Há quantos anos gremistas não sentem orgulho e alegria por ver um time que impõe respeito? Quem ainda não percebeu que o Grêmio, com uma das folhas mais altas, joga bem menos que clubes com orçamentos modestos? Como podem outros fazer mais com menos?
Faltam uns 100 dias para terminar a temporada e não se vê o trabalho do técnico. Sem uma única jogada ensaiada, sem ligação entre os setores, nenhuma organização e, salvo raras reações individuais, um time sem alma: o Grêmio aguerrido, que vendia caro qualquer derrota mesmo quando tinha limitações técnicas, hoje é um time com sangue de barata. Pior, já entra em campo derrotado. Mas tem sempre um discurso para justificar!
As coletivas do técnico Luís Castro nada esclarecem. Perguntas bestas, entrevistadores em busca de "engajamentos" e falando para seu público consumidor. Tudo que se vê é cada um garantindo o pirão da sua farinha. A autodefinida imprensa tradicional perde, cada vez mais, espaço para as mídias alternativas - ou seja lá como elas se definem.
Aí vem um diretor e diz "O trabalho do dia a dia é muito bom!" E garante a permanência do técnico. A reportagem não aperta o fulano. Faz sentido falar de "bom trabalho no dia a dia" sem nenhum resultado em campo? Ele treina? Que tipo de treino faz? Por que não há um esquema para tirar o melhor do bom centroavante que é Carlos Vinicius? É bom técnico quem não sabe aproveitar as valências do grupo? Até quando vão com essa história de que Castro ainda não conseguiu pôr em prática suas ideias? E ele tem ideias mesmo? Cascalho! Quem é que deveria fazer essas perguntas?
O Grêmio de hoje parece o de Renato Portaluppi. Falta articulação entre os setores, não tem jogada ensaiada, mata a valência dos jogadores, joga o potencial da equipe no lixo. É igual inclusive no comportamento dos dirigentes, que justificam o fracasso, e da imprensa que, salvo exceções, não mete o dedo na ferida.
Há muito comportamento que não se explica. Mais de um comentarista, de mais de uma rádio, procurou, procurou e achou jeito de elogiar Paulo Pelaipe, diretor executivo do clube. Numa sequência de escolhas erradas da direção, contratações caríssimas e sem resultado, alguma tinha que dar certo, como Walace, jovem zagueiro. E os cérebros superdotados da imprensa logo viram nesse fato a ocasião de enaltecer Pelaipe, embora não soubessem ao certo qual foi a participação dele na contratação do jovem. "Parece ter o dedo do Pelaipe", disse um deles.
Ah, e a a torcida? Como reagiria o torcedor se, em vez de um treinador europeu, o Grêmio houvesse contratado um técnico sem grife e com sotaque do sertão? É óbvio que, por muito menos dinheiro, o clube poderia trazer alguém que, no mínimo, daria um pouco de organização ao time. Na Série B há uns quantos capazes de fazê-lo. Ah, mas se é estrangeiro é melhor! E quem pensa o contrário só pode ser xenofóbico...
Dirigentes, imprensa, empresários do futebol, torcida, ainda mais as ditas "organizadas", toda essa gente forma o ecossistema do Grêmio. Toda essa gente, queira-se ou não, é responsável pelo desastre atual. O clube está encolhendo e a responsabilidade é coletiva. É um ecossistema com a fórmula infalível do fracasso, em que cada indivíduo, assim como cada grupelho, age prioritariamente em prol do autointeresse e, apesar das manifestações de respeito ou mesmo de de amor ao clube, o interesse do Grêmio vem em segundo lugar.
É preciso repetir. Essa realidade, que é da maioria dos clubes, é igual à das empresas estatais. O critério para formar os quadros dirigentes é político: tanto faz se o sujeito é um gênio ou uma topeira. E essa gente não corre risco e não responde pelos prejuízos. Se a coisa vai mal, a conta é do clube (no caso do Grêmio) ou do poder público (no caso das estatais).
Mas, sabe como é, resta um alívio, não uma solução, mas um alívio passageiro: achar alguém para jogar a culpa justificando o fracasso. É o padrão de um ecossistema que se formou para fracassar: não ter autocrítica, transferir responsabilidades e, no fim, acostumar-se com a derrota. E o pior é ter de admitir que, se essa mediocridade fosse exclusiva do futebol, até que estaríamos bem. Só que não!
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