A caixa preta de Cunha

O (ainda) deputado Eduardo Cunha, que acaba de renunciar à presidência da Câmara, é um subproduto da Era PT, de quem foi aliado – e parceiro - até o ano passado.

A divergência foi incidental: a disputa de um cargo estratégico – o de que acaba de renunciar -, que, por acordo, caberia à maior bancada na Casa, o PMDB, mas que o projeto hegemônico do PT, expresso no seu 5º Congresso, decidiu abocanhar.

Tornaram-se então inimigos e o PT passou a tratá-lo como um personagem nocivo e estranho, buscando associá-lo à oposição. Mas os crimes de que Cunha é acusado – e são muitos – estão quase todos centrados no Petrolão, cujo comando coube ao PT.

Foi, na linguagem das máfias, um comparsa, parceiro secundário, que só obteve notoriedade quando passou a ser apontado por seus ex-aliados no crime como, vejam só, um criminoso. É bem verdade que, antes de o PT chegar ao poder, Cunha já atuava no ramo. Mas exatamente por isso não teve dificuldades de se adaptar à nova ordem (ou desordem) que se estabelecia. Estava em casa.

Dilma Roussef mencionou, mais de uma vez, com compreensível asco, as contas secretas de Cunha na Suíça. Esqueceu-se de mencionar, porém, que o dinheiro que lá estava fora obtido em parceria com o PT, que comandava o saque. E ainda: confrontando-se os valores do Petrolão, que se contam na escala dos bilhões, o que coube a Cunha é pouco mais que um troco.

Ao concentrar em Cunha sua súbita aversão à corrupção, o PT quis, na verdade, construir uma argumentação contra o impeachment. Não teria legitimidade se conduzido por um corrupto. Omitia o fato de a decisão caber ao plenário e não a um único indivíduo. E de o rito ter sido definido não por ele, mas pelo STF.

Enquanto a tropa de choque do PT fazia circular essa versão, promovendo passeatas e ocupando as redes sociais, Lula e Jacques Wagner, em nome de Dilma, negociavam com Cunha o arquivamento dos pedidos (eram 28!) de impeachment.

A moeda de troca era o arquivamento do processo que Cunha enfrentava na Comissão de Ética da Câmara por ter mentido à CPI da Petrobras, negando ter contas secretas na Suíça.

Por isso, Cunha demorou três meses para dar sequência ao processo. E só o fez por não confiar em seus interlocutores. Mesmo assim, optou pelo pedido mais brando – o que está em exame -, que se atinha a crimes administrativos, deixando de lado o conjunto da obra, de natureza penal.

O pedido da OAB, arquivado por Cunha, era, por exemplo, bem mais abrangente. Ia muito além das pedaladas fiscais e levaria o debate do impeachment às páginas policiais, por onde hoje desfilam empresários amigos do PT e de sua base aliada (PMDB, PP, PTB, PR etc.), além da própria cúpula do partido, incluindo Lula.

Graças a Cunha, o impeachment tornou-se uma discussão de natureza meramente fiscal, que o povo tem dificuldades de assimilar, e preserva a presidente afastada do constrangimento de se ver exposta aos rigores do Código Penal.

Cunha deve ser cassado, mas não irá só. A demora em puni-lo decorre de algo já definitivamente demonstrado pela Lava Jato: ele está longe de ser um corpo estranho à classe política brasileira. Sua conduta, ao contrário, é mais regra que exceção. O silêncio da então oposição – hoje governo – indica cumplicidade e temor.

Se a régua com que foi medido for aplicada a todos, poucos se salvam. O grande temor, hoje, no âmbito dos três Poderes – e não apenas no Parlamento –, é saber até onde vai a Lava Jato. A conspiração para liquidá-la corre subterrânea, na mesma proporção em que, na superfície, é elogiada. Todos amam odiá-la.

Cunha, cassado e entregue a Sérgio Moro, só não voltará à sua irrelevância política por um, digamos, detalhe: é uma caixa preta, que compromete a muitos. Daí seu prestígio no chamado Centrão (também conhecido por Cunhão), núcleo de parlamentares do baixo clero, que tem grandes chances de fazer o seu sucessor. Pensa assim blindar-se, o que é altamente improvável.


Se não for socorrido – e quem terá meios para tanto? -, poderá recorrer ao que lhe resta: protagonizar o papel de um Sansão profano, a derrubar as colunas do templo e morrer ao lado de seus desafetos. O pós-Cunha promete emoções.

Memória - Tarso, Lula e Mercadante usaram dados falsos do banco Julius Baer para forjar dossiês contra Tasso Jereissati

         O ex-ministro e ex-senador do PT, Aloísio Mercadante, o pai dos aloprados (1), entregou o pen drive com dados falsos para o dossiê de calúnias desfechado pelo governo Lula contra o senador tucano Tasso Jereissati em 2009.
        Tarso e Lula participaram da tramoia.
        O modus operandi era o mesmo já usado por procuradores federais ligados ao PT, e denunciado tempos atrás pelo Conjur, escreve o delegado Romeu Tuma Júnior no seu livro “Assassinato de reputações”, página 168, ao contar esta ordem criminosa que recebeu da nomenklatura petista em janeiro de 2009:
         - Fulmine o Jereissati.
          Quem deu a ordem foi o senador Aloísio Mercadante, na época líder do governo Lula no Senado, e ex-ministro da Educação de Dilma Roussef.       
         Mercadante foi o mesmo homem sob cujas ordens os “aloprados” tentaram comprar um dossiê para desmoralizar o tucano José Serra, e também foi o mesmo homem que chamou o senador Paulo Paim, em 2008, para boicotar a aprovação do empréstimo do governo Yeda Crusius junto ao Banco Mundial, sendo repelido pelo gaúcho, conforme o jornalista Políbio Braga conta em seu livro Cabo de Guerra.
          No governo Dilma Roussef, ele foi Ministro-chefe da Casa Civil e antes disto ocupou a Casa Civil.
           Homem ligadíssimo a Dilma Roussef, Aloízio Mercadante acabou denunciado em 2016 pelo senador Delcídio do Amaral, ex-líder do governo, que  entregou aos procuradores uma conversa gravada de um assessor de Delcídio com Mercadante, depois de ter sido preso por ordem do STF. Em depoimento, Delcídio disse que Mercadante ofereceu ajuda, sugerindo que em troca não fechasse acordo de delação premiada.
         O ministro da Educação, Aloízio Mercadante, foi um dos políticos citados pelo ex-líder do governo, senador Delcídio do Amaral, na delação premiada que ele mesmo produziu no âmbito da Procuradoria Geral da República. Em um depoimento ao Ministério Público e a integrantes da Polícia Federal, o Senador entregou uma gravação feita por um assessor dele, Eduardo Marzagão. Delcídio contou que o assessor foi procurado pelo ministro e decidiu gravar as duas conversas que teve. Nessa época, o Senador estava preso.
          Delcídio disse como interpretou a oferta de ajuda feita por Mercadante ao assessor: "Ele arrumaria um jeito de pagar meus advogados." Ele se referia ao trecho da conversa em que o assessor de Delcídio fala sobre as dificuldades financeiras enfrentadas pelo senador.
Eduardo Marzagão: Só para você ter uma ideia, eles estão vendendo a casa.
Aloízio Mercadante: Para não ficar expostos.
Eduardo Marzagão: Não, até para...
Aloízio Mercadante: Arrecadar dinheiro.
Eduardo Marzagão: Arrecadar dinheiro. Os carros, a casa. A fazenda, porque é da mãe e do irmão, então lá não vai mexer. Aliás, o irmão tá vindo aí para tratar desses assuntos. Assuntos financeiros mesmo.
Aloízio Mercadante: Patrimônio da família.
Eduardo Marzagão: Patrimônio, as dívidas que ele tem. Para você ter uma ideia da situação dele, o salário dele tem consignado. O salário do Delcídio tem empréstimo consignado, que ele está pagando.
Aloízio Mercadante: Bom, isso aí também a gente pode ver no que é que a gente pode ajudar, na coisa de advogado, essa coisa. Não sei. Pô, Marzagão, você tem que dizer no que é que eu possa ajudar. Eu só tô aqui para ajudar. Veja o que que eu posso ajudar.
      Na segunda conversa com o assessor, Mercadante disse que Delcídio deveria esperar.
Aloízio Mercadante: Eu acho que ele devia esperar e não fazer nenhum movimento precipitado que ele já fez o movimento errado. Deixa baixar a poeira, que vai sair, uma confusão muito grande para o país. Para ele não ser o agente que desestabilize tudo. Senão vai sobrar uma responsabilidade para ele monumental, entendeu?
Ainda na conversa com Marzagão, o ministro Mercadante elogiou o ex-líder do governo e diz que falaria com o presidente do Senado para tentar encontrar uma saída que permitisse suspender a prisão de Delcídio junto ao Supremo Tribunal Federal.
Aloízio Mercadante: Não, não, mas o presidente vai ficar no exercício. Também precisa conversar com o Lewandowski. Eu posso falar com ele para ver se a gente encontra uma saída. Mas eu vou falar com o ministro no Supremo também.
Eduardo Marzagão: Complicado.
Aloízio Mercadante: Mas é o seguinte, eu não tenho nada a ver. O Delcídio... Zero... Não tô nem aí se vai delatar, não vai delatar, não tô nem aí. A minha questão com ele é que eu acho um absurdo o que aconteceu com ele.
            Eis o que conta Tuma Júnior sobre o episódio que envolveu o Senador do PSDB, Tasso Jereissati, ex-Governador do Ceará:
          - Lá (na liderança do governo no Senado) entregaram-me um pen drive com as “seríisimas" denúncias contra um adversário do governo que já tinham sido entregues ao Ministro Tarso Genro e ainda não haviam sido apuradas. (...) A exigência era de que eu plantasse uma investigação em cima do Jereissati.
           Acontece que Tuma Júnior era amigo do Senador do PSDB, desde que ele foi Governador do Ceará, a um ponto tal que chegou a ser convidado para ser Secretário de Segurança do seu sucessor, Ciro Gomes.
         No livro, o delegado conta que não quis tocar o caso adiante por constrangimento moral e conduta profissional, mas decidiu abrir o pen drive para ver o que estava ali:
       - O principal é que tinha sido montado em um escritório particular, documentos com cópias de contas feitas no exterior, inclusive de Tasso Jereissati.
        Tudo de origem criminosa e imprestável para procedimentos legais, para forjar dossiês falsos contra o senador do PSDB.
         O governo e o PT buscavam efeitos políticos contra o PSDB.
         O banco que produziu o dossiê:
- Julius Baer Bank &Trust, que tem sede em Nassau e pertence a um grupo alemão.
        O Ministério Público Federal foi atrás do Julius Baer durante as Operações da Lava Jato, constatando suas relações criminosas com a nomenklatura do PT. No relatório que produziu sobre material que recebeu do exterior a respeito das operações entre o PT e o banco, escreveu o MPF, neste caso trtando especificamente da lavagem de dinheiro produzida por Renato Duque, homem que o Partido colocou na Diretoria de Serviços, justamente para achacar empreiteiros:
         - Os documentos enviados informam que, entre julho e agosto de 2014, foram transferidos para contas abertas em nomes das offshores MILZART OVERSEAS HOLDINGS INC. (n. 5128005) e PAMORE ASSETS INC. (n. 5134285), no Banco Julius Baer, ambas controladas por DUQUE, o total de EU 1.300.667, representado por 13 títulos de valores mobiliários. Antes disso, em maio de 2014, já haviam sido feitas outras 13 transferências de títulos que totalizaram EU 4.121.547.

        

Artigo, Carlos Salgado, Zero Hora - Uruguai consuma-se como narcoestado

Sob o governo do presidente e médico oncologista Tabaré Vásquez, o Uruguai se assume como um narcoestado. Atitude tão vanguardista, quanto temerária. Seu secretário-geral da Junta Nacional de Drogas (JND), Milton Romani, experiente embaixador e defensor de liberdades individuais, é um entusiasta ambivalente da efetivação da venda de maconha em farmácias, ou mesmo em outros pontos de venda, caso haja resistência dos comerciantes. Setores do comércio farmacêutico temem o desprestígio de unidades destinadas a vender produtos que curam, ao abrirem-se para o comércio de maconha, droga de abuso. E Milton parece ambivalente porque declarou que a medida que defende com entusiasmo poderá ser um estrondoso fracasso.
Longe de estimular o consumo, a JND pretende estabelecer parâmetros saudáveis de uso e livrar o usuário do trânsito pela criminalidade. Usuários experientes descobriram, pela cultura privada, que umas poucas baforadas da maconha que plantam, sem grande custo, lhes pode oferecem efeitos muitos intensos. Assim, a venda de doses de até 10 gramas lhes parece perigosa para o simples deleite recreacional. O presidente Tabaré Vásquez, médico oncologista, transita com conhecimento de causa pela relação entre a fumaça da maconha e produção de câncer de cabeça, pescoço e pulmões, áreas preferidas também pela fumaça do tabaco. Aliás, em 2005, Tabaré Vasquez baniu a fumaça dos tabaco de ambientes fechados de todo o Uruguai, medida restritiva comemorada no mundo todo como exemplar. Agora, promove a venda da fumaça da maconha.

Resta-nos, como ao diplomata Milton Romani, torcer pelo melhor desfecho, mas temendo por um fracasso regulador que apenas vai favorecer o crescimento do número de usuários e do peso de seu uso. Em 2013, graças ao esforço empreendido por Tabaré Vasquez por banir a fumaça do tabaco de 100% dos ambientes fechados, o Uruguai foi convidado pela ONU como parceiro do Dia Mundial Sem Tabaco 2013, comemorado sempre em 31 de maio. Qual será o novo convite honroso que o recém consumado narcoestado receberá da ONU?

Artigo, Marcelo Aiquel - A seriedade do PT gaúcho

      Ontem, debatendo com um amigo (é, eu também tenho amigos que são ceguinhos e surdinhos), escutei dele: “Mas no PT gaúcho tem muita gente séria!”
      Imediatamente lembrei-me do meu querido irmão Juarez, que volta e meia corre para defender a figura do “garanhão de Bossoroca”, o ex-governador Olívio Dutra. Aquele mesmo que inventou a figura do contrato socialmente correto para justificar a expulsão da fábrica da FORD do Estado, coisa que o município de Camaçari/BA agradece até hoje.
      Uma observação pertinente: aa cidades de Guaíba e Eldorado do Sul caminharam 20 anos para trás com aquele canetaço demagógico. Num retrocesso financeiro, econômico e de empregos, incomensurável.
      Bom, mas o tema do artigo não são as perdas econômicas da decisão irresponsável do Olívio, mas sim a ética e a seriedade do PT gaúcho, que – lembram-se? – apoiou e aplaudiu unânime a citada deliberação.
      Parei para pensar a quem (ou a qual pessoa) meu amigo se referia quando bradou pela postura reta e pela probidade dos petistas gaúchos.
      E, confesso que, depois de pensar muito, não consegui detectar um só membro do “partidão da ética” que pudesse ser qualificado como tal.
      E explico:
      Não são poucos os petistas gaúchos que se rebelaram publicamente nos últimos tempos contra a bandalheira praticada pela quadrilha comandada pelo Lula. Posso citar, entre outros, Olívio Dutra, Paulo Paim, e Raul Pont, sempre com um discurso forte a favor da ética.
      Mas, nenhum deles tomou qualquer medida prática e efetiva em relação a estes fatos criticados. Seguem todos no PT, abraçados aos “companheiros” denunciados, sendo alguns até já condenados.
      Ora, desde os primórdios da humanidade se sabe que existem dois tipos de infratores (e uso este termo leve em respeito às pessoas denunciadas): os que praticam o delito como autores, e os coniventes.
      Também é notório que nem todo o “conivente” deva ser beneficiário direto do resultado do delito. Mas, o simples fato de tomar conhecimento e silenciar (seja lá porque razão) faz deste conivente um “cúmplice” do crime. Ou do ilícito, para ser menos agressivo.
      Ou seja, a omissão de fato criminoso (ou ilegal) imputa uma “cumplicidade” à pessoa conivente.
      Estes por sua vez deixariam de ser corresponsáveis na hipótese de, indignados com a situação, tomarem uma medida objetiva: denunciar os autores do(s) ilícito(s).
      Ou, para não agir como um X9, imediatamente afastar-se da companhia do infrator.
      Porém, em interesse próprio (pensando apenas em si e/ou no seu futuro político) estes “cúmplices” não fizeram nem uma coisa nem outra, preferindo apenas criticar – num “jogo de cena” deplorável – e prosseguir no mesmo barco.
      A mais evidente constatação disso é que existem outros barcos que conduzem ao mesmo destino. E que é possível, inclusive, criar um novo.       Exemplos não faltam!
      Ocorre que, quando se reclama acintosamente da conduta do capitão de um barco e depois se troca de embarcação, o crítico fica vulnerável à possibilidade do criticado denuncia-lode ter participado no mesmo esquema reclamado. É o que se chama de RABO PRESO!
      Ou não?
      Eu custo a acreditar que seja este o motivo de pessoas tão elogiadas publicamente não resolverem optar por um novo caminho.
      Afinal, não se aposta tanto na seriedade destes?
      Então, quem aposta que responda.
      Sem tergiversar ou acusar outros de fazerem o mesmo, porque ai fica parecendo argumento vazio de advogado incompetente...
      Pela singela razão de que um erro nunca justificou outro!


      Marcelo Aiquel – advogado (07/06/2016)

No país da piada pronta, a presidência do Supremo Tribunal Federal aciona a polícia contra o responsável pelo boneco Lewandowski

Ricardo Noblat

“A honra” do ministro Ricardo Lewandowski, presidente do Supremo Tribunal Federal (STF), foi gravemente atingida pela exibição nas ruas de São Paulo de um boneco inflável com a cara dele, o penteado igual ao dele, todo o jeitão dele, apenas muitas vezes maior do que ele. Como se não bastasse, o boneco atentou também contra “a credibilidade do Poder Judiciário”.

Com base nesses argumentos, a presidência do STF acionou a Polícia Federal para que investigue o responsável pelo boneco. Ou melhor: pelos bonecos. Sim, porque outro boneco, bem parecido com o procurador-geral da República, Rodrigo Janot, foi visto na Avenida Paulista, em São Paulo, no dia 19 de junho, em uma manifestação anti-PT.

De acordo com documento assinado pelo chefe de segurança do STF, Murilo Herz, e avalizado por Lewandowski, o uso dos bonecos representou "grave ameaça à ordem pública e inaceitável atentado à credibilidade" do Poder Judiciário. Herz pediu que a Polícia Federal interrompa a "nefasta campanha difamatória" contra Lewandowski, inclusive nas redes sociais.

Os dois bonecos têm nomes. Um se chama Petrolowski. O outro, Enganô. Petrolowsk tem os pés cobertos de ratos e segura uma balança em que um dos pratos pende para o lado em que aparece a estrela vermelha, símbolo do PT. Enganô, o corpo em forma de um arquivo com duas gavetas, uma delas aberta, onde está escrito a palavra “petralhas”.

Para poupar tempo à Polícia Federal, tão ocupada desde que irrompeu a Operação Lava-Jato, o responsável pelos dois bonecos procurou diversos órgãos da imprensa e identificou-se. Trata-se de Carla Zambelli Salgado, uma das líderes do Movimento Nas Ruas. No ano passado, ela foi uma das pessoas que se acorrentou na Câmara dos Deputados para exigir o impeachment de Dilma.

Ao jornal O Estado de S. Paulo, Carla disse que não vê motivo para a investigação de “charges críticas” a figuras públicas. Em defesa da sua e da inocência dos bonecos, afirmou ainda que “grave ameaça são algumas decisões que o próprio ministro toma, inclusive, como presidente do processo de impeachment". Lewandowsk preferiu não comentar as declarações de Carla.

Petrolowski e Enganô são da mesma família de bonecos inaugurada pelo Pixuleco – um Lula gigante, metido em roupa de prisioneiro. Dilma virou “Bandilma”. Os ministros Teori Zavascki e Dias Toffoli, Teoridra e Toffoleco, respectivamente. O boneco que homenageia – ou insulta – o ministro Marco Aurélio Mello, do STF, ainda não foi batizado.

Passeatas do PT já foram abrilhantadas por bonecos do juiz Sérgio Moro e do senador Aécio Neves. Até aqui, nenhum dos embonecados havia tido a ideia de chamar a polícia.


Bonecos do ministro Ricardo Lewandowski e do Procurador-Geral da República Rodrigo Janot (Foto: Reprodução)
Bonecos do ministro Ricardo Lewandowski e do Procurador-Geral da República Rodrigo Janot (Foto: Reprodução)


Arrtigo, Adão Paiani - A raiz de todos os males

Na noite do último domingo fiz algo fora da rotina. Desperdicei alguns minutos para assistir ao “Fantástico”, da Rede Globo de Televisão, a exemplo de milhões de brasileiros. Dentre esses, possivelmente, estava um jovem de 29 anos, chamado Luiz Carlos Gomes da Silva Júnior.
Em pouco mais de quinze minutos quem estivesse assistindo ao programa recebeu três informações sobre o país e a sociedade onde vivem. Ao menos na visão ideológica da mídia nacional.
A primeira matéria mostrou um “experimento social”. Diversas crianças, negras, foram colocadas frente a uma jovem igualmente negra, para a qual deveriam dirigir comentários racistas. A maioria das crianças não consegui repetir as frases olhando para a interlocutora. Moral da história: “O Brasil é um país racista, que ensina seus filhos a serem racistas e onde brancos e negros odeiam-se mutuamente”.
 Na sequência, outra matéria. Um estudante da UFRJ foi encontrado morto. O motivo do homicídio, de acordo com a reportagem: homofobia. E lembram que o jovem assassinado foi mais uma vítima da sociedade homofóbica. Moral da história: “No Brasil, homossexuais são mortos por serem homossexuais. O país é culturalmente homofóbico”.
Ao fim, um grupo de mães é levada a pintar corações vermelhos em calçada do centro do Rio, contando as histórias de seus filhos, negros, pobres e da periferia, assassinados devido a ações violentas da polícia. Moral da história: “A polícia brasileira é violenta, opressora e assassina, e se dedica a matar jovens, negros e da periferia”.
Ao desligarem a TV na noite de domingo, muitos talvez estivessem convencidos de que o racismo não é fruto de condutas individuais, mas sim da cultura nacional. Isso num dos países mais miscigenados do mundo, onde todos, invariavelmente são étnica e/ou culturalmente negros.
Ao se recolherem naquela noite, outros tantos talvez acreditassem que o Brasil; um dos países mais violentos do mundo, onde a cada ano se registram mais de 60 mil homicídios; é um lugar onde se matam mais homossexuais do que outras pessoas.
A dormirem naquela noite, inúmeros talvez acreditassem que a polícia; que vive uma realidade de baixos salários, falta de condições de trabalho, desprestígio e criminalização de seus agentes; é violeta, truculenta, mata e reprime com violência cidadãos inocentes, e não merece a confiança da sociedade.
Na segunda-feira, na zona sul de Porto Alegre, Luiz Carlos Gomes da Silva Júnior, policial militar, foi assassinado ao abordar um veículo onde estavam três criminosos. Todos, vítima e algozes, jovens, pobres e moradores da periferia.
Moral da história: Colocar brancos contra negros, heteros contra gays, criminalizar policiais e vitimizar criminosos não vai fazer deste um país melhor. Acreditar nisso está na raiz de todos os nossos males. E aquilo que a mídia quer fazer você acreditar não é, necessariamente, a verdade.

*Advogado, de Brasília/DF.

Artigo, Antonio Delfim Netto - Olhem o câmbio

A economia tem duas características interessantes. A primeira é que, diferentemente das ciências "duras", em que o conhecimento não altera a natureza, nela ele modifica o comportamento da sociedade. A segunda é que nela os avanços não são "novos" problemas produzidos por respostas cada vez mais profundas, como nas ciências "duras", mas "novas" respostas dadas aos mesmos e velhos problemas, porque a realidade mudou.
O que explica o desenvolvimento econômico? Por que os níveis da atividade e do emprego flutuam? Por que há inflação? A história do pensamento econômico é a descrição de como uma realidade mutante e a evolução das instituições levaram os economistas a encontrar "novas" respostas aos mesmos "velhos" problemas.
A escolha do regime cambial é paradigmática a esse respeito. Não existe um regime "ótimo", independentemente das circunstâncias. Quando não se admite liberdade de movimento de capitais, a taxa de câmbio é o preço relativo que iguala os valores dos fluxos de exportação e importação. Quando ela é admitida, a taxa de câmbio é outro animal: é o preço de um ativo financeiro manipulável pela modificação do diferencial entre a taxa de juro real interna e externa. Pode atender às conveniências do mercado financeiro, mas não atender às conveniências mais importantes da economia real.
A taxa de câmbio é um dos "canais" de comunicação dos efeitos da variação do juro real da economia. São dois fatores essenciais ao desenvolvimento porque controlam o investimento e a exportação. Nos últimos 20 anos, usamos o câmbio para ajudar no combate à inflação.
Graças a isso destruímos amplos setores da economia nacional, particularmente um sofisticado setor industrial, que está com 35% de capacidade ociosa. Mais recentemente, graças à taxa de câmbio, parece dar pálidos sinais de recuperação. Uma boa parte do nosso medíocre crescimento se deve à murcha do setor industrial, do qual a valorização do câmbio roubou a demanda interna e externa.

É preciso repetir. É mais do que duvidoso que, na teoria ou na prática, o enorme diferencial de juro interno e externo com que convivemos possa sugerir que o melhor regime para o nosso arranjo cambial seja a livre e plena flutuação. Ao nosso Banco Central não faltam competência e sensibilidade para nos livrar de repetir a tragédia a que fomos submetidos na última década. Fico aliviado quando o presidente do BC, o competente Ilan Goldfajn, declara: "não acredito que o câmbio seja uma âncora para inflação", e completa, "não sou advogado de câmbio flutuante puro".