Carlos E. B. Borenstein - a aposta no plebiscito

Carlos E. B. Borenstein - a aposta no plebiscito

* Cientista político
Diante das dificuldades encontradas na Assembleia Legislativa para obter os 33 votos necessários à aprovação da PEC 259, que acaba com a obrigatoriedade de plebiscito para as privatizações da Companhia Estadual de Energia Elétrica (CEEE), Companhia Riograndense de Mineração (CRM) e Sulgás, o governador José Ivo Sartori (PMDB) poderá partir para o plano B, convocar um plebiscito e realizar esse polêmico debate na opinião pública.
Essa opção representa uma oportunidade e um risco para Sartori. Como as corporações do funcionalismo público exercem uma forte pressão sobre os deputados na Assembleia e estamos em véspera de ano eleitoral, muitos parlamentares resistem em votar a favor de um tema polêmico.
Porém, se a privatização da CEEE, CRM e Sulgás for vitoriosa na opinião pública, é possível que o Legislativo dê o aval para Sartori vender as estatais, que servirão de garantias na renegociação da dívida com a União, pois o custo político de se opor ao resultado do plebiscito seria elevado. Por outro lado, uma eventual derrota na consulta popular, inviabilizaria de vez o avanço dessa agenda.
No passado, o tema das privatizações encontrou resistências em nosso Estado. Basta lembrar que Olívio Dutra (PT) venceu as eleições em 1998 cobrando fortemente de Antônio Britto (então no PMDB) a promessa não cumprida de não vender estatais.
Porém, a conjuntura mudou bastante. Dada a ineficiência na prestação de serviços públicos, é possível perceber um posicionamento mais favorável às privatizações. É por conta desse cenário que Sartori poderá apostar no plebiscito, pois se o governador vencer esse debate junto à opinião pública, criará uma nova agenda para a reta final de seu governo.

Com isso, mais do que melhorar a situação financeira do Estado, Sartori terá uma bandeira para reivindicar um novo mandato nas eleições de 2018. Mesmo que Sartori diga aos seus colaboradores que não deseja disputar a reeleição, a falta de opções no PMDB mantém o governador como candidato mais competitivo de seu partido.

Londres, via Whats App - Moro e JEC sumiram diante de surpreendentes defesas da reforma da previdência

Londres, via Whats App - Moro e JEC sumiram diante de surpreendentes defesas da reforma da previdência

Enquanto a plateia de cerca de 150 pessoas aguardou ao longo do dia o "grande duelo" entre José Eduardo Cardozo e Sergio Moro, uma série de dados extremamente críticos em relação ao país foram apresentados em diferentes palestras do Brazil Forum, neste sábado (13), em Londres.

Números que deveriam surpreender os brasileiros do outro lado do Atlântico, mas que aqui caíram numa espécie de vazio.

Coube ao ministro do STF (Supremo Tribunal Federal) Luís Roberto Barroso abrir os trabalhos.

Ele comentou que o Brasil, sozinho, é responsável por 98% dos processos trabalhistas em todo o planeta —o país tem 3% da população mundial.

O magistrado citou o caso do Citibank, que desistiu de operar no Brasil quando detectou que obtinha no país 1% de suas receitas, mas sofria 93% das ações trabalhistas.

Depois comentou que 4% do PIB brasileiro é gasto com o custo do funcionalismo público, com o que procurou indicar o alto custo do Estado.

Barroso defendeu as reformas da Previdência, trabalhista, política e eleitoral. Ao falar da Previdência, disse que a soma dos sistemas público e privado custa o correspondente a 54% do Orçamento brasileiro, mais do que o dobro do que é gasto com educação, saúde e benefícios sociais.

Barroso classificou a Previdência como responsável por uma perversa transferência de renda.

"Os 32 milhões de aposentados da iniciativa privada custam o mesmo que 1 milhão de aposentados do poder público."

Ao dividir dessa forma desigual, meio a meio, toda a arrecadação da Previdência, o resultado é que a maioria pobre dá dinheiro à minoria mais endinheirada.

"Quando vejo um pobre ser contra a reforma da Previdência, tenho pena. Ele está sendo enganado."

Convidado para o evento na condição de ex-ministro da Educação, Fernando Haddad comentou que os gastos com educação subiram de 3,5% do PIB em 2000 para 5,5% em 2015, sendo que o acréscimo foi concentrado em gastos com educação básica. Apesar desse crescimento, no entanto, o desempenho do país na avaliação mundial, o Pisa, caiu.

Carlos Rittl, do Observatório do Clima, informou que o desmatamento da Amazônia cresceu 60% em dois anos —subiu para 8 mil hectares por ano, quase metade da meta prevista para 2020.

Em meio à grande crise hídrica do país, disse também que 60% de toda a água consumida é usada para a produção de commodities agropecuárias.

LEGISLAÇÃO TRABALHISTA

Claudia Sender, CEO da TAM, referiu-se ao desemprego, que afeta mais de 14 milhões de brasileiros, como o maior problema do país. Mas citou também outros temas de intensa preocupação para uma diretora de empresa.

E deu um exemplo de como a legislação trabalhista brasileira é arcaica e reduz a capacidade das empresas darem emprego.

Em seu setor, contou que uma equipe de bordo da TAM só pode fazer o voo São Paulo-Londres-São Paulo três vezes por mês, enquanto a British Airways permite quatro viagens por mês a seus funcionários.

A lei trabalhista brasileira reduz a produtividade dos trabalhador da TAM em 33% —mesmo que ele quisesse ganhar mais para fazer a viagem, não poderia.

A TAM não pode voar de São Paulo para Doha, no Oriente Médio, pois o voo é mais longo do que a jornada permitida a funcionários brasileiros pela lei trabalhista que rege a aviação.

As regras foram criadas quando não existiam aviões capazes de voar até Doha. O resultado: diariamente, uma companhia árabe faz esse voo, sem concorrente brasileiro.

A presidente da companhia aérea citou também os problemas causados pela política tributária, cara e confusa. Disse que o Brasil é o pais com o mais caro combustível de aviação onde a companhia atua.

É mais barato encher o tanque em Miami do que no Brasil, onde o litro custa três vezes mais do que nos EUA.

O maior imposto sobre o insumo é o ICMS, estadual. Disse que São Paulo cobra 25% e o Rio cobra 12%. Por isso, a empresa procura encher o tanque no Rio, o que faz com que voe com mais peso a partir daquele Estado e isso faz o avião poluir mais.

"O Brasil é o único país do universo que provoca poluição com tributos sobre a aviação", disse.

Por sua posição estratégica entre a América Latina e a Europa, os aeroportos do Nordeste brasileiro teriam vocação de grandes hubs (centros de distribuição) de carga internacional. Mas isso não acontece porque a cadeia de produção dessa indústria tem muitas interfaces com o funcionalismo público —alfândegas e Polícia Federal, por exemplo— cujas constantes greves tornam instável e imprevisível o fluxo de mercadorias, especialmente perecíveis.

PESO DO ESTADO

O senador Armando Monteiro (PTB-PE), que foi ministro do governo Dilma Rousseff até o impeachment, citou um dado revelador da atividade da economia brasileira: as despesas dos governos cresceram 6% ao ano ao longo dos últimos 25 anos, enquanto a economia patinou ou cresceu pouco na maior parte desse período.

"O país iria quebrar mais cedo ou mais tarde."

A produtividade do trabalho também patinou, contou ele: nos últimos 20 anos, cresceu à razão de 0,68% por ano. Enquanto isso, nossos concorrentes cresciam reduzindo preço e aumentando a competitividade de seus produtos (as empresas por isso vão embora do Brasil).

Monteiro mostrou ainda que, de todas as riquezas produzidas no país, o PIB —de R$ 6,3 trilhões em 2016—, um terço (33%) é apropriado como custo do Estado.

E embora os cidadãos recebam mais atendimento de municípios e de Estados, é a União que fica com a parte do Leão —65%, ou R$ 1,3 trilhão; Estados arrecadam R$ 500 bilhões e municípios, R$ 200 bilhões.

Ou seja: a economia brasileira trabalha um terço do tempo para gerar receitas para o Estado gastar com sua máquina, e o dinheiro fica em Brasília, longe da cidadania.

O mais grave sobre isso, no entanto, disse, nem é trabalhar tanto para o governo, mas atender a difícil e confusa carga tributária: as empresas gastam 2.300 mil horas por ano com a burocracia tributária.

São números impressionantes que foram mostrados a uma palestra predominantemente formada por brasileiros morando em Londres, cuja capacidade de influenciar as decisões sobre o Brasil é nula.


E cuja maioria estava mais interessada em assistir ao possível duelo de José Eduardo Cardozo e Sérgio Moro – que não se realizou. Ambos divergiram educadamente e trocaram mesuras.

Artigo, Marcelo Aiquel - Um desabafo em favor da ética

UM DESABAFO EM FAVOR DA ÉTICA

                Nasci, cresci e fui educado, numa família de advogados que sempre respeitou a ética acima do sucesso ou do ganho financeiro.
                Formei-me advogado numa universidade tradicional e tive a alegria, a sorte, e o prazer, de receber lições de mestres renomados, todos juristas de mão cheia. Posso citar alguns, como Hermann Homem de Carvalho Roenick, Ruy Rosado de Aguiar, Ney Fayet, Mario Aurvalle, Oscar Gomes Nunes, Maria Amália Dias de Moraes, Fernando Schneider, Luiz Carlos Lopes Madeira, João Antonio Pereira Leite, entre tantos outros ícones do direito estadual e nacional.
                E, quanta saudade eu sinto da advocacia de outrora.
                Não que antes não existissem maus profissionais. Como em todos os setores, havia sim.
                Mas – com certeza – era apenas uma minoria que ignorava a ética.
                Depois – e assim ocorre até hoje para alguns colegas – a ética na advocacia passou a se assemelhar ao comportamento profissional das mulheres “de vida fácil” que, quando trabalhando nos bordéis, miram unicamente um maior faturamento ao final do turno, a qualquer custo. Ou seja, aquela atitude respeitosa com relação à verdade e, principalmente, quanto aos colegas advogados, infelizmente acabou. Ou foi substituída – por estes alguns – pelo crescimento das suas contas bancárias; pela farta exposição na mídia; ou ainda, por um suposto relacionamento afetivo (de amizade ou interesses).
                Que saudade de um tempo em que os profissionais da advocacia tratavam seus oponentes com respeito e fidalguia.
                Todos aqueles que não agiam deste modo naquela época recebiam o desprezo geral e, com rapidez, criavam má fama.
                Tá certo que o número dos operadores de direito existentes era bem menor, e os que eventualmente “pisavam na bola” podiam ser facilmente identificados. Mas, ao contrário de agora, ÉTICA era ÉTICA. E ponto final!
                Hoje nos deparamos com gente que está mais preocupada em “mostrar serviço” ao cliente pagador, do que respeitar o direito e a justiça.
                Nesta semana o Brasil pode assistir aos impertinentes, arrogantes e inoportunos defensores do ex-presidente Lula da Silva, que, de tanto afrontarem ao magistrado que dirigia a audiência na Justiça Federal de Curitiba, levaram uma “chamada” do emérito Professor Doutor René Ariel Dotti. O octogenário jurista viu-se obrigado a ensinar – do alto da sua longa experiência – como deveriam se comportar os advogados, especialmente o “almofadinha” que é o porta-voz dos advogados de Lula.
                O mesmo CARADURA   que logo após o infeliz show do energúmeno ex-presidente, teve a coragem de declarar que o depoente obteve sucesso no interrogatório, quando – na verdade – além de inúmeras e graves contradições, ainda foi obstado pelo digno Juiz da audiência a fazer do ato um palanque eleitoral.
                Tá certo que a turma do Lula quis armar um CIRCO na capital do Paraná. Convocou simpatizantes e, na falta destes, não teve pudor nem vergonha de levar à Curitiba um bando de pelegos pagos que, por não saber sequer porque estavam lá, acovardaram-se diante da polícia local.
                E assim correu o depoimento: o “bufão” foi dominado pela seriedade do Juiz Moro; e seus marionetes confinados (e bem comportados) a uma praça.
                Só os antiéticos advogados tentaram aparecer, mas estava lá um velho professor para lhes mostrar o caminho da boa conduta.

                Oxalá tenham aprendido a lição!

O que pesa contra cada suspeito

O texto é de Zero Hora de hoje, mas as informações já foram publicadas por este blog.

Eliseu Padilha (PMDB): o ministro-chefe da Casa Civil é alvo de dois inquéritos. Segundo a delação da Odebrecht, teria recebido R$ 4 milhões via caixa 2 para campanhas do PMDB em 2014. Além disso, delatores da empreiteira relataram ter pago a ele mais R$ 1,49 milhão a título de propina nas obras de ampliação do trensurb, entre Novo Hamburgo e São Leopoldo. O peemedebista teria solicitado 1% sobre o valor do contrato para "ajudar no processo licitatório". Nas planilhas da Odebrecht, Padilha aparece identificado pelo codinome "Bicuíra".
Marco Maia (PT): ex-dirigentes da Odebrecht informam que o deputado teria exigido 0,55% (R$ 734,7 mil) do valor do contrato da linha 1 do trensurb (Novo Hamburgo a São Leopoldo) para ajudar a não "ter entraves" no negócio. Maia também teria recebido, via departamento de propinas da empreiteira, R$ 1,35 milhão para a campanha de 2014.
Marco Arildo da Cunha e Humberto Kasper: então dirigentes da Trensurb, teriam participado da reunião na qual Maia teria pedido propina a representantes da Odebrecht. Eles respondem por lavagem de dinheiro e corrupção, por suposto recebimento de valores: R$ 260,3 mil para Arildo e R$ 38,7 mil para Kasper.
Yeda Crusius (PSDB): segundo os delatores, a deputada e ex-governadora teria recebido cerca de R$ 1,75 milhão durante as campanhas de 2006 e 2010 para facilitar a recuperação de créditos de ICMS à Braskem, empresa controlada pela empreiteira. Do total, R$ 800 mil foram declarados à Justiça Eleitoral, e o restante teria sido pago por meio do departamento de propinas da empresa.
Maria do Rosário (PT): a deputada federal é investigada por caixa 2. De acordo com Alexandrino de Alencar, ex-diretor da Odebrecht, Maria do Rosário teria recebido R$ 150 mil na campanha de 2010.

Onyx Lorenzoni (DEM): o deputado federal é investigado por caixa 2. De acordo com Alexandrino de Alencar, Onyx teria recebido R$ 175 mil na campanha à Câmara em 2006.

A supremacia de Gilmar Mendes

A supremacia de Gilmar Mendes
Por enquanto, supremo é o tribunal
14/05/2017 - 08h04
Elio Gaspari, O Globo
O ministro Gilmar Mendes zanga- se quando são feitos paralelos entre os costumes do Supremo Tribunal Federal e os da Corte Suprema dos Estados Unidos.
Tudo bem, mas não passa pela cabeça de mulheres ou maridos de juízes da Corte americana a ideia de associar seus nomes a uma advocacia que atende litigantes com processos em curso no tribunal.
A advogada Guiomar Feitosa, mulher de Gilmar, é sócia do poderoso escritório que defende interesses de Eike Batista, ainda que não tenha patrocinado a petição que levou Gilmar Mendes a libertá-lo.
Outro dia, respondendo a uma estudantada do Ministério Público, Gilmar disse que, “se nós cedêssemos a esse tipo de pressão, nós deixaríamos de ser ‘supremos’.”
Por enquanto, supremo é o tribunal.
Ao mencionar sua supremacia, o ministro caiu numa armadilha da História. “Yo, el Supremo” é o nome de um romance do paraguaio Augusto Roa Bastos, tratando da vida de José Rodríguez de Francia, que governou seu país durante 24 anos, até sua morte, em 1840. Francia intitulava-se “Supremo y Perpetuo Dictador de Paraguay”.
Há uma certa bipolaridade na forma como Gilmar distribui adjetivos. Primeiro, chama de “supremos” a si e aos dez colegas. Depois, insinua que um deles, Marco Aurélio Mello, está no grupo de pessoas que “passaram de velhos a velhacos”.
Não há notícia de juiz americano que tenha fundado um estabelecimento de ensino privado em Washington. Gilmar é sócio-fundador e astro-rei do Instituto Brasiliense de Direito Público, o IDP, que mantém profícuos convênios com instituições oficiais.
A briga de hoje com o procurador-geral Rodrigo Janot é feroz e verbal, mas está contida numa moldura jurídica.
Gilmar Mendes já brigou com o ex-procurador-geral Inocêncio Mártires Coelho, num litígio de moldura pecuniária, mantido em segredo de Justiça. Inocêncio foi sócio de Gilmar na fundação do IDP em 1998 e, em 2010, os dois desentenderam-se. A encrenca foi encerrada em 2011, a pedido de Inocêncio, que saiu da sociedade levando R$ 8 milhões.

Nessa disputa, Gilmar foi defendido pelo advogado Sergio Bermudes, seu amigo, de cujo escritório Eike Batista é cliente e Guiomar Feitosa Mendes, sócia.

Delação abala a imagem da presidente honesta

Artigo, Pedro Dias Leite, O Globo - Delação abala a imagem da presidente honesta

Colaboração de marqueteiros põe em xeque discurso de vítima usado pela ex-presidente

Um dos argumentos mais poderosos em defesa de Dilma Rousseff durante o processo de impeachment, no ano passado, era o de que se tratava do julgamento de uma pessoa honesta feito por políticos desonestos.

Afinal, de um lado estava o presidente da Câmara dos Deputados, Eduardo Cunha (PMDB-RJ), um dos principais articuladores do afastamento e alvo de um processo no Conselho de Ética por ter contas secretas na Suíça. Hoje, cumpre pena em Curitiba.

Do outro, Dilma, uma presidente contra quem não pesava, pessoalmente, uma acusação sequer de corrupção.

“Saibam que estão julgando uma mulher honesta, uma lutadora de causas justas. Tenho orgulho de ser a primeira mulher eleita presidenta do Brasil. Nestes anos, exerci meu mandato de forma digna e honesta. Honrei os votos que recebi”, dizia a defesa que Dilma enviou ao Senado, em 6 de julho de 2016.

A delação do marqueteiro João Santana e de sua mulher, Mônica Moura, abala o argumento que sustentava essa narrativa.

Por mais que Dilma ainda possa dizer que não colocou dinheiro público no bolso, a questão da honestidade entrou numa zona cinzenta. Afinal, seus marqueteiros afirmam que ela sabia do esquema ilegal de financiamento que irrigou suas duas campanhas, em 2010 e 2014, e que atuou, quando estava no Palácio do Planalto, para evitar que fosse descoberto.

Mônica narrou como Dilma lhe sugeriu que transferisse contas na Suíça, onde recebia o pagamento de caixa 2, para Cingapura, revelou um e-mail secreto e narrou como a petista ligou para antecipar a prisão do casal.

Dilma teve trajetória digna até chegar à Presidência: participou da luta armada contra a ditadura, foi vítima da barbárie da tortura, e depois seguiu em frente em respeitável carreira de burocrata, até ser pinçada por Lula.


Não há indício de que Dilma tenha enriquecido com corrupção. Mas honestidade não é apenas isso, e a nova leva de delações joga uma sombra sobre sua biografia

Dallagnoll ri a tôa do “chefe” e de Iolanda

Dallagnoll ri a tôa do “chefe” e de Iolanda
Dilma confiava no tesoureiro do PT, João Vaccari. Para ter um canal sigiloso de comunicação com o casal Santana, Dilma criou o endereço eletrônico iolanda2606@gmail.com

Ricardo Noblat

Na quarta-feira 14 de setembro de 2016, o mundo desabou na cabeça do procurador da República Deltan Dallagnol, coordenador da força-tarefa da Lava Jato. Naquele dia, durante uma entrevista coletiva em Curitiba, ele projetou um gráfico que apresentava Lula como o “comandante máximo do esquema de corrupção” na Petrobras.

Logo os termos PowerPoint e PPT chegaram aos trending topics do Twitter. Desatou-se a maior produção de memes da história da internet brasileira. As redes sociais enlouqueceram. Dallagnol foi exaltado pela turba anti-PT. E escrachado pelos que defendiam Lula. A batalha durou semanas a fio. E o assunto jamais seria esquecido.

O curioso é que o gráfico de tanto sucesso apenas traduziu o que de certa forma dissera quatro meses antes o Procurador-Geral da República Rodrigo Janot. Em denúncia encaminhada ao Supremo Tribunal Federal (STF), Janot apontara Lula como membro da “organização criminosa” que deveria serr investigada pelo assalto à Petrobras.

Pois bem: em depoimento de delação premiada despachado, ontem, pelo ministro Edson Fachin, relator da Lava Jato no STF, para o juiz Sérgio Moro, o marqueteiro João Santana revelou que o acerto para pagamento de dívidas eleitorais das campanhas presidenciais do PT entre 2003 e 2010 sempre dependeu “da palavra final do chefe”.

E quem era o chefe? Lula, segundo ele. Lula e Dilma sabiam do uso de recursos de caixa dois, dinheiro não declarado à Justiça. "Lula e Dilma sabiam que as dividas que possuíam com João Santana seriam saldadas com recursos de caixa 2 da Odebrecht", diz o resumo de uma gravação em vídeo do depoimento de Santana.

A mulher de Santana, Mônica Moura, contou, por exemplo, que recebeu cerca de R$ 5 milhões em espécie em caixas de sapato e de roupas em uma loja de chá do Shopping Iguatemi, em São Paulo, referentes a parte dos serviços prestados pelo marido à campanha de reeleição de Lula em 2006. Naquele ano foram R$ 10 milhões pagos por fora a Santana.

Dilma preferiu controlar por meio do então ministro Guido Mantega, da Fazenda, os pagamentos feitos com dinheiro ilícito, revelou Mônica. A ex-presidente não confiava no tesoureiro do PT, João Vaccari. Para ter um canal sigiloso de comunicação com o casal Santana, Dilma criou o endereço eletrônico iolanda2606@gmail.com.


Foi por meio dele que Dilma informou ao casal, que na época estava no exterior, que ele seria preso pela Lava Jato quando desembarcasse no Brasil. A prisão, de fato, aconteceu no ano passado. Mas antes o casal teve tempo de se livrar de informações e documentos embaraçosos. Iolanda – ou melhor: Dilma – nega tudo. Lula também. Dallagnol acha graça.