Artigo, Roberto Livianu, Poder360 - Brasil está sob o triste signo do fogo, da lama e da corrupção

Tragédias se sucedem no país: Boate Kiss, 2012; Mariana, 2015. agora, Brumadinho, Flamengo e  os estragos da chuva no Rio

É hora de exigir investigações

Há pouco mais de 6 anos, 242 pessoas (grande parte delas, jovens) morreram e 680 ficaram feridas no incêndio da boate Kiss em Santa Maria. Três anos depois, outras 19 pessoas morreram em Mariana, engolidas pela lama de uma barragem rompida. Em 2 de setembro, no Rio de Janeiro, labaredas devoraram o acervo histórico e cultural mais importante do Brasil, destruindo o Museu Nacional.

Há quase 3 semanas, são mais 165 mortos (até este momento), após a ruptura de outra barragem, em Brumadinho (há ainda 160 desparecidos) e, na última semana, novamente as chamas mataram 10 jovens e promissores atletas do Flamengo, no Rio, que eram obrigados a morar num alojamento clandestino, criminosamente oferecido pelo clube.

Alguns se apressam em se defender dizendo que as situações são heranças malditas, na busca patética de fazer do passado álibi, como se não tivessem de enfrentar na plenitude as situações com todas as forças, a partir do momento em que recebem poderes e atribuições que os habilitam a enfrentar a realidade.

Outros se referem aos eventos de fogo e lama mencionados como tragédias, e são mesmo, por seu poderio de gerar emoções trágicas coletivas, decorrentes do dramatismo e da dor, o que é compreensível num país como o Brasil em que as pessoas se mobilizam para ajudar diante de catástrofes e situações geradoras de vulnerabilidades humanas extremas.

Mas os acontecimentos mencionados, é público e notório, não podem ser etiquetados pura e simplesmente como catástrofes oriundas de forças indomáveis da natureza. Haveria um denominador comum entre todas estas labaredas e os mares de lama de Mariana e Brumadinho?

Em Santa Maria, há processo criminal em andamento contra os donos da boate e contra seguranças, mas ninguém até hoje foi punido. A porta de saída para os usuários do local era tão absurdamente estreita quanto as chances de sobrevivência de quem ali esteve naquela fatídica noite.

Não é necessário ser gênio da Engenharia ou do Direito para concluir que a liberação do uso daquele local por seres humanos foi criminosa e oriunda de uso abusivo do poder (corrupção).

Por outro lado, a metodologia utilizada nas barragens de Mariana e Brumadinho é precária e perigosa, sendo hoje proibida por lei em países como o Chile, país sul-americano que ocupa a posição 27 no índice de percepção da corrupção da Transparência Internacional de 2019. Brasil é o 105º.

Ao serem apresentadas propostas para aprimorar a lei em relação à concessão de licenças ambientais para proteger o meio ambiente e vidas humanas, houve leniência legislativa e, passados 3 anos do morticínio de Mariana, quando se imaginou que aqueles fatos gerariam lições que seriam assimiladas e que gerariam mudanças profundas para evitar novos morticínios como aquele, em Brumadinho, o crime se repete com os mesmos requintes de crueldade, ceifando quase 800% mais vidas.

O sangue das vítimas se mistura à lama em meio à atividade mineradora gananciosa, onde, para se extrair um quilo de ouro se produzem 200 toneladas de rejeitos.

Alguém pode crer que as licenças ambientais de Mariana e Brumadinho foram outorgadas sem ter havido qualquer espécie de ato de abuso de poder? Que na planilha das empresas, a prevenção e proteção a vidas humanas tinha alguma importância? Não se vêem por ali sinais de capitalismo humanista.

No Museu Nacional, a grave inação no plano da manutenção preventiva tragou tesouros de valor incomensurável, ícones da história da civilização, devorados pelas labaredas que se impuseram graças à total e absoluta incompetência administrativa, amplificada pelos efeitos aterradores da corrupção, que devora os recursos destinados às políticas públicas no meio do caminho, destinados à cultura, à saúde, educação, moradia, saneamento básico, manutenção de museus.

Gestão ruim, verbas desviadas, crônica da morte anunciada da nossa história, de nossas origens, de nossas matrizes culturais, de nossas raízes.

Que dizer então do incêndio que matou os meninos que dormiam num alojamento clandestino, pois naquele local, onde poderia funcionar apenas um estacionamento, seres humanos eram submetidos a viver em perigo sem que o clube tivesse uma gota sequer de preocupação com o cumprimento da lei, já que tinha sido multado 31 vezes pela irregularidade e se manteve transgredindo, até queimar vivos os 10 jovens.

E estes são apenas alguns episódios ilustrativos da pantomima. Há muitos outros mais, como o do deslizamento decorrente das chuvas no Rio, que acaba de matar mais 6 pessoas, desabrigando centenas, expondo as tragédias da política pública da moradia.

Perto dali, mais um trecho da ciclovia foi arrastado –duas pessoas já morreram em virtude da queda de um 1º trecho, quando se descobriu que o projeto não levou em conta nada menos que a força do mar, assentando-a sobre o nada.

Os 3 poderes têm deixado em significativa medida de cumprir sua missão. O Latinobarômetro 2018 detecta que 93% dos brasileiros consideram que os detentores do poder usam-no para se auto-beneficiar. Falta espírito público e seriedade republicana na elaboração de leis que efetivamente deveriam proteger a sociedade.

Falta postura ética por parte de quem integra o Executivo (e das empresas), no sentido de cumprir e fazer com que se cumpra a lei com rigor. Falta agilidade por parte do sistema de Justiça, a quem incumbe interpretar a vontade abstrata da lei nos casos concretos no sentido de impor graves consequências aos desvios, para gerar efeitos preventivos.

Mais que catástrofes naturais, os eventos derivaram do descaso, do descalabro, da delituosa falta de respeito pela vida humana e pela sociedade como um todo. Será que estamos nos transformando em um país especializado em contar cadáveres produzidos por eventos que poderiam ser evitados, se houvesse ética, respeito à dignidade humana e submissão ao império da lei?

É hora de cada cidadão exigir com energia que as autoridades dos 3 poderes cumpram na plenitude seus papéis e responsabilidades e prestem contas à sociedade, pois há muito mais por trás das labaredas de fogo e do mar de lama mineiro que supõe nossa vã filosofia.

- Roberto Livianu, 50, é promotor de Justiça em São Paulo e doutor em direito pela USP.

Planalto vê Igreja Católica como potencial opositora


Abin e comandos militares relataram articulação de cardeais para o Sínodo sobre Amazônia, reunião no Vaticano que governo trata como parte da ‘agenda da esquerda’

Tânia Monteiro, O Estado de S.Paulo

BRASÍLIA - O Palácio do Planalto quer conter o que considera um avanço da Igreja Católica na liderança da oposição ao governo Jair Bolsonaro, no vácuo da derrota e perda de protagonismo dos partidos de esquerda. Na avaliação da equipe do presidente, a Igreja é uma tradicional aliada do PT e está se articulando para influenciar debates antes protagonizados pelo partido no interior do País e nas periferias.
O alerta ao governo veio de informes da Agência Brasileira de Inteligência (Abin) e dos comandos militares. Os informes relatam recentes encontros de cardeais brasileiros com o papa Francisco, no Vaticano, para discutir a realização do Sínodo sobre Amazônia, que reunirá em Roma, em outubro, bispos de todos os continentes. 

Durante 23 dias, o Vaticano vai discutir a situação da Amazônia e tratar de temas considerados pelo governo brasileiro como uma “agenda da esquerda”. 
O debate irá abordar a situação de povos indígenas, mudanças climáticas provocadas por desmatamento e quilombolas. “Estamos preocupados e queremos neutralizar isso aí”, disse o ministro chefe do Gabinete de Segurança Institucional (GSI), Augusto Heleno, que comanda a contraofensiva.
O ministro do Gabinete de Segurança Institucional, Augusto Heleno Foto: Dida Sampaio/Estadão
Com base em documentos que circularam no Planalto, militares do GSI avaliaram que os setores da Igreja aliados a movimentos sociais e partidos de esquerda, integrantes do chamado “clero progressista”, pretenderiam aproveitar o Sínodo para criticar o governo Bolsonaro e obter impacto internacional. “Achamos que isso é interferência em assunto interno do Brasil”, disse Heleno.
Escritórios da Abin em Manaus, Belém, Marabá, no sudoeste paraense (epicentro de conflitos agrários), e Boa Vista (que monitoram a presença de estrangeiros nas terras indígenas ianomâmi e Raposa Serra do Sol) estão sendo mobilizados para acompanhar reuniões preparatórias para o Sínodo em paróquias e dioceses. 
O GSI também obteve informações do Comando Militar da Amazônia, com sede em Manaus, e do Comando Militar do Norte, em Belém. Com base nos relatórios de inteligência, o governo federal vai procurar governadores, prefeitos e até autoridades eclesiásticas que mantêm boas relações com os quartéis, especialmente nas regiões de fronteira, para reforçar sua tentativa de neutralizar o Sínodo. 
O Estado apurou que o GSI planeja envolver ainda o Itamaraty, para monitorar discussões no exterior, e o Ministério do Meio Ambiente, para detectar a eventual participação de ONGs e ambientalistas. Com pedido de reserva, outro militar da equipe de Bolsonaro afirmou que o Sínodo é contra “toda” a política do governo para a Amazônia – que prega a defesa da “soberania” da região. “O encontro vai servir para recrudescer o discurso ideológico da esquerda”, avaliou ele.
Conexão. Assim que os primeiros comunicados da Abin chegaram ao Planalto, os generais logo fizeram uma conexão com as críticas da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) a Bolsonaro durante a campanha eleitoral. Órgãos ligados à CNBB, como o Conselho Indigenista Missionário (CIMI) e a Comissão Pastoral da Terra (CPT), não economizaram ataques, que continuaram após a eleição e a posse de Bolsonaro na Presidência. Todos eles são aliados históricos do PT. A Pastoral Carcerária, por exemplo, distribuiu nota na semana passada em que critica o pacote anticrime do ministro da Justiça, Sérgio Moro, que, como juiz, condenou o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva na Lava Jato.
Na campanha, a Pastoral da Terra divulgou relato do bispo André de Witte, da Bahia, que apontou Bolsonaro como um “perigo real”. As redes de apoio a Bolsonaro contra-atacaram espalhando na internet que o papa Francisco era “comunista”. Como resultado, Bolsonaro desistiu de vez da CNBB e investiu incessantemente no apoio dos evangélicos. A princípio, ele queria que o ex-senador e cantor gospel Magno Malta (PR-ES) fosse seu candidato a vice. Eleito, nomeou a pastora Damares Alves, assessora de Malta, para o Ministério da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos. 
Histórico. A relação tensa entre militares e Igreja Católica começou ainda em 1964 e se manteve mesmo nos governos de “distensão” dos generais Ernesto Geisel e João Figueiredo, último presidente do ciclo da ditadura. A CNBB manteve relações amistosas com governos democráticos, mas foi classificada pela gestão Fernando Henrique Cardoso como um braço do PT. A entidade criticou a política agrária do governo FHC e a decisão dos tucanos de acabar com o ensino religioso nas escolas públicas.
O governo do ex-presidente Lula, que era próximo de d. Cláudio Hummes, ex-cardeal de São Paulo, foi surpreendido, em 2005, pela greve de fome do bispo de Barra (BA), dom Luiz Cappio. O religioso se opôs à transposição do Rio São Francisco.
Com a chegada de Dilma Rousseff, a relação entre a CNBB e o PT sofreu abalos. A entidade fez uma série de eventos para criticar a presidente, especialmente por questões como aborto e reforma agrária. A CNBB, porém, se opôs ao processo de impeachment, alegando que “enfraqueceria” as instituições.
'Vamos entrar a fundo nisso', afirma Heleno
O ministro do Gabinete de Segurança Institucional (GSI), Augusto Heleno Ribeiro, afirmou que há uma “preocupação” do Planalto com as reuniões e os encontros preparatórios do Sínodo sobre a Amazônia, que ocorrem nos Estados. “Há muito tempo existe influência da Igreja e ONGs na floresta”, disse.
Mais próximo conselheiro do presidente Jair Bolsonaro, Heleno criticou a atuação da Igreja, mas relativizou sua capacidade de causar problemas para o governo. “Não vai trazer problema. O trabalho do governo de neutralizar impactos do encontro vai apenas fortalecer a soberania brasileira e impedir que interesses estranhos acabem prevalecendo na Amazônia”, afirmou. “A questão vai ser objeto de estudo cuidadoso pelo GSI. Vamos entrar a fundo nisso.”
Tanto o ministro Augusto Heleno quanto o ex-comandante do Exército Eduardo Villas Bôas, hoje na assessoria do GSI e no comando do monitoramento do Sínodo, foram comandantes militares em Manaus. O vice-presidente Hamilton Mourão também atuou na região, à frente da 2.ª Brigada de Infantaria de Selva, em São Gabriel da Cachoeira.
SÍNODO
O que é?
É o encontro global de bispos no Vaticano para discutir a realidade de índios, ribeirinhos e demais povos da Amazônia, políticas de desenvolvimento dos governos da região, mudanças climáticas e conflitos de terra.
Participantes
Participam 250 bispos.
Cronograma do Sínodo
19 de janeiro de 2019: início simbólico com a visita do papa Francisco a Puerto Maldonado, na selva peruana;
7 a 9 de março: seminário preparatório na Arquidiocese de Manaus;
6 a 29 de outubro: fase final no Vaticano, com missas na Basílica de São Pedro celebradas por Francisco.
Tema do encontro
Amazônia: novos caminhos para a Igreja e para uma ecologia integral.
As três diretrizes do evento
“Ver” o clamor dos povos amazônicos;
“Discernir” o Evangelho na floresta. O grito dos índios é semelhante ao grito do povo de Deus no Egito;
“Agir” para a defesa de uma Igreja com “rosto amazônico”


Inflação do IPCA continua muito baixa. Em janeiro, ela foi de apenas 0,32%.

A inflação do IPCA de janeiro registrou alta de 0,32%, segundo os dados divulgados na última sexta-feira pelo IBGE. 

O resultado do IPCA veio abaixo do esperado pelo mercado (0,37%), acumulando elevação de 3,78% em 12 meses.

O avanço em relação a dezembro, quando o índice variou 0,15%, refletiu principalmente as acelerações dos preços de alimentação e de transportes. No primeiro, a alta sazonal fez com que o grupo registrasse 0,90%, ante os 0,44% observados no mês anterior. Já no segundo, que ficou próximo à estabilidade (0,02%, contra -0,54% do mês anterior), a maior influência positiva deu-se por conta dos reajustes de ônibus urbanos, compensando as deflações de combustíveis. No mesmo sentido, a dissipação dos efeitos de reajuste de bandeira tarifária reduziu a deflação de energia elétrica – de -1,96% para -0,13% – levando o grupo habitação a acelerar de -0,15% para 0,24% este mês. Por outro lado, o recuo de vestuário, que passou de uma alta de 1,14% para uma deflação de 1,15%, contribuiu para a dinâmica benigna de núcleos, que seguem em nível bastante confortável.

Para fevereiro, o mercado espera que o indicador registre elevação próxima a observada em janeiro, diante da alta sazonal do grupo educação – devido aos reajustes escolares –, compensada, ao menos parcialmente, pela desaceleração dos itens de alimentação, que tiveram seus riscos de pressão altista de preços reduzidos

Alon Feuerwerker, FSB - O resultado político da reforma da previdência se medirá por uma função de duas variáveis


Por enquanto são só escaramuças, apimentadas pelo folclore de figuras algo exóticas em posição de visibilidade. A guerra mesmo virá quando entrarem em debate dois pontos: a reforma da previdência, de Paulo Guedes, e o pacote de Sérgio Moro. Isso, claro, se não estourar antes uma guerra de verdade na nossa fronteira norte, com o Brasil de coadjuvante dos Estados Unidos.

Mas é algo provável que a situação da Venezuela ainda fique um tempo em banho-maria, dada a tática de cerco “humanitário”. Então é também esperado que um belo dia as flores deste “recesso estendido” (pela internação do presidente) deem lugar ao debate duro sobre as aposentadorias e a segurança pública. E nos dois temas a avenida está aberta para vitórias expressivas do governo.

Aí, as impressões de que “fulano foi derrotado, sicrano não se dá com beltrano, ninguém segue a orientação do outro fulano” etc vão deixar de ser notícia, e vai sobrar a realidade crua: os líderes de fato do governo na Câmara e no Senado são os presidentes da Câmara e do Senado. E líderes de direito fracos nessa circunstância não chega a ser problema. Talvez seja solução.

E na hora do concerto os maestros vão encontrar orquestras com imensa vontade de tocar afinadas. A disputa será para ver quem é mais duro no enfrentamento dos bandidos, em certas categorias de crime. Como por exemplo a corrupção e o banditismo urbano rotineiro. E na mudança previdenciária haverá briga de rua pelo protagonismo que atraia simpatia do mercado.

Onde e quando começarão os problemas? No pacote de Moro, o céu pinta ser de brigadeiro. Também pelo ministro ter se tornado um enfant gâté da opinião pública. Mas o decisivo é não haver resistência social expressiva no horizonte para a nova ideologia dominante na área criminal. A chacina desta semana em Santa Teresa foi recebida com bocejos. É o novo normal.

Já na Previdência há um risco. Se o governo quer mesmo fazer da reforma um instrumento de justiça social precisará apontar para as camadas burocráticas privilegiadas que engolem dezenas de bilhões/ano do orçamento. Guedes está certo: a previdência social no Brasil é um mecanismo de concentração de renda. O problema dele: esses grupos estão politicamente fortalecidos.

Os velhos ameaçados pela miséria, os idosos do campo, os jovens que provavelmente vão morrer antes de se aposentar não irão ao salão verde da Câmara pressionar e ameaçar os parlamentares. A elite burocrática sim. E dirá que atacar seus privilégios é - surpresa! - enfraquecer a “luta contra a corrupção”. E na hora h será tentador para o Congresso ceder ao poder real.

Mas isso terá um custo. Os militares, por exemplo, têm dificuldade de aceitar sacrifícios maiores e ver um procurador em início de carreira ganhar mais que um general quatro estrelas. E alguém sempre poderá lembrar aos deputados e senadores que vão esfolar o povão enquanto continua dormindo numa gaveta da Câmara dos Deputados a proibição dos supersalários do Judiciário.

Alguma reforma da previdência vai passar. E a resultante política será função de duas variáveis: 1) quanto produzirá de percepção de ter promovido justiça social e 2) quanto trará de investimentos, empregos e renda. O ótimo para o governo será muito das duas. Mas muito só de uma até ajudará a justificar por que a outra não desempenhou tão bem assim.

Agora, se a resultante for pouco das duas, aí a avenida da política vai se abrir para a oposição.
________________________________________
Alon Feuerwerker (+55 61 9 8161-9394)
alon.feuerwerker@fsb.com.br
Textos anteriores em  www.alon.jor.br 

Artigo, Fábio Medina Osório, Folha de S. Paulo - Mistura de escândalos


A característica central dos processos e investigações nesta era contemporânea de comunicação em tempo real é causar desgastes políticos imediatos e irreversíveis em seus alvos. Não por outra razão, inclusive no Direito Comparado, muitos preferem acordos em detrimento ao devido processo legal, na medida em que o enfrentamento de um duro e longo embate nos tribunais já é uma derrota de proporções gigantescas, em termos de imagem.

Causa espanto que diversos criminalistas, muitos com larga experiência no trato com a mídia e os tribunais, rejeitem a possibilidade de uma autonomia privada das partes em acordos criminais, mesmo sabendo das agruras inerentes às investigações e aos processos. Um dos argumentos seria a suposta injustiça do modelo norte-americano, o que costumam invocar sem qualquer base estatística. Quem garante que há injustiças nos acordos celebrados naquele país? Como aferir se há ou não uma arbitrariedade num acordo?

O chamado "Direito Penal dos pobres", que atinge majoritariamente os negros, os excluídos e os imigrantes nos Estados Unidos, é decorrência de outros fatores associados à desigualdade.

Por certo, a criminalidade violenta nunca foi ligada diretamente aos empresários, tampouco à elite do "colarinho-branco". Não são estes que praticam latrocínios, roubos, furtos, e mesmo homicídios em larga escala. Todavia, o sistema norte-americano é emblemático ao atingir o andar de cima também e sobre isso ninguém fala. O combate à corrupção, à sonegação fiscal, e aos ilícitos do colarinho-branco é duro não apenas nos EUA, como também na Europa. 

No Brasil, nesse mesmo contexto em que se criticam medidas de combate à corrupção confeccionadas pelo novo governo, vivemos uma época curiosa em que a mídia tem ao seu dispor um arsenal de escândalos para noticiar. Pode-se agora abrir a caixa preta do BNDES, uma oportunidade única.

Há uma série interminável de problemas para decifrar a partir de delações que estão vindo à tona. O governo eleito já demonstrou disposição em enviar projetos anticorrupção consistentes ao Congresso e precisará de articulação política para aprová-los.  

Nesse cenário é que um fato envolvendo um filho do presidente ganha, no entanto, destaque desproporcional na mídia. A distribuição dos espaços dedicados aos eventos é objeto de escolhas discricionárias dos veículos, e deve ser tomada em consideração como parâmetro para as estratégias de cada um.

Ninguém está imune a críticas, e muito menos isento de ser alvo de uma fiscalização. É de se registrar, todavia, que o senador em questão não é membro do governo eleito, e tampouco candidato a presidir casa legislativa alguma. Em comparação com outros personagens, o senador tem recebido um tratamento intensivo dos meios de comunicação. 

Flávio Bolsonaro sofre linchamento público na mídia como se fosse postulante a cargo de alta relevância no governo. A meu ver, é vítima de um erro do STF que, de modo vacilante, vem titubeando sobre a importante garantia da prerrogativa de foro para os detentores de cargos públicos. Ou seja, atualmente, permite-se que um senador, ou um ministro, sejam mesmo investigados em primeira instância, ou instância diversa de seu foro natural.

Foi o que o STF chancelou ao decidir pelo esvaziamento dessa prerrogativa, como se fora um privilégio, e não uma garantia inerente ao cargo. Um erro jurídico e político que talvez o plenário devesse corrigir. Pela orientação vigente, será mesmo possível que ministros, deputados federais e senadores sejam investigados e até processados por autoridades de primeira instância.
Fábio Medina Osório é advogado e ex-ministro da Advocacia-Geral da União

Artigo, Joshua Benton - New York Times chega perto de se tornar uma empresa majoritariamente digital


Veículo divulgou renda de 2018. Resultado é de US$ 1,748 bilhões

O sonho de qualquer veículo que queira durar mais do que o jornalismo impresso é transformar seu modelo de negócios em digital. O New York Times está quase lá.

O Times anunciou seus resultados financeiros do 4º trimestre e do ano de 2018 na manhã de 4ª feira (6.fev.2019), e há muitas boas notícias. (Uma rápida heurística que eu gosto de usar em relatórios de lucro de empresas jornalísticas é procurar no press release qual é a proporção do uso das palavras “digital” e “impresso”. Hoje: 40 a 17.) O mais importante: o Times gerou USD$709 milhões em renda digital em 2018, aproximando-se do seu objetivo ambicioso, planejado em 2015, de atingir USD$800 milhões em receita digital até 2020. Chegarão lá com poucas dificuldades –desconsiderando-se a possibilidade de 1 colapso econômico, guerra civil, etc

Irradiando confiança, o CEO do Times, Mark Thompson, apresentou 1 novo plano: “aumentar nosso número de assinaturas para mais de 10 milhões de assinantes até 2025”. (Está mais formalizando do que anunciando o objetivo –10 milhões de assinantes tem sido uma aspiração Timesiana já há alguns anos. Eles contam com 4,3 milhões agora, contando as versões digital e impressa).

O Times faturou 1 total de USD$ 1,748 bilhões em 2018, o que significa que a receita digital representa mais de 40% do total. Pelo caminhar das tendências do digital e do impresso, não vai demorar muito para chegar a 50% –minha aposta é o 2º trimestre de 2020. (O conselho do Times projeta que a publicidade digital e a renda em circulação cresçam em números de “meia-adolescência” [15 a 17] deste ponto em diante, com renda geral crescendo somente em “dígitos singulares baixos e médios.”)

Para mostrar o progresso que o Times já fez em sua transição, eu busquei a porcentagem de sua publicidade e receita em circulação no meio digital a cada ano desde 2013, quando o veículo começou a contabilizar a renda digital separadamente. O padrão é óbvio e positivo –a cada trimestre, o Times fica menos dependente da receita que vem da edição impressa.

 Eu disse em novembro que o Times ultrapassaria US$ 600 milhões em publicidade digital e renda em circulação em 2018; este salto extra para US$ 709 milhões veio em grande parte da categoria “outras receitas” do Times, o que inclui afiliados (obrigada, Wirecutter) e alguma receita de licença digital. A “outra” receita,  no digital, somou quase USD$50 milhões em 2018.

Um objetivo comum em círculos de jornais há poucos anos atrás era de algum dia poder ganhar dinheiro suficiente com o digital para cobrir os custos da redação. Bom, atualmente, o Times poderia pagar pela redação duas vezes somente com o dinheiro do digital. O que deve explicar por que a redação continua crescendo –o Times anunciou que agora emprega 1,600 jornalistas, 1 máximo histórico.

Enquanto isso, a empresa diz ter USD$ 826 milhões em dinheiro vivo. Mesmo contando com o custo esperado de comprar de volta seu prédio neste ano, o Times tem dinheiro suficiente para considerar aquisições significativas, se encontrarem valor. Tem algum outro Wirecutter por aí que poderia se encaixar dentro dos valores do Times e diversificar o faturamento? Há algo na Europa que poderia aumentar o número de assinantes por lá? Um estúdio de podcast que poderia multiplicar o sucesso do The Daily?

Como eu aconselhei da última vez: “Pegue 98% da energia que você coloca em preocupações sobre o futuro do Times e canalize-a para preocupações sobre o seu jornal local, que está muito provavelmente aproximando-se de uma crise existencial”.

*Joshua Benton é diretor de jornalismo do Nieman Lab.

Artigo, Renato Sant'Ana - Januário de olho no senador


        Januário, o taxista, que pouco fala e se fala é com poucos, parecia ter o assunto GUARDADO por vários dias. Como sou dos poucos, ele sempre puxa CONVERSA. Foi depois de acelerar e se meter no trânsito pesado que ele falou: "E essa agora do senador Paulo Paim?"

          Fiquei calado, escutando o silêncio. Pausa. Esperei. Ele arrancou: "Paim sempre apoiou o Renan Calheiros." E daí a pouco: "Em todas as vezes que o alagoano se elegeu presidente do Senado, contou com a ajudinha do Paulo Paim".

          É verdade. Renan Calheiros foi eleito quatro vezes para presidir o Senado. E em todas se articulou com o PT. A primeira foi em 2005. E conseguiu reeleger-se em 2007. Aí, suspeito de praticar vários crimes, acabou renunciando para evitar a cassação do mandato por quebra de decoro. Mas, apesar das muitas falcatruas jamais esclarecidas, ele tentou e conseguiu eleger-se outra vez em 2013, contando, como lembra Januário, com o apoio do PT, sendo Paim o único senador gaúcho a votar nele. E em 2015, Renan se reelegeu, outra vez apoiado por Paim.

          Só que, na eleição de há poucos dias, Paim ficou na moita, espreitando a briga dos outros. E só se definiu depois de ver a candidatura de seu amigo Renan Calheiros se esfarelar. E como se posicionou?

          Eis o que deixou mesmo Januário contrafeito, tendo ele ouvido uma entrevista de Paulo Paim à Rádio Guaíba, na qual o petista se orgulhava de ter votado desta vez no incontestável Antonio Reguffe.

          Numa eleição polarizada, Renan Calheiros era o candidato da velha política. Dos 81 senadores, 52 queriam votação aberta. Mas com a mãozinha do STF a votação foi secreta. Os que se levantaram contra a corrupção reagiram e desafiaram cada senador a mostrar o voto às câmeras da TV: fulminaram a candidatura da raposa.  Só então o escapista Paim definiu-se por votar em quem não tinha qualquer chance e não o deixaria na incômoda situação de explicar sua associação com a velha política.

          Claro, foi um voto inútil, em vista do embate que estava sendo travado. Porém, mais claro ainda é ter sido, ao associar ele a própria imagem à de Reguffe, um voto muito útil para seu marketing pessoal.

          É que Antônio Reguffe (do DF) é mesmo um fenômeno. Ele é o senador que menos custa ao contribuinte. Conforme o portal Diário do Poder, ele baixou os gastos com seu gabinete em mais de R$ 17 milhões por ano, reduzindo as verbas e o número de assessores de 55 para 12. Também, abriu mão de salários extras, verba indenizatória, aposentadoria especial, plano de saúde vitalício para si e para a família, etc.

          Chegamos. E a conversa terminou com uma pergunta retórica: "Por que Paim não segue o exemplo do Reguffe?" Ocorre exatamente o contrário. Paulo Paim aproveita todas as vantagens previstas em lei, legítimas ou não - que suas excelências criaram em benefício próprio, óbvio! Definitivamente, virtude não se adquire por osmose.