união aduaneira. Sou professor honorário da Universidade Austral, em Buenos Aires, e alguns professores da entidade, na área de Direito Constitucional, Direito Econômico, Direito Tributário, que advogam para empresas argentinas, estão profundamente preocupados. Três empresas argentinas foram expropriadas e qual seria a garantia de que outras não venham a ser expropriadas, uma vez que o Presidente declara que todas as empresas pertencem aos venezuelanos? Existe, em função disso, um movimento para que a Argentina reveja a adesão da Venezuela ao Mercosul.

Ora, se sabemos que a propriedade e o contrato são fundamentais. O Presidente Chávez prometeu ao Presidente Lula que não haveria desapropriação de empresas brasileiras, mas dois dias depois mandou um recado à Presidente da Argentina, Cristina Kirchner, dizendo que estava brincando com o Chefe de Estado brasileiro. Como acreditar em sua palavra se promete algo ao Presidente Lula e desmente para não ficar mal com a Presidente Kirchner?

0 que mais me preocupa é o poder de veto na solução das controvérsias, nos acordos com países e nas próprias definições do Mercosul, porque não existem regras claríssimas que devem ser colocadas para a Venezuela. Então, sem a conclusão de todos esses aspectos técnicos, seria colocar o carro diante dos bois. Porque, na verdade, estaremos integrando a Venezuela antes de termos a conclusão, que era fundamental desde a formulação do protocolo, dos grupos de trabalho, inclusive do grupo ad hoc criado posteriormente para a adesão da Venezuela.

Então, devemos aguardar a conclusão desses grupos de trabalho antes de aprovar a entrada da Venezuela, senhor Presidente.

O pesado estado gaúcho e brasileiro está matando a tiros a sua gente.

O pesado estado gaúcho e brasileiro está matando a tiros a sua gente.
Neste final de semana somente em Porto Alegre no domingo dois assassinatos brutais. Uma jovem médica que foi alvejada em uma tentativa de assalto, apenas por estar com as portas do seu carro travadas. Pergunto: quem de nós nos dias de hoje anda com as portas destravadas? Ou seja qualquer um de nós pode ser morto a qualquer momento. Basta estar na hora certa e no local certo, sob a óptica do bandido. Além da jovem um porteiro, trabalhador que deveria sustentar sua família com sua atividade, foi morto chegando ao trabalho.
A violência este descontrolada e o que o estado tem a ver com isso? TUDO.
Precisamos de policiamento ostensivo nas ruas, policiais bem armados, treinados  e equipado, além de dignamente remunerados. Precisamos de estratégia para combater o crime. Para atender estas necessidades não existe complexidade. Apenas vontade política e recursos públicos. Aí começa os problemas os governantes afirmam que não há dinheiro. Isto é fato. Portanto diante de uma situação concreta com esta algo precisa ser feito. Quando o dinheiro para a alimentação começa a faltar o que as famílias fazem? Reorganizam seus orçamentos. Cortam o tênis novo do filho, a boneca que a filha quer, adiam a troca da televisão e do sofá e etc.  Ou seja cortam custos. E para um pai ou mãe de família cortar custos requer coragem, pois qual pai ou mãe gosta de negar algo que seu filho tanto quer? Porém existe um propósito maior. A alimentação. Ingrediente essencial para a vida.
Pois bem, para prover segurança o governo precisa investir. Se o caixa está zerado, cortes precisam ser feitos imediatamente. Os supérfluos para o estado precisam ser eliminados imediatamente , pois segurança pública é algo primário para a constituição de uma sociedade. As pessoas estão morrendo diariamente. E cada dia que passa o estado paquidérmico contribui diretamente para a morte de seus cidadãos. O caos está instalado.
Neste rápido post de facebook podemos listar uma série de ativos que o estado do RS, por exemplo poderia se desfazer. Porque um estado precisa bancar uma rede de televisão enquanto as pessoas morrem assasinadas? Porque o estado precisa ter uma gráfica enquanto as pessoas morrem assassinadas? Porque uma companhia de silos enquanto as pessoas morrem assassinadas? Porque a gestão de serviços penitenciários, estradas e até uma universidade estadual enquanto as pessoas morrem assassinadas?
Quantos policiais, equipamentos, salários poderiam ser contratados, comprados e pagos com os recursos que hoje são mal versados nas estruturas que citei acima? Tenho certeza que os governantes já devem ter dito não para seus filhos. E acredito que o não amoroso para um filho é muito mais difícil  de dar do que um não as corporações e aqueles que defendem um estado gigantesco. Não temos mais tempo para discutir o tamanho do estado. Esta discussão está ultrapassada e o modelo do estado provedor de tudo está claramente falido. Pois quem quer prover tudo não provém  nada. Basta perguntar para os filhos, maridos, irmãos, país e amigos das vítimas. Será que eles preferem a TVE ou a UERGS  ou prefeririam mais segurança ao invés destas estruturas. Se você ainda tem dúvida se coloque no lugar deles e imagina que fosse sua mãe ou filha a vítima.
Pois bem, precisamos exigir que nossos governantes tomem providências. Se movimentem. Tenham coragem e reorganizem o estado afim de possuir recursos para investir no que a sociedade necessidade para sobreviver.
Qualquer discussão em outro sentido não passa de proselitismo e retórica política daqueles que querem chegar ao poder e defender suas teses estatistas por cima dos cadáveres de seus semelhantes.
Rodrigo Lorenzoni

Médico-Veterinário 

Artigo, Astor Wartchow - Olimpíadas e Transtorno Bipolar

Artigo, Astor Wartchow - Olimpíadas e Transtorno Bipolar

O comportamento da coletividade brasileira se assemelha muito aos casos de indivíduos que sofrem de transtorno bipolar. Afinal, alterna períodos de bom humor, energia e impulsividade com períodos de depressão e irritação profundos.
Tocante as pessoas, as causas concentram-se em aspectos biológicos, hormonais, hereditários e, inclusive, decorrentes do meio ambiente.
Quanto ao comportamento nacional, podemos fazer analogias. Peculiaridades biológicas podem ser associadas a aspectos e diferenças étnico-regionais. Desequilíbrio entre neurotransmissores e hormônios pode ser relacionado às diferenças retóricas de líderes políticos - pródigos em populismo e ilusionismo – e a reação popular.
Se na doença de fato a hereditariedade é uma suspeita de causa, no anacrônico comportamento nacional é uma certeza. Nada mais repetitivo historicamente do que nossas alternadas crises de auto-estima, euforia e depressão profunda.
O meio ambiente como causa do nosso transtorno coletivo também é uma certeza. Afinal, o discurso predominante é de que “a culpa de tudo é sempre dos outros!”’.
Nos fatores de risco, as semelhanças entre indivíduos e a nação são instigantes. Afinal, não nos faltam históricos familiares (repetição de fatos na história nacional), estresse intenso e constante, uso e abuso de drogas (político-ideológicas) e experiências traumáticas.
Enquanto que entre indivíduos os sintomas podem variar, tocante o amado Brasil os sintomas são bastante repetitivos e comuns. Na fase depressiva revela desânimo e tristeza, dificuldade de concentração e tomada de decisões, falta de energia, sentimento de inutilidade e desesperança, e baixa auto-estima.
Na fase maníaca chama atenção a distração, diminuição da capacidade de discernimento, descontrole de temperamento, gastos financeiros excessivos, hiperatividade, falação em excesso, ilusão sobre si mesmo e suas habilidades (auto-estima alta).
Por que estou escrevendo sobre isto? Considere as reações relativas aos eventos Copa do Mundo e Olimpíadas, a demagogia dos governantes, e as respectivas contas a pagar que virão no presente e no futuro. Quer exemplo melhor?

Como na doença dos indivíduos, a sucessão de episódios pode resultar em psicose, o que se caracteriza por uma perda de contato com a realidade.

Juiz americano diz que Lava Jato é exemplar

Juiz federal no Estado de Maryland, nos Estados Unidos, o americano Peter Messitte diz que o julgamento do mensalão e a Operação Lava Jato deixaram para trás os tempos em que escândalos de corrupção política terminavam em pizza no Brasil.
"Por muito tempo os brasileiros reclamaram da impunidade, e muitos achavam que era algo com que se devia conviver", ele diz em entrevista à BBC Brasil. "Isso mudou."
Segundo ele, a atuação do juiz Sérgio Moro e dos procuradores e policiais federais da Operação Lava Jato é citada em conferências globais como um exemplo do que pode ser feito contra a corrupção.
Ele afirma, porém, que há questionamentos legítimos sobre o uso de prisões preventivas no processo para conseguir acordos de delação premiada, quando réus confessam os crimes e aceitam colaborar com as investigações em troca de penas menores. Vários réus na Lava Jato foram presos antes de serem condenados e negociaram acordos de delação enquanto estavam na prisão.
Messitte criou laços com o Brasil na década de 1960, quando passou dois anos fazendo trabalho voluntário em São Paulo e aprendeu português. Desde então, visitou o país várias vezes e se tornou um dos maiores especialistas estrangeiros no Judiciário brasileiro.
Ele conheceu o juiz Sérgio Moro em julho, quando ambos participaram de um evento no Wilson Center, em Washington, e almoçaram na American University, onde Messitte dirige o Programa de Estudos Legais e Judiciais Brasil-EUA.
Leia abaixo os principais trechos da entrevista com o juiz americano:
BBC Brasil - Em 2008, o senhor disse numa palestra sobre corrupção no Brasil que "talvez tenha ficado para trás o tempo em que tudo terminava em pizza". A previsão estava certa?
Peter Messitte - Obviamente as coisas mudaram, e o cenário hoje é bem diferente. A forma como os casos do mensalão e da Lava Jato emergiram representam avanços significativos na luta contra a corrupção política. Vocês estão encontrando malfeitores, e em muitos casos eles têm sido julgados e condenados.
É um caminho irreversível. O público está disposto a sair às ruas. Não é mais provável que as coisas acabem em pizza hoje ou no futuro. É uma mudança drástica.
BBC Brasil - Juízes e advogados nos EUA acompanham a Lava Jato?
Messitte - A maioria dos juízes e advogados entende que houve acusações de corrupção massiva no Brasil, que houve denúncias e confissões. Há muitas conferências e atividades anticorrupção acontecendo pelo mundo, com envolvimento do Banco Mundial e entidades como a Transparência International.
A atuação do juiz Moro, do Ministério Público e da Polícia Federal na Lava Jato sempre aparece como um exemplo do que pode ser feito.
Image copyrightAG. BRASILImage captionO juiz Sérgio Moro é o responsável por uma das maiores investigações da história brasileira
BBC Brasil - Como compara o caso do mensalão e a Lava Jato?
Messitte - Eles são um pouco diferentes pela natureza da corrupção. O mensalão eram pagamentos por um partido a políticos no Congresso. Na Lava Jato, há mais atores envolvidos.
Nos dois casos, vemos o começo do uso da delação premiada contra o crime organizado no Brasil. Houve algumas delações no mensalão e muitas na Lava Jato. É um desenvolvimento importante.
E a Lava Jato está sendo muito mais rápida. No mensalão, passaram-se muitos anos até o caso chegar ao Supremo. Na Lava Jato, muitas sentenças já saíram em dois anos.
A principal mudança foi a prisão preventiva. Muitos acusados na Lava Jato foram postos na prisão antes do julgamento. Isso realmente aumentou a pressão sobre eles para que fechassem acordos, cooperassem e depusessem contra outros para sair da prisão mais cedo. Isso não aconteceu tanto no mensalão.
Há críticas a serem feitas, se a prisão preventiva pode ser uma ferramenta para estimular pessoas a fazer delação premiada. Muitos questionam isso do ponto de vista constitucional.
BBC Brasil - Tem havido abuso no uso das prisões preventivas?
Messitte - Se a pessoa pode fugir, contribuir para a continuação das atividades criminosas ou destruir provas, há uma boa razão para prendê-la antes do julgamento. Esse deve ser o critério. Não tenho razões para acreditar que o juiz Moro esteja usando as prisões preventivas por outras razões além dessas.
Houve casos em que ele ordenou a prisão preventiva e o Supremo reverteu a decisão. Ainda terá de ser resolvido até onde a prisão preventiva pode ser usada sem que haja exagero. Esse é um debate legítimo e que eventualmente chegará ao Supremo.
Se as pessoas vão fazer delações premiadas, poderiam fazê-las sem a pressão da prisão. A ideia é que as delações premiadas sejam voluntárias. Se há presunção de inocência, por que alguém pode ser preso antes da determinação final sobre sua culpa?
BBC Brasil - Nos EUA, é comum que réus sejam presos para estimulá-los a fazer uma delação?
Messitte - Não, não seria próprio pôr alguém na prisão com o único propósito de arrancar uma delação premiada. Nenhum juiz concordaria com isso. No sistema federal, onde sirvo, os critérios para a prisão preventiva são risco de fuga ou risco à comunidade.
BBC Brasil - Alguns no Brasil questionam a confiabilidade das delações premiadas, dizendo que réus podem mentir só para sair da prisão.
Messitte - Teoricamente, isso é possível em alguns casos. Mas para aprovar o acordo de delação - que é negociado pelo Ministério Público -, o juiz tem de verificar se ele é legal, regular e voluntário. Se determinar que a pessoa está mentindo ou que há algo irregular na forma como depôs, não deve aprová-lo. E não é suficiente admitir a culpa para entrar num acordo, é preciso colaborar.
Image copyrightAG. BRASILImage captionO juiz americano conheceu Sérgio Moro em julho, quando ambos participaram de um evento no Wilson Center
BBC Brasil - Na última década o combate à corrupção no Brasil esteve muito enfocado em iniciativas legais, como a aprovação da Lei da Ficha Limpa. Em que medida a corrupção pode ser combatida por leis, e em que medida é uma questão cultural mais complexa e difícil de ser sanada?
Messitte - Por muito tempo os brasileiros reclamaram da impunidade, e muitos achavam que era algo com que se devia conviver. Isso mudou.
A ideia agora é: "não precisamos aceitar isso, não é a forma como deve ser". O Brasil virou a página. Houve uma mudança cultural, e foram as leis que fizeram isso, leis que definiram o que é a corrupção política.
As delações premiadas começaram no Brasil nos anos 1990 com os crimes hediondos. De repente, passaram a ser usadas contra o crime organizado, porque leis ampliaram a possibilidade de que fossem aplicadas nesses casos.
BBC Brasil - O juiz Sérgio Moro é uma figura controversa no Brasil, tratado como herói por uns e acusado por outros de abusar de seus poderes e agir politicamente. Que impressão teve dele ao encontrá-lo?
Messitte - Achei que ele é um cara muito direto e decente. Não detectei nele qualquer inclinação política. Há leis no Brasil contra corrupção, lavagem de dinheiro e extorsão. Alguém tem de aplicá-las. Não esqueçamos o papel do Ministério Público e da Polícia Federal: eles podem não ter a mesma publicidade que o juiz Moro, mas merecem o mesmo crédito.
Às vezes, quando você aplica a lei e isso fere alguém, essa pessoa se diz vítima, afirma que sua decisão é política. Algumas pessoas te amam pelo que faz, e outros te odeiam.
Eu aprecio as posições dele. Imagine se, diante de depoimentos de informantes internos de que havia corrupção massiva [na Petrobras], um juiz dissesse que ninguém é culpado e não aceitasse nenhum acordo de delação?
Haverá erros no processo? Não tenho dúvida. Espero que eles sejam corrigidos na apelação. Mas menos de 5% das decisões de Moro foram revertidas até agora.
BBC Brasil - Não é arriscado e indesejável que um juiz se torne uma figura tão pública e atraia tanta atenção?
Messitte - É inevitável. Às vezes, acontece o inverso. Veja o que ocorreu com Giovanni Falcone e Paolo Borsellino na Itália. Estavam indo atrás do que consideravam a verdade e terminaram na situação mais infeliz [os dois juízes foram mortos após julgarem grandes casos contra a máfia italiana].
Deve-se dar crédito a Moro pela coragem. Esse cara inspirou um grande número de brasileiros, [mostrando] que há possibilidade de Justiça, de tratamento igualitário perante a lei. Qual a última vez que isso aconteceu no Brasil? Você não vê figuras assim com frequência.


Desdobramentos da Lava-Jato terão grande impacto nas urnas, avaliam especialistas

14/08/2016
Jornal o Estado de Minas
Envolvimento de políticos no esquema de desvios na Petrobras deve levar a um maior índice de votos brancos e nulos

Brasília – A Operação Lava-Jato, desencadeada em março de 2014, vai influenciar diretamente, sobretudo nos grandes colégios eleitorais, as eleições municipais. Há dois anos, durante a corrida presidencial que reelegeu Dilma Rousseff (PT), os efeitos foram bem menores porque os investigadores ainda não tinham chegado diretamente ao chamado núcleo político do esquema. A conclusão é de cientistas políticos. Eles acreditam que, agora, a operação pode levar a um maior índice de votos brancos e nulos e até de abstenções por servir de combustível para potencializar um descrédito histórico na classe política brasileira. Apesar de envolver uma gama variada de partidos políticos, todos são enfáticos em apontar o PT como o maior prejudicado pelos efeitos das investigações.

O professor do Instituto de Ciência Política da Universidade de Brasília (UnB) Paulo Calmon diz, porém, que é preciso levar em consideração as especificidades de cada disputa eleitoral. “Há uma dúvida, no entanto, em relação a essa influência no voto de cada eleição específica. Os efeitos, por exemplo, podem ser ignorados na disputa no Recife ou em Curitiba porque ambos os candidatos estão igualmente envolvidos, falando de maneira hipotética.”

Calmon acredita que a Lava-Jato será responsável por abrir uma grande oportunidade para grupos que contestam a estrutura política atual no país. “Obviamente, vai existir influência na medida em que boa parte da elite política brasileira está diretamente envolvida em episódios relacionados de alguma maneira à Lava-Jato. Seja envolvimento individual ou dos partidos, a população está influenciada por essa marca de desconfiança do sistema político e partidário. Afeta porque o prestígio dos partidos, e o político em geral, está abalado”, diz. Ele faz uma leitura de que haverá uma potencialização da descrença na classe política. “Acho que esse é um elemento que contribui para desinteresse e descrença em relação aos políticos. E isso, inegavelmente, fortalece a tendência das pessoas ignorarem a eleição. É muito ruim. Sobra para todos os partidos, mas o PT será o mais afetado.”

IMAGEM O doutor em ciência política pela UnB Leonardo Barreto avalia que o PT começou a pagar a conta da Lava-Jato antes mesmos das eleições. “A operação já influenciou, a começar pela mudança da Presidência da República. Agora, a expectativa é de que o candidato do PMDB ou apoiados pelo partido possam ter vantagem por ter acesso a recursos que não tinham antes”, diz. Ele analisa que o déficit de imagem do partido é grande e isso respinga em seus candidatos. “A consequência direta é a redução do PT, que terá um déficit de imagem importante, em algumas regiões mais e em outras menos. Uma quantidade grande de petistas deixou o partido. A sigla começou a pagar a conta mesmo antes de disputar o processo eleitoral”, avalia.

Barreto acrescenta que a Lava-Jato já produziu um fato importante para as eleições. “Uma inferência indireta é que os desdobramentos da operação são responsáveis por fazer o Supremo Tribunal Federal (STF) adotar postura contrária ao financiamento privado de campanha. É sem dúvida um filhote da Lava-Jato. A proibição do financiamento privado tem impacto grande nas eleições. Vai valorizar aqueles que tentam a reeleição por ter a máquina pública. Também valoriza os pastores e sindicalistas porque precisam de menos recursos”, declarou. O cientista político avalia a apatia do eleitorado diante de tantas denúncias contra políticos. “Não me surpreenderia se o número de brancos e nulos aumentasse. Já temos uma base de desconfiança muito forte. Você já tem consolidado um grau de abstenção e de votos brancos e nulos. É possível que se tenha um incremento, mas é difícil de estimar.”

Em 2006, os efeitos do mensalão não foram suficientes para impedir a reeleição do presidente Lula. A avaliação é de que a impressionante força política do petista, na época, e um governo muito bem avaliado reduziram a quase nada os desdobramentos do escândalo de compra de apoio parlamentar. Já os candidatos proporcionais em 2006 citados na Operação Sanguessuga amargaram derrotas políticas. Dos 64 deputados e três senadores que responderam a inquérito no Supremo Tribunal Federal (STF) e foram candidatos, a grande maioria passou longe do número necessário de votos para garantir o retorno. Apenas seis citados no caso conseguiram se eleger.


A investigação do núcleo político da Lava-Jato começou em março de 2015, quando o Procurador-Geral da República, Rodrigo Janot, apresentou 28 petições ao STF para a abertura de inquéritos criminais destinados a apurar fatos atribuídos a 55 pessoas, das quais 49 eram titulares de foro por prerrogativa de função. A expectativa é de que a Lava-Jato tenha maior influência em grandes cidades. “Normalmente, as eleições municipais se concentram em temas locais. Os assuntos nacionais quase não aparecem. É mais provável que apareça com mais força nos grandes colégios”, atesta Barreto.

Situação fiscal das capitais deve piorar no segundo semestre

Nesta instigante análise produzida pela equipe de economistas do Bradesco, cuja condução é de Otávio de Barros, recebida ontem a noite pelo editor, fica claro que as 10 capitais que já divulgaram seus relatórios bimestrais, reportaram superávit primário de R$ 6 bilhões no primeiro semestre. Mas avisa: "No entanto, esse resultado tende a se reverter nos próximos meses. Fazendo uma simples simulação e mantendo a variação interanual observada neste primeiro semestre para o restante do ano, essas capitais entregariam um resultado negativo de R$ 3,9 bilhões em 2016, isto é, uma piora de R$ 10 bilhões. Em outra simulação, utilizando a variação anual esperada para as receitas e despesas da União, chegamos a um déficit semelhante para esses municípios, de R$ 3 bilhões".

Leia toda a análise:

Os municípios, considerando os dados completos do primeiro semestre, apontam para uma situação muito semelhante à observada para os estados e para a União. Em um momento em que as receitas estão caindo em termos reais e as despesas seguem regras rígidas que não permitem cortes expressivos, a piora das contas públicas tende a se acentuar. Assim, os municípios estão, em sua maioria, diminuindo os resultados primários obtidos. É por isso que muitos já pediram auxílio da União, tentando acordos para alongamento de dívida como aconteceu com os estados. A União não sinalizou disposição em negociar com os municípios por enquanto, até por falta de espaço fiscal do governo federal. A própria renegociação da dívida dos estados irá afetar positivamente as contas dos municípios – já que alguns estados estariam diminuindo o ritmo de transferências aos municípios, o que melhoraria com a renegociação.
Desempenho mais fraco da economia chinesa em julho reforça expectativa de desaceleração neste segundo semestre
- Há um ano, as preocupações com a China aumentaram diante do anúncio de que o regime cambial do país mudaria, levando a uma forte e rápida depreciação da moeda. Esse foi o gatilho para que a saída de capitais ganhasse força, ao mesmo tempo em que a economia começava a desacelerar de forma mais notável. O governo conseguiu apenas estabilizar a economia no início deste ano, com a intensificação dos estímulos monetários, injetando muita liquidez no sistema – o que levou a uma ampliação agressiva das concessões de crédito. Em paralelo, contendo a depreciação da moeda e aumentando o controle do fluxo, a saída de capital perdeu força.
- Com os dados de julho conhecidos nesta semana, parece que os riscos de desaceleração mais pronunciada da economia chinesa começam a crescer, ainda que a saída de capital tenha sido controlada e os mercados tenham se estabilizado.  Sabe-se que o custo das políticas mais frouxas foi o aumento da alavancagem e a postergação do ajuste da capacidade instalada, além da quase interrupção das reformas estruturais.
- Assim, na ausência de sinalizações mais claras sobre a condução da política econômica neste segundo semestre, podemos fazer duas apostas, sendo uma mais negativa e outra mais favorável para o crescimento de curto prazo. A primeira delas é que, diante dos riscos sistêmicos para o sistema financeiro e da pressão para que a reforma do lado da oferta avance, a desaceleração será mais forte do que esperávamos e a probabilidade de que o crescimento do PIB fique abaixo da meta de 6,5% vem subindo. Por outro lado, ‒ com uma chance maior do que a primeira aposta ‒ podemos assumir que, frente à transição política do Partido que acontecerá no ano que vem, a estabilização da economia será mais importante do que os ajustes estruturais e poderemos assistir a uma nova rodada de afrouxamento monetário e fiscal. Além dos debates relacionados à preservação do crescimento de curto prazo versus o ajuste estrutural de longo prazo, esperamos algum arrefecimento vindo do setor imobiliário e certa estabilidade do renmimbi ao longo deste segundo semestre. 
Octavio de Barros
Diretor de Pesquisas e Estudos Econômicos - BRADESCO 

Filhos querem ser certeiros no Dia dos Pais

      Os filhos querem ser certeiros no próximo dia 14 de agosto. É o que aponta pesquisa realizada em parceria entre a CDL POA e o Sindilojas Porto Alegre sobre o comportamento do consumidor para o Dia dos Pais. Se em 2015 apenas 13% pretendiam perguntar ao presenteado o que ele desejava ganhar, neste ano o percentual subiu para 33% (sem contar os 15% que planejam consultar algum familiar para saber o que homenageado está precisando).
      Mas, se a ideia for manter a tradição da surpresa, não há com o que se preocupar. Na avaliação do presidente da CDL Porto Alegre, Alcides Debus, os pais são mais fáceis de agradar, pois a moda clássica masculina permanece com a mesma essência desde a década de 1920. “Camisas, agasalhos, camisetas e carteiras costumam ser opções acessíveis e sempre bem-vindas no guarda-roupa do homem moderno”, destaca. Se levarmos em consideração que a maioria dos entrevistados (44%) diz que pretende dar roupa – seguida de calçados (10%), perfumaria (8%), objeto decorativo (5%), livro (5%) e carteira 3% –, o próximo domingo deixará os patriarcas contentes.
      De acordo com o levantamento, a comemoração deve movimentar R$ 56,77 milhões, praticamente o mesmo saldo de 2015 (que fechou em R$ 56,58 milhões). A expectativa para o comércio é bastante positiva, destaca Debus, pois conta com dois indicadores otimistas: o índice de inadimplência caindo e o índice de confiança do consumidor crescendo.
      Outro ponto é que as temperaturas mais baixas deste ano prometem estimular a compra destes produtos. Para o presidente do Sindilojas Porto Alegre, Paulo Kruse, a temperatura mais amena nessa semana, que antecedeu a comemoração, pode influenciar o resultado do Dia dos Pais no comércio. Afinal, 53% dos entrevistados na pesquisa disseram que comprariam o presente nesta semana. “Junto disso, estão as liquidações das coleções de inverno e quem souber aproveitar poderá adquirir produtos de alta qualidade com descontos de até 70% pelo fim dos estoques”, garante Kruse.
      O valor do ticket médio deve ficar em torno de R$ 132,80. Na comparação com o valor gasto na comemoração do ano passado, a maioria dos consultados (43%) afirma que manterá a mesma quantia investida e 19% diz que aumentará um pouco, 17% diminuirá um pouco e 3% diminuirá muito. Sobre a previsão de gastos no presente principal, 18% afirmam que devem dispender até R$ 50; 41% de R$ 51 a R$ 100; 28% de R$ 101 a R$ 200; 7% de R$ 201 a R$ 300 e 6% de R$ 301 a R$ 400.
      Pagamento à vista deve ser a modalidade preferida este ano: 34% afirmam que pretendem pagar em dinheiro, 27% por cartão de débito, 25% com cartão de crédito parcelado, 14% em cartão de crédito em uma vez e 1% a prazo, no crediário. O cheque, definitivamente, está em desuso: ninguém apontou esta modalidade de pagamento.
      Os shoppings e as lojas de rua devem atrair a maior parte dos consumidores neste Dia dos Pais, segundo a pesquisa, 58% dizem que irão comprar o presente do patriarca em shopping, seguido por loja de rua (32%), internet (7%) e revendedor (2%).
     
     
  Sobre a pesquisa

      A amostra contou com 300 participantes, homens e mulheres, acima de 18 anos de idade, das classes A, B C, D e E. A pesquisa realizada pela Vitamina Pesquisa.