Artigo, Alon Feuerwerker - Bolsonaro maneja ideologia e pragmatismo, mas vai ficar com o pragmatismo


- O autor é da FSB Inteligência.

Em disputas políticas encaixar a narrativa desejada é mais ou menos como encaixar a pegada no quimono do oponente no judô: meio caminho andado para deixar o adversário de costas no chão. E na política um ippon vale tanto quanto no tatame.

Mas a política tem especificidades. A narrativa bem encaixada exige não ser percebida como narrativa, mas tradução única e fiel da realidade. Melhor ainda se a transição entre narrativas contraditórias acontece imperceptivelmente.

Por exemplo, a narrativa dominante do momento conta que o governo Bolsonaro se divide entre ideológicos e pragmáticos. Estes vêm encaixando melhor a pegada no quimono adversário do que aqueles, e estão em certa vantagem.

Mas quando foi mesmo que a luta contra a chamada velha política e o chamado fisiologismo perdeu de repente protagonismo em favor da ética da responsabilidade?

E depois ainda dizem que o presidente é ruim de jogo. Será? Veja você que ele deixou para ceder espaço político-orçamentário quando isso está sendo quase implorado pelo establishment, em nome da centralidade da sacrossanta reforma da previdência social.

Bolsonaro vai cometer o que a opinião pública chama fisiologismo, mas o custo político será quase zero. Ponto. Significa sem turbulências? De jeito nenhum. A turma do PSL, por exemplo, parece inconsolável por não ter como governar sozinha.

Ou ocupar sozinha os cargos apetitosos.

Acontece que o establishment já percebeu: não é suficiente mandar o mercado pressionar o Congresso, e junto intimidar as excelências com a ameaça de aplicar a força policial. Aliás, quanto mais cedo o ministro da Justiça notar isso melhor (para ele).

O governo é meio neófito, mas leva jeito de ter entendido que governos só têm duas opções: governar ou colapsar. E é sempre bom lembrar: não se conhece poder que preferiu o suicídio político para manter a coerência na narrativa original.

Na Argentina, os liberais antes celebrados como paradigma de coerência agora congelam preços e controlam câmbio. Vale a velha regra do Império, adaptada: nada mais parecido com um heterodoxo que um ortodoxo politicamente pressionado.

Qual é o problema do presidente? Ele precisa fazer o caminho de volta da nova para a velha política sem perder substância, e mora aí a utilidade do chamado olavismo. Este serve para reafirmar a autenticidade. Como foram a política externa e as políticas sociais para Lula.

Bolsonaro tem três opções: 1) rompe com o círculo militar e com a dita velha política e naufraga amarrado ao leme da nau olavista, 2) rompe com o olavismo e aceita virar um pato manco tutelado com menos de seis meses de governo ou 3) segue o jogo.

Fica claro agora que a recentíssima ofensiva olavista-bolsonarista contra os generais tratou de colocar uma barreira de contenção ao namoro da elite com um certo sonho bonapartista-institucional-militar-chique.

Onde está o problema? As duas análises de conjuntura anteriores (em www.alon.jor.br) chamaram a atenção para o efeito político das dificuldades econômicas. Um governo de base gelatinosa e conflagrada fica mais vulnerável quando falta pão.

As projeções econômicas têm sofrido, mas não principalmente por causa de incerteza nas reformas. É porque contrai a demanda agregada. E quanto mais certeza de que vai haver reformas, mais o consumidor temerá o arrocho, e mais se retrairá. Pelo menos no curto prazo.

As projeções econômicas aceleraram o mergulho exatamente quando a reforma da previdência ganhou mais musculatura e deu sinais de que vai passar. O que está fazendo a economia sofrer não são as incertezas, é a certeza do dinheiro pouco.

O risco para o governo é alguma hora consolidar a narrativa de que a economia vai mal por causa da zorra política. Por enquanto as estatísticas mostram que o eleitorado está lançando a culpa na conta do PT. Mas alguma hora o centrismo hibernante vai dizer que a bagunça bolsonarista é a culpada.

Será uma narrativa conveniente, pois a opção seria admitir que a política econômica talvez não seja tão boa assim. E isso nem pensar.

Mais ou menos o que está acontecendo na Argentina. A narrativa preferida no péssimo momento eleitoral da direita é “a economia não colapsou por causa das políticas do Macri, mas pelo medo da volta da Cristina”. Será?

Nas receitas como a de Paulo Guedes, as coisas costumam piorar antes de melhorar. Não sei quanto de fato Bolsonaro curte o olavismo, mas o presidente parece acreditar que precisa do radicalismo e do histrionismo dele para atravessar o tempo das vacas magra.

Artigo, Valter Lídio Nunes, Zero Hora - Debates desqualificados


O Brasil precisa reformar-se de acordo com novos paradigmas. Bolsonaro foi eleito graças ao sentimento social de rejeição ao status quo, mas ele desconhecia qual seria o novo cenário. O governo ainda não tem os planos para as rupturas que anunciou durante a campanha. Os desencontros de posicionamentos, agravados pelos grupos de governo desalinhados entre si, emitem sinais e falas que redundam em debates desqualificados e polarizados na sociedade e na mídia. Um exemplo foi a fala do presidente sobre os cursos universitários, em que ele afirmou querer mais cursos tecnológicos e menos cursos sociopolíticos. Essa fala repercutiu na sociedade a tese de que os segundos são dispensáveis e, neles, abrigam-se as posições da esquerda. Isto descaracterizou a discussão sobre a educação universitária como plano de desenvolvimento para o Estado. Cabe rever a governança da educação brasileira – o acesso, a gestão, os cursos, as grades curriculares e seu alinhamento com o planejamento do país –, tal qual Coreia do Sul e China fizeram para impulsionar o seu desenvolvimento.

Sabemos que estamos formando, hoje, pessoas para funções que não terão mercado em um futuro próximo, o que nos levará à falta de profissionais para sustentar a curva de crescimento brasileira. Atualmente, faltam médicos para atender aos cidadãos menos favorecidos, por exemplo. A Coreia do Sul planejou a formação de profissionais para industrialização e inovação focando em engenheiros e profissionais das áreas tecnológicas. 
O Brasil tem 2,8 engenheiros a cada 100 mil habitantes (no Japão, são 17 e, na China, 13,8); enquanto temos 60 mil cientistas, os EUA têm 1 milhão, o que nos confere um baixo nível de inovação e de geração de patentes/ano: 41.453 (enquanto nos EUA são 2,2 milhões). Percebe-se que as universidades e entidades de pesquisa brasileiras ainda estão desassociadas do desenvolvimento dos clusters econômicos existentes ou da criação de novos. Como consequência, exportamos produtos de baixo valor tecnológico e deixamos de gerar empregos qualificados no Brasil.

No momento, temos discussões rasas sobre temas importantes em que, antes de se discutir a sua essência, rotula-se o emissor com tarjas de direita, esquerda, liberal, conservador, socialista etc. Os processos de diálogo e de comunicação mal reverberados obstruem debates qualificados, dando espaço para polarizações ou ideologias que impedem que análises visando a posições convergentes de consensos sociais ponderados se sobreponham aos debates desqualificados. Urge iniciarmos um processo de amadurecimento para a concepção de soluções que façam o Brasil evoluir, sem polarizações que diminuem a nossa capacidade de construí-las.

Entenda as novidades do V Simpósio Internacional de Enfermagem, promoção do HMV, Porto Alegre


Programação internacional reuniu 750 profissionais em dois dias de palestras e debates no Hospital Moinhos de Vento.

Lidar de forma humana, transparente e profissional com situações delicadas que surgem no ambiente hospitalar é indispensável na área assistencial. Para debater o assunto e promover boas práticas, o Hospital Moinhos de Vento convidou enfermeiros e técnicos de Enfermagem, além de representantes de outras instituições de saúde, para o V Simpósio Internacional de Enfermagem. Reunindo um público de cerca de 750 pessoas, o evento ocorreu nesta quinta (9) e sexta-feira (10) no Anfiteatro Schwester Hilda Sturm, como parte das comemorações do Dia do Enfermeiro (12) e do Dia do Técnico em Enfermagem (20).

Para o superintendente Executivo do Moinhos de Vento, Mohamed Parrini, foi uma oportunidade para ampliar o conhecimento e qualificar ainda mais o cuidado na instituição. “Temos isso como marca do nosso trabalho. O propósito de cuidar de vidas está no nosso DNA”, afirmou. Fortalecer o envolvimento com os colaboradores também foi um dos objetivos do simpósio, segundo a superintendente Assistencial, Vania Röhsig. “Em um momento que campanhas internacionais como Nursing Now valorizam o papel dos profissionais da Enfermagem, é muito importante realizarmos este tipo de evento”, pontuou.

Comunicação na gestão de conflitos

Entre os destaques da programação, a enfermeira norte-americana Wilma Berends, da Johns Hopkins Medicine International, falou sobre gestão de conflitos e como conversas podem ser usadas de forma assertiva e transformadora. “Há várias causas de conflitos. É importante analisar bem os fatos, métodos, valores, cultura e experiências do grupo”, disse. Ela ainda reforçou a importância da comunicação nesse processo, chamando atenção para o cuidado de interpretar a situação antes de tomar qualquer atitude.

O primeiro dia do Simpósio ainda abordou o manejo de situações difíceis, como a notícia de um falecimento e a conversa com familiares sobre doação de órgãos. Essas e outras realidades delicadas da profissão foram aprofundadas pela coordenadora Assistencial do CTI Adulto, Daiana Barbosa. “O que eu posso fazer para ajudar uma família na dor? Precisamos estar preparados e agir de forma humanizada, olhar para as pessoas de forma verdadeira”, recomendou.

A programação ainda apresentou o relato do caso Julia Lima, a partir da explanação do pai, Francisco Cruz Lima. As considerações sobre a morte da jovem, então com 27 anos, foram transformadas em protocolos de segurança que, hoje, são aplicados em hospitais de todo o Brasil. Na sequência, foi realizada uma conversa sobre eventos adversos e atuação no Hospital Moinhos de Vento, com Aline Brenner (coordenadora de Qualidade e Segurança), Lia Leda (advogada e gerente jurídica) e o médico Paulo Schmitz (chefe do Serviço de Emergência).

O dia encerrou com palestra da coordenadora de Experiência do Paciente, Mariana Moraes. Ela apresentou tendências da saúde 4.0, com a aplicação de realidade aumentada, telemedicina, internet das coisas e big data. E abriu uma reflexão: "A diferença entre o serviço e a hospitalidade está no sentimento. O que a marca deixa?", questionou.

Engajamento dos colaboradores

No segundo dia de debates, foram apresentados métodos para empoderar o paciente e qualificar os serviços prestados pela equipe hospitalar. Vania Röhsig conduziu a conversa com Rita Michel, diretora e coach executiva da Oficina Empresarial – Desenvolvimento, e Wania Baia, diretora Assistencial do Hospital Sírio-Libanês.

Rita detalhou a mentoria para o alcance de resultados – frisando que o termo não significa tempo de vida, mas expertise. “Mentoria é gerar conexão com o outro, através da relação bem construída. É um crescimento sustentável capaz de alterar a perspectiva do que acontece. Para os pacientes, gera experiência no cuidado, aumento no nível de satisfação e fortalecimento da conexão”, ressaltou.

Para Wania, o papel da liderança é essencial na melhoria do desempenho das equipes. “O gestor não precisa ter o conhecimento das melhores técnicas de todos os processos. O verdadeiro sucesso na carreira está na habilidade de lidar com as pessoas. A captação e retenção dos profissionais está cada vez mais difícil, por isso é fundamental entender suas necessidades e acolhê-los”, finalizou.

Destaque nacional

Durante a programação, o presidente do Conselho Regional de Enfermagem do Rio Grande do Sul (Coren-RS), Daniel Menezes de Souza, salientou a excelência da Enfermagem do Moinhos de Vento. Em março, a instituição recebeu o selo de qualidade do Conselho Federal de Enfermagem (Cofen) – sendo o único hospital no Sul do país com esse reconhecimento. "Além da certificação, o Moinhos conquistou a melhor pontuação do país no Programa Nacional de Qualidade do Cofen. É um orgulho para todos”, comemorou.

Gerente de Enfermagem do Moinhos de Vento, Rubia Maestri considerou o simpósio uma oportunidade significativa para compartilhar conhecimento. "São momentos como este que atualizamos práticas e recebemos melhorias que mudarão o tratamento aos pacientes, para que eles tenham os melhores resultados possíveis.”

O simpósio encerrou com a entrega do Prêmio Dania, que homenageou profissionais que se destacaram por uma prática profissional exemplar e modificaram positivamente a experiência dos pacientes no Moinhos de Vento.

Requerimento



REQUERIMENTO N.º             /2019
(Do Sr. Jerônimo Goergen)


Requer a criação de Comissão Externa destinada a realização de diagnóstico sobre os problemas enfrentados pelo sistema de saúde brasileiro.


       Senhor Presidente,
      
       Nos termos do artigo 38 do Regimento Interno da Câmara dos Deputados (RICD), requeiro a Vossa Excelência a instituição de Comissão Temporária Externa, sem ônus para esta Casa, destinada a realização de diagnóstico sobre os problemas enfrentados pelo sistema de saúde brasileiro.


JUSTIFICAÇÃO
      
       Recentemente o Banco Mundial publicou relatório que apresenta Propostas de Reforma do Sistema Único de Saúde (SUS), apontando alguns desafios setoriais e sugerindo alternativas para assegurar maior sustentabilidade ao sistema de saúde, com foco numa gestão eficiente, capaz de integrar os entes federados e de oferecer um melhor acesso à saúde, através do aprimoramento da atenção básica e primária.
       Diante desse estudo e considerando a grave crise vivida pelo sistema de saúde brasileiro, faz-se necessário a realização de um amplo diagnóstico do SUS, verificando, in loco, os gargalos vivenciados pelos entes da federação, de modo que seja possível apresentar propostas alternativas para o aperfeiçoamento e a modernização do sistema de saúde. 
       Certo de que Vossa Excelência bem aquilatará a conveniência e oportunidade da proposta, solicito seja deferido o presente requerimento.

      
      
Sala das Sessões, em        de                          de 2019.



Jerônimo Goergen
Deputado Federal (PP/RS)

Artigo, Tarso Genro, Zero Hora - Cortes nas universidades são atos de exceção


Neste artigo, intitulado "Os demônios e valores no Estado de Direito", o ex-ministro da educação diz que é  um direito dos reitores, alunos, professores e servidores resistirem.

"Behemoth", figura bíblica do demônio da morte, também é nome de banda black-metal surgida nos anos 90 na Polônia. Os seus vídeos sinistros e letras musicais veem o satanismo como autenticidade e liberdade. Já o livro do filósofo-jurista Franz Neumann do mesmo nome – Behemoth – faz uma análise do Estado Nazista e nos aproxima dele – na sua tragédia – para entendermos um outro lado da racionalidade jurídica moderna.

Assim como os roqueiros poloneses formaram a banda Behemoth, identificando valores humanísticos no demoníaco (como a propagação do amor autêntico e da liberdade), os valores selecionados por  Neumann, utilizariam o mesmo símbolo bíblico para pensar outro enigma: aqueles perigos que cercam o Homem, segundo Valery, que seriam a "ordem" e a "desordem". Com esta se perderia a "coerência", dizia ele;  com a outra – a ordem – sofreríamos o risco da "petrificação".

No livro Império do Direito, o jurista judeu e socialdemocrata  — por isso duplamente perseguido por Hitler— buscou o caráter emancipatório do direito burguês, com a seguinte ideia central (em Fuga do Direito, J.R.Rodriguez): "O Estado de Direito se caracteriza essencialmente pela possibilidade de controlar o poder" (...) ele  não admite que o poder político, social, econômico, use o direito como mero instrumento".

Um ato de governo no Estado de Direito, político ou administrativo, não é mero instrumento acionado por uma cadeia racional-burocrática de implementação de um comando, pois deve corresponder a "valores". E estes estão na Constituição, no seu Preâmbulo e nos seus Princípios, que se  refletem em todo o sistema normativo do Estado. São impessoais, morais e legais, dão sentido e coerência à ordem jurídica.

Tanto a decisão burocrático-racional de Eichmann, de prover prisioneiros para os Campos da Morte, quanto o corte de recursos para Universidades — para tentar enquadrar a academia na ideologia de extrema-direita do governo — são nulos e inválidos, perante o Estado de Direito: são atos de exceção. É um direito dos reitores, alunos, professores e servidores resistirem. Em nome da Constituição. "Da Lei e da Ordem".

A velha política corrupta também trancou o passo da apuração de crimes por parte da Receita Federal


Veja abaixo o resultado da votação na comissão mista da MP da reforma administrativa sobre o “jabuti” que proíbe os auditores fiscais de compartilhar indícios de crimes diretamente com o Ministério Público Federal.
Quem votou para limitar a atuação dos auditores fiscais:
Senadora Simone Tebet (MDB)
Senador Fernando Bezerra Coelho (MDB)
Senador Antonio Anastasia (PSDB)
Senadora Rose de Freitas (Podemos)
Senador Ciro Nogueira (PP)
Senador Nelsinho Trad (PSD)
Senador Rogério Carvalho (PT)
Senador Jayme Campos (DEM)
Deputado Valtenir Pereira (MDB)
Deputado Elmar Nascimento (DEM)
Deputado Célio Silveira (PSDB)
Deputado Arthur Lira (PP)
Deputado Marx Beltrão (PSD)
Deputado Alexandre Padilha (PT)
Deputado Luiz Carlos Motta (PR)
Quem votou para não aprovar a emenda:
Senadora Selma Arruda (PSL)
Senador Randolfe Rodrigues (Rede)
Senador Alessandro Vieira (Cidadania)
Senador Otto Alencar (PSD)
Deputado Filipe Barros (PSL)
Deputado Diego Garcia (Podemos)
Deputado Subtenente Gonzaga (PDT)
Deputado Camilo Capiberibe (PSB)
Deputado Daniel Coelho (Cidadania)

Prefácio de Polibio Braga para o livro "A Ideologia da Destruição", Luís Milman


Prefácio
Políbio Braga*

“Assim como não podem negar que o PT roubou de forma inigualável, a estratégia é suavizar o crime, mas a verdade é que a grande maioria das pessoas, no mundo capitalista e democrático, são honradas e se comportam nos limites da moralidade e da legalidade, condenando todos os delitos, sejam eles pequenos ou megadelitos”.
                O enunciado acima pode ser encontrado no capítulo "Falácia esquerdista: a tigrada e a parte pelo todo".
                O capítulo é um dos ensaios e artigos que permeiam esta obra, escrita no final da vida pelo meu amigo, o jornalista, professor e pensador Luis Milman. Ele foi mestre em Filosofia pela PUCRS. Fez estudos de doutorado na Universidade de Tel Aviv e na UFRGS, onde foi professor da Faculdade de Jornalismo, a Fabico.
                Esta publicação é póstuma.
                Luís Milman morreu de infarto fulminante no dia 30 de setembro de 2018, aos 61 aos, enquanto dormia.
                Poucas semanas antes de morrer, meu amigo ligou pelo celular e perguntou se eu poderia prefaciar este livro.
                Foi uma honrosa missão, mas antes mesmo de escrever, recebi a notícia de que ele tinha morrido em casa, dormindo, vítima de infarto fulminante. Nos dias seguintes, deixei a tarefa de lado e me preparei para o velório e o sepultamento. Acompanhei toda a cerimônia de despedida, toda ela realizada no âmbito de uma manhã chuvosa e ventosa, na qual ganhou expressão grandiloquente o elogio fúnebre pronunciado à beira da sepultura pelo advogado, meu e do Luis Milman, Luiz Francisco Corrêa Barbosa.
                Ultrapassados os dias de luto, a família de Luis Milman - a mulher Vera Milman, também jornalista, e os dois filhos, o advogado Francisco e o médico Michael - quiseram cumprir o desejo do meu amigo e incumbiram-me da tarefa de construir este prefácio.
                Li todo o texto com enorme atenção e percebi que estava diante de uma obra concisa, cortante, penetrante e complexa, mais para iniciados do que para o público em geral.
                Eu dividiria este livro em três grandes temas: 1) A desconstrução do marxismo, portanto da sua experiência malsucedida brasileira, o lulopetismo engendrado pelo PT. 2) A diferenciação exata entre judaísmo e sionismo por meio dos tortuosos caminhos da história. 3) O conhecimento através da filosofia.
                Inicialmente, como seu colega jornalista e depois como seu amigo, acompanhei, fiz coro e depois trabalhamos juntos numa cruzada cruel contra o lulopetismo, que acabou nos custando noites indormidas, retaliações profissionais e até mesmo processos judiciais, tudo para nos intimidar e nos calar.
                É uma pena que Luis Milman não tenha vivido para saborear nossa vitória nas urnas, no dia 28 de outubro de 2018, um marco histórico que marca a derrota dos renegados sociais, tudo no âmbito de uma batalha dessa grande guerra contra a escumalha lulopetista e seus aliados marxistas e neomarxistas, sabendo sempre que eles jamais abandonarão suas consignas reducionistas, todas elas marcantes dos atrasos político, econômico e social.
                O trecho que apartei e que encima o que escrevo neste momento, integra aquilo que eu chamo de "desconstrução do lulopetismo". O lulopetismo vem a ser a ideia e a prática pervertidas, tropicais, do marxismo, algo que de outra maneira também caracterizaram o comunismo soviético e ainda sobrevivem através da miséria castrista e da esquizofrênica mancebia dos dois sistemas econômicos e um só regime político da China e do Vietname.
                Eu estudei e conheci pessoalmente todas essas experiências.
                Neste livro, Luis Milman vai fundo na análise filosófica e sociológica do marxismo, mas sempre com os pés fincados em cima da experiência corrompida do lulopetismo, tema sobre o qual polemizou de maneira recorrente, corrosiva e irrespondível como articulista de blogs e sites.
                Ele explica seu fervor de polemista no capítulo "A lógica comunista é perversa", quando escreve:
                - Há uma lógica perversa e contínua na prática da persuasão comunista, desde o seu surgimento, no século XIX, até hoje. O Manifesto Comunista de 1848, a Mensagem da Direção Central à Liga dos Comunistas (1850), o panfleto leninista "Que Fazer?", as atas dos atuais Foro de São Paulo e Fórum Social Mundial, assim como os decretos da Venezuela, Bolívia e do Brasil na era petista, reproduzem o desejo de interferência e captura das relações humanas, em todos os níveis, do Estado controlado pelo Partido.
                É exatamente ao tratar do "conhecimento através da filosofia", a segunda mais importante parte deste livro, que o autor procura explicar o sentimento antissemita da esquerda.
                Luís Milman se debruça exaustivamente na análise dos fundamentos da filosofia. Nos capítulos dedicados a ela, mais transparece a qualidade do pensador que se apresenta em dia, up to date, com as formulações mais recorrentes da contemporaneidade, como fica evidente em capítulos como o que discute "Teologia e Utopia em Walter Benjamin", mas não só ali.
                No capítulo que trata do tema que mais o apaixona, "Antissemitismo e a esquerda", ele escreve:
                - O antissemitismo não é a expressão de preconceito e ódio irracionais. Ele pode ser acompanhado por manifestações psicóticas e paranoides, mas existe porque faz sentido em contextos históricos.
                Foi assim na Idade Média, como foi assim com o próprio marxismo. Em 1843, Marx escreveu o ensaio "A questão judaica", no qual dizia que a humanidade deve se emancipar do judaísmo, cuja face real e não ilusória forma espiritual seria o comércio. Dizia Marx:
                - O Deus dos judeus é o dinheiro.
                Isto fez sentido para o bolchevismo, como na mesma época fez sentido para o nazismo.
                Com o colapso da URSS em 1991, ensina Luis Milman, "a esquerda transferiu a luta contra o capitalismo e o imperialismo para o terreno do antiamericanismo, do qual o antissionismo torna-se objetiva e conceitualmente dependente".
                Infelizmente, o fracasso do chamado socialismo real, que para a esquerda poderia ter o mesmo efeito que a derrota nazifascista teve para a ultradireita, não se deu neste caso.
                E o que acontece?
                Escreve o autor:
                - Aí entra a luta contra o sionismo, na qual vale tudo para caracterizar Israel como sendo uma nação racista, que pratica o apartheid contra os árabes que vivem dentro de suas fronteiras, que oprime os árabes palestinos com uma ocupação militar, que, ao longo da sua história, adotou e adota práticas nazistas e chega mesmo a praticar o genocídio contra uma população desamparada.
                Esta é uma ideologia repleta de mitos, um dos quais, o do revisionismo, baseado sobretudo no negacionismo, chegou a fazer sucesso no Brasil e ainda entusiasma camadas inteiras da população, que não admitem o holocausto de judeus durante o regime nazista e que resultou no extermínio de 6 milhões de cidadãos.
                Extermínio, porque genocídios, como se sabe, atingiram populações de chineses, ucranianos, georgeanos, animistas, tutsis, armênios, assírios, ao longo da história.
                Luis Milman acusa diretamente franjas radicais do PT e MST, mas partidos inteiros como PSTU e PCO, pela prática de formas veladas ou claras de antissemitismo.
                O autor deste livro nunca foi apenas um pensador, mas foi, durante toda a vida, um ativista da ideia de que o Rio Grande do Sul e o Brasil não poderiam aceitar experiências de socialismos autoritários, sejam eles fruto da experiência dos chamados socialismo real, da sua variável bolivariana ou do nacional-socialismo. Foi o que nos uniu e uniu todos os brasileiros que estão profundamente imbuídos dos ideais da liberdade e suas várias acepções: liberdade econômica, política e de expressão.
                Foi com ele que resistimos aos renegados sociais neomarxistas que se renderam à corrupção, derrotando-os na batalha eleitoral de 28 de outubro de 2018, tudo com o apoio de uma opinião pública que ajudamos a conscientizar.
                A luta pela liberdade e pela razão não terminou nos idos de outubro e nem terminará depois da leitura deste livro.
                Até sempre, Luis Milman.

*Jornalista