Lula finge não notar, mas sua propalada honestidade já se encontra sob questionamento em pelo menos quatro inquéritos. Num deles, o promotor Cássio Conserino, de São Paulo, avisou que formalizará uma denúncia contra o ex-presidente e sua mulher, Marisa Letícia. Vai enquadrá-los no crime de lavagem de dinheiro. Acusa-os de ocultar a posse de um apartamento triplex no Guarujá. O imóvel foi reformado pela OAS, uma das empreiteiras enroladas na Lava Jato. “Lula e dona Marisa serão denunciados”, disse o promotor à revista Veja. “Brevemente, eles serão chamados a depor.”
Alheio ao cerco que se fecha à sua volta, Lula ainda cultiva um conceito extraordinário sobre si mesmo. “Se tem uma coisa de que me orgulho é que não tem nesse país uma viva alma mais honesta do que eu”, autocongratulou-se há quatro dias, numa entrevista com blogueiros. Nessa mesma conversa, estalando de autoridade moral, Lula desafiou: “Duvido que neste país tenha um promotor, um delegado […] que tenha coragem de afirmar que eu tenha me envolvido em qualquer coisa ilícita neste país.”
É como se Lula, trancado em sua autoestima, enxergasse a conjuntura a partir de lentes cor de rosa. O problema é que, afora o processo sobre o apartamento de cobertura no Guarujá, há pelo menos outros três que conspiram contra a ilusão de ótica do cacique petista. Num desses processos, a Polícia Federal apura a suspeita de envolvimento de Lula no loteamento político que deixou a Petrobras vulnerável à pilhagem. Noutro, a PF investiga se Lula está envolvido no caso de venda de medidas provisórias durante sua gestão. Num terceiro, a Procuradoria esquadrinha denúncia de tráfico de influência de Lula em favor de empreiteiras brasileiras que atuam no exterior.
Lula já foi interrogado nos três casos. Em teoria, falou como testemunha. Na prática, foi tratado como suspeito. No inquérito sobre a Lava Jato, conduzido em Brasília pelo delegado federal Josélio Azevedo de Sousa, Lula foi interrogado no mês passado. Compareceu perante o delegado para falar como “informante”, na expressão usada pelo ministro Teori Zavascki, do STF, ao autorizar o interrogatório. Mas o doutor Josélio fez questão de expor as suspeitas que nutre em relação a Lula já no ofício que endereçou ao Supremo.
O delegado anotou: “Na condição de mandatário máximo do país” na época do assalto à Petrobras, Lula “pode ter sido beneficiado pelo esquema, obtendo vantagens para si, para seu partido, o PT, ou mesmo para seu governo, com a manutenção de uma base de apoio partidário sustentada à custa de negócios ilícitos na referida estatal.”
Crivado de interrogações sobre o petrolão, Lula tentou manter diante do delegado a fábula do “eu não sabia”. Mas suas contradições denunciaram um depoente em apuros. A certa altura, o doutor Josélio perguntou sobre Renato Duque, o ex-diretor de Serviços da Petrobras, que está preso no Paraná sob acusação recolher propinas na estatal em nome do PT. Lula disse não ter nada a ver com a nomeação de Duque.
Na versão de Lula, o nome de Duque foi submetido à Casa Civil da Presidência, então chefiada por José Dirceu. “Cabia à Casa Civil receber as indicações partidárias e escolher a pessoa que seria nomeada”, disse. O delegado perguntou se Duque era o homem do PT na diretoria da Petrobras. Lula disse não saber “se foi o PT ou outro partido” que o indicou. Realçou que não conhecia Duque. E quanto a Nestor Cerveró, outro ex-diretor da Petrobras preso? “Foi uma indicação política do PMDB.”
Lula repetiu que não participou do processo de escolha dos diretores da Petrobras. Sustentou que a escolha dos nomes passava pela costura de acordos políticos. Tais acordos “eram feitos normalmente pelo ministro da área, pelo coordenador político do governo e pelo partido interessado na nomeação.” Sem mencionar-lhe o nome, acabou jogando Dilma no caldeirão.
A Petrobras é subordinada ao Ministério de Minas e energia. Na época da nomeação dos diretores corruptos, a ministra “da área” era Dilma. O delegado indagou quem era o coordenador político do governo. Lula respondeu que teve vários. Citou quatro: Tarso Genro, Jaques Wagner, Alexandre Padilha e Aldo Rebelo. Alegou não se lembrar qual deles tratou das nomeações de Renato Duque e de Nestor Cerveró.
Espreme daqui, aperta dali, Lula caiu em contradição. Reconheceu que a palavra final sobre as nomeações era dele. Depois de ter jogado toda a responsabilidade sobre os ombros de Dirceu, explicou que os partidos negociavam suas nomeações com diversos atores —os ministros da área, o coordenador político…— “não somente com o ministro-chefe da Casa Civil.” E admitiu: “ao final do processo”, o fisiologismo desaguava no gabinete presidencial. Ouvido, Lula “concordava ou não com o nome apresentado”. Alegou que baseava suas escolhas em “critérios técnicos que credenciavam o indicado”. Deu no que deu.
Dias atrás, ao protocolar no STF denúncia contra o deputado Vander Loubet (PT-MS), acusado de receber petropropinas, o procurador-geral da República Rodrigo Janot anotou no texto conclusões que reforçam a linha de investigação do delegado Josélio. Segundo Janot, Lula concedeu ao senador Fernando Collor (PTB-AL) “ascendência'' sobre a BR Distribuidora, subsidiária da Petrobras. Fez isso em 2009, “em troca de apoio político à base governista no Congresso Nacional''.
Janot soou ácido. Na sua definição, formou-se na BR Distribuidora, sob Lula, “uma organização criminosa preordenada principalmente ao desvio de recursos públicos em proveito particular, à corrupção de agentes públicos e à lavagem de dinheiro''. Collor nomeou dois diretores da estatal. Lula decerto avaliou que o aliado se movia por patriotismo. Mas Janot informou na petição ao STF que as diretorias ocupadas por seus apaniguados “serviram de base para o pagamento de propina ao parlamentar.'' Além da turma de Collor, Lula acomodou na BR Distribuidoras apadrinhados do PT, também para realizar a coleta de “valores ilícitos”, acusou Janot, numa espécie de aviso sobre o que ainda está por vir na Lava Jato.
Há duas semanas, Lula viu-se compelido a prestar novo depoimento à PF, dessa vez sobre a suposta compra de medidas provisórias por lobistas a serviço de empresas de automóveis. O interrogatório foi constrangedor. Lula foi questionado sobre os R$ 2,5 milhões que seu filho caçula, Luís Claudio Lula da Silva, recebeu do lobista preso Mauro Marcondes, um dos suspeitos de intermediar a comora de MPs. Como de praxe, Lula disse que não sabia de nada.
Lula foi confrontando com o teor de documento apreendido no escritório de Mauro Marcondes. Nele, está escrito: “a MP foi combinada entre o pessoal da Fiat, o presidente Lula e o então governador de Pernambuco Eduardo Campos''. E Lula: “Combinação nesse sentido pejorativo é coisa de bandido. Não ocorreu". Admitiu, porém, que se reuniu “algumas vezes” com Eduardo Campos e Cledorvino Beline, da Fiat. Alegou que a conversa foi sobre a instalação de fábrica da Fiat em Pernambuco.
A PF mostrou a Lula também minuta de uma carta dirigida a ele pelo lobista Mauro Marcondes em agosto de 2012, já sob Dilma. No documento, o personagem pediu o apoio de Lula para convencer o governo a comprar da empresa sueca Saab caças Gripen para a Força Aéra Brasileira. Lula disse não ter recebido a carta. A despeito da negativa, a PF lhe perguntou se os R$ 2,5 milhões repassados ao seu filho pelo lobista seria uma contrapartida da Saab. “Essa hipótese é um absurdo”, reagiu Lula. Seria, então, pagamento da compra de MPs? “Essa hipótese é outro absurdo”, repetiu Lula.
A Procuradoria da República interrogou Lula como suspeito também no processo que trata do suposto tráfico de influência internacional em favor de empreiteiras que virariam clientes de suas palestras, tornando-o um próspero ex-presidente da República. As mesmas construtoras frequentam os processos da Lava Jato de ponta-cabeça. Seus executivos estão presos.
O prédio de Jaques Wagner tem pier e até teleférico para a praia, Salvador
Antes de entrar no governo, a troika integrava a classe C do Lula, mas viraram milionários de uma hora para a outra.
Há apenas poucos anos, o chefe da Casa Civil de Dilma morava num apartamento de R$ 150 mil, mas agora seu apartamento custa R$ 3 milhões. O edifício tem pier particular e até teleférico para alcançar a praia, a mais requisitada da Bahia.
Há apenas poucos anos, o chefe da Casa Civil de Dilma morava num apartamento de R$ 150 mil, mas agora seu apartamento custa R$ 3 milhões. O edifício tem pier particular e até teleférico para alcançar a praia, a mais requisitada da Bahia.
O ministro-chefe da Casa Civil, Jaques Wagner, aumentou seu padrão de vida nos últimos anos, período em que ocupou o governo da Bahia. Wagner hoje é dono um apartamento no bairro mais luxuoso de Salvador. O prédio do petista conta até com teleférico e píer particular.
O imóvel fica no bairro Vitória, mais precisamente na região conhecida como Corredor da Vitória, um dos metros quadrados mais caros do País, comparado ao de áreas nobres da zona sul do Rio. No bairro, vive praticamente toda a elite política e empresarial da capital baiana, além de artistas famosos.
Segundo registro em cartório, o apartamento custou R$ 1,45 milhão. A compra foi efetivada em março de 2011, cinco meses após a reeleição de Wagner como governador. Até o fim de 2014, porém, ele continuou morando no Palácio de Ondina, residência oficial do governador. Mudou-se para o novo endereço no ano passado.
Com a autorização de um morador, o jornal Estado conheceu as áreas comuns do condomínio. Além de píer e teleférico que dá acesso à praia, o prédio dispõe de academia, piscina, sala de cinema e quadra poliesportiva. O imóvel tem a melhor vista da cidade para a Baía de Todos os Santos.
Imóvel
Por meio dos dados registrados em cartório, a reportagem obteve detalhes sobre o apartamento de Wagner. O imóvel tem área privativa de 252,08 metros quadrados. Conta com sala de jantar, quatro quartos com suíte, lavabo, área de serviço de dois quartos de empregada.
Há cerca de seis meses, o corretor Raimundo Epifânio da Silva, especialista em imóveis no Corretor da Vitória, vendeu um apartamento igual ao de Wagner. Ele conta que o negócio foi fechado em R$ 3,5 milhões. "Depende do estado do apartamento. Se estiver arrumado, reformado, vale mais", disse Epifânio.
Antes de ser eleito pela primeira vez, Wagner morava no bairro Federação, num apartamento que ele declarou ter comprado por R$ 150 mil, em 2001. O ministro vendeu o imóvel a Antonio Celso Pereira, que é ligado politicamente a Wagner. Ele foi superintendente no governo da Bahia e diretor na Companhia de Docas do Estado. Pereira pagou R$ 900 mil pelo imóvel de Wagner
Com formação de técnico de manutenção, Wagner atuou como dirigente sindical entre 1975 e 1990, quando se elegeu deputado federal. Por ter exercido dois mandatos, ele ganha uma aposentadoria de R$ 10 mil. No fim de 2014, a Assembleia Legislativa da Bahia criou uma aposentadoria de R$ 19 mil para ex-governadores, o que acabou beneficiando Wagner.
Por meio de sua assessoria, o ministro disse que a transação foi feita de acordo com valores de mercado e que o imóvel consta da declaração de imposto de renda dele. As informações são do jornal O Estado de S. Pau
PF pede condenação de Marcelo Odebrecht, Alexandrino Alencar e mais quatro na Lava Jato
Procuradores apresentaram as alegações finais na ação
penal contra o presidente afastado do Grupo Odebrecht e mais cinco réus.
Os procuradores da Lava Jato pedem a condenação de seis
réus. São eles o presidente afastado do grupo Odebrecht, Marcelo Odebrecht; os
ex-executivos Rogério Araújo, Márcio Faria, César Rocha e Alexandrino de
Alencar, considerados pelo Ministério Público como os operadores dos
pagamentos; além do ex-diretor de serviços da Petrobras, Renato Duque. Todos
estão presos, menos Alexandrino de Alencar e César Rocha. Os réus são acusados
de crimes como corrupção, lavagem de dinheiro e organização criminosa.
O Ministério Público afirma que a organização criminosa
desviou, por meio do esquema de corrupção na Petrobras, R$ 300 milhões.
O Ministério Público diz no documento que "o
envolvimento de empresários do Grupo Odebrecht nas atividades ilícitas da
organização criminosa era comandado, notadamente, por Marcelo Odebrecht, que
atuava na orientação dos demais membros e na coordenação de todas as etapas das
práticas delituosas".
O Ministério Público aponta como prova mensagens de
celular e e-mails de Marcelo Odebrecht apreendidos na operação.
Em um dos e-mails citados pelo Ministério Público, um
ex-funcionário escreve a Marcelo Odebrecht sobre "um possível sobrepreço
em contratação de sondas".
Os procuradores dizem que também que há conversas em que
Marcelo Odebrecht faz referências a obras da Petrobras, demonstrando - segundo os
investigadores - o conhecimento e o envolvimento dele nos assuntos e negócios
em relação a ela.
Um dos e-mails é de 2011 e Marcelo diz: “quanto à
Petrobras, precisamos ver quem é que decide este assunto e a estratégia para
influenciá-lo”.
Com base nesses documentos, os procuradores também dizem
que "sob as ordens de Marcelo Odebrecht, o ex-gestor da Braskem, empresa
na qual a Odebrecht tem sociedade com a Petrobras, o ex-executivo Alexandrino
de Alencar se reunia com o doleiro Alberto Youssef e o ex-deputado do PP José
Janene para negociar o pagamento de propina dirigida ao grupo político que se
beneficiava dos contratos firmados pela Braskem com a Petrobras, efetuando
então depósitos nas contas indicadas por Alberto Youssef".
José Janene morreu em 2010 e foi um dos deputados
investigados no caso do mensalão do PT.
Esse caso específico de transferências de propina da
empreiteira e da Braskem para o exterior foi citado na delação de um
funcionário do doleiro Alberto Youssef.
Os procuradores pedem a suspensão do processo para
Alberto Youssef, para o ex-diretor da Petrobras Paulo Roberto Costa e para o
ex-gerente Pedro Barusco, um benefício previsto nos acordos de deleção deles.
Os procuradores da Lava Jato dizem que o suposto caso de
corrupção envolvendo o grupo Odebrecht é dos maiores já revelados no país. Eles
pedem que os réus devolvam aos cofres da Petrobras mais de R$ 6 bilhões.
A defesa de Marcelo Odebrecht negou a participação dele
em qualquer desvio de dinheiro.
Editorial Correio Braziliense - Golpe de miosericórdia
Perguntaram a Aristóteles a diferença entre história e
literatura. A história, respondeu o mestre grego, olha os fatos. Mostra a
realidade. No presente, o que os homens são e fazem. No passado, o que foram e
fizeram. A literatura lida com os mesmos acontecimentos. Mas os mira com olhar
diferente. Revela o que os homens gostariam de ser e de fazer. Ou o que
gostariam de ter sido ou de ter feito.
Vem à tona a sabedoria do filósofo estagirita em razão
dos malabarismos do governo brasileiro. Como se usasse os óculos de lentes
verdes de Oz e desembarcasse no País das Maravilhas, a presidente Dilma
Rousseff teima em apresentar enredos que não conversam com a verdade. Ao
contrário das obras de ficção, falta-lhes coerência interna - pacto não escrito
estabelecido entre autor e consumidor. Um finge que diz a verdade. O outro
finge que acredita.
A história ficou clara na campanha eleitoral. Discursos e
imagens marqueteiros iam de encontro à verdade escancarada nos hospitais, nas
escolas, nos transportes, nas estradas, na segurança. Esperava-se que a vitória
nas urnas representasse o retorno ao mundo real. A indicação de Joaquim Levy
para o comando da economia justificou a esperança. Mas, boicotado pelos
próprios petistas, o ministro abandonou a pasta.
Nelson Barbosa ficou longe de apontar rumo para a falta
de rumo nacional. Em Davos, no primeiro dia oficial do Fórum Econômico Mundial,
ele apostou no ovo ainda na barriga da galinha. Contou com a volta da CPMF para
o reequilíbrio das contas públicas. Inspirou-se, por certo, na Lei Orçamentária
Anual (LOA), em que figura o imposto que taxa a movimentação financeira como se
estivesse em vigor.
O governo prevê aprová-lo até maio para ser cobrado em
setembro. Se a ficção coincidir com a realidade, a arrecadação deve atingir R$
10 bilhões, cujo montante ajudaria o cumprimento da meta de superavit primário
de 0,5% do PIB em 2016. O condicional impressiona, mas não convence. Dilma
Rousseff precisa de um choque de realidade.
Em 2015, o país perdeu 1,5 milhão de postos de trabalho -
o pior resultado desde o início da série histórica em 1992. A taxa de
desemprego, hoje superior a 8%, poderá fechar 2016 em acima de 12%. O deficit
primário deverá chegar a R$ 68,2 bilhões.
Após encolher cerca 4% no ano passado, a economia, como
um todo, ficará 3,5% menor, conforme projeção do FMI. A inflação encerrou 2015
em 10,67% e segue em ritmo ascendente. A taxa de juros em 14,25% torna o valor
do crédito exorbitante, o que desestimula os investidores. No ambiente de
incertezas, o Executivo resiste aos cortes necessários na máquina pública para
frear o aumento do deficit fiscal. Persistir nesse roteiro é levar o Brasil à
falência e torná-lo a Grécia da América Latina.
Artigo, Roberto Rachewsky - O socialista e o iPhone
A genial maneira escolhida para ironizar a hipocrisia da
esquerda, evidenciando a promíscua relação entre os amantes do socialismo e os
produtos do capitalismo, serve de estímulo a uma análise um pouco mais profunda
desta questão.
Devemos nos perguntar, por que Steve Jobs criou e colocou
à venda um produto tão magnífico como o iPhone? Por que as pessoas, inclusive
você, Socialista de iPhone, adquiriram o seu, pagando o que tiveram que pagar?
Por uma razão
muito simples, todos, seja o Steve Jobs, ou qualquer outra pessoa neste mundo,
acreditam que é do seu auto-interesse fazê-lo, pois ao final, acabariam
lucrando.
Steve Jobs acabou bilionário, porque em nome de seu
auto-interesse, atendeu a milhões de consumidores. Assim como, um socialista
qualquer, pelo mesmo motivo, incorporou ao seu dia-a-dia, algo com valor muitas
vezes maior do que pagou por ele.
Esta é a lógica central, que embasa as relações entre
indivíduos, que usam o seu auto-interesse racional, para obter as condições
necessárias, para uma vida melhor, mais produtiva, mais econômica e mais feliz.
É o legítimo processo de livre-mercado, onde as trocas
voluntárias e espontâneas produzem resultados maiores do que a soma das partes,
podendo assim, ser chamado de jogo do ganha/ganha, onde, ganha quem compra e
ganha quem vende. Indo além desta análise, que colocou em igualdade de
condições, um genuíno capitalista, Steve Jobs, e qualquer Socialista de iPhone,
cabe-nos fazer a seguinte reflexão: como alguém pode produzir um iPhone e como
alguém pode adquiri-lo?
Obviamente, através da necessária geração anterior de
valor. Ou seja, para que Steve Jobs pudesse vender um iPhone, ele precisaria
concebê-lo, produzi-lo, divulgá-lo até oferecê-lo ao mercado consumidor. Para
que isso se tornasse realidade, além da sua própria mente, da sua genialidade,
ele precisaria de gente que financiasse seu empreendimento, no caso, acionistas
ou banqueiros que usariam os seus recursos disponíveis para que Steve Jobs
pudesse tornar seu sonho uma realidade.
Por outro lado, como alguém poderia adquirir o produto
resultante desta iniciativa empreendedora de Steve Jobs? Obviamente também,
gerando valor para outras pessoas que retribuiriam pagando pelo que obtivessem.
Ou seja, o jogo do ganha/ganha estaria sendo jogado entre todos aqueles que
estivessem exercendo o legítimo direito de buscar a satisfação do seu
auto-interesse.
Trocas voluntárias, transações livres e espontâneas para
a satisfação mútua de autointeresses convergentes, através da produção de bens
e geração de valor, são a alma do capitalismo. Por isso que não se diz
Capitalista de iPhone. Não faria sentido. Os conceitos capitalista e produto do
capitalismo são indissociáveis, não-contraditórios.
Por que torna-se sarcástica a expressão Socialista de
iPhone? Por que ela é contraditória. Nenhum socialista quer viver no
socialismo. Todos querem alcançar poder suficiente, para viver como um
capitalista. Porém, com o dinheiro dos outros.
É por isso que socialistas defendem o uso da violência,
como meio para obterem os valores que necessitam para se satisfazer. E é a
violência que destrói a alma do capitalismo, o sistema de relações
interpessoais, baseado em trocas espontâneas e voluntárias, livres da coerção.
É o capitalismo que possibilitou que Steve Jobs cria-se o iPhone.
Capitalistas vêem as relações no mercado como um jogo de
ganha/ganha, socialistas acreditam se tratar de um jogo de soma zero, onde para
um ganhar, o outro tem que perder.
É por isso que socialistas de iPhone são uma contradição
ambulante, sujeitos a mais sagaz das críticas, o humor irônico ou sarcástico.
Para fazer uma analogia, um socialista com iPhone é como
um ateu carregando um crucifixo no peito.
É claro que há uma diferença fundamental metafísica, o
iPhone pode propiciar ao socialista, uma vida melhor.
Encerro com um desafio: ou vocês deixam de ser
socialistas, ou devolvam seu iPhone na loja mais próxima.
# # # # # # # # #
* Roberto Rachewsky, escreve toda a semana para a
Socialista de iPhone, é empresário e pensador independente. Co-fundador e
conselheiro do IEE, do Instituto Liberdade, do Instituto Atlantos e do
Objetivista. Membro do Clube Miss Rand.
João Cabral de Melo Neto - Uma Faca só Lâmina
Assim como uma bala
enterrada no corpo,
fazendo mais espesso
um dos lados do morto;
assim como uma bala
do chumbo mais pesado,
no músculo de um homem
pesando-o mais de um lado;
qual bala que tivesse um
vivo mecanismo,
bala que possuísse
um coração ativo
igual ao de um relógio
submerso em algum corpo,
ao de um relógio vivo
e também revoltoso,
relógio que tivesse
o gume de uma faca
e toda a impiedade
de lâmina azulada;
assim como uma faca
que sem bolso ou bainha
se transformasse em parte
de vossa anatomia;
qual uma faca íntima
ou faca de uso interno,
habitando num corpo
como o próprio esqueleto
de um homem que o tivesse,
e sempre, doloroso
de homem que se ferisse
contra seus próprios ossos.
Editorial, Estadão - O asceta de Garanhuns
21/01/2016 | 02h55
“Se tem uma coisa que eu me orgulho, neste país, é que
não tem uma viva alma mais honesta do que eu. Nem dentro da Polícia Federal,
nem dentro do Ministério Público, nem dentro da Igreja Católica, nem dentro da
Igreja Evangélica. Pode ter igual, mas mais do que eu, duvido.” Lula continua
achando que o brasileiro é idiota. Reuniu ontem blogueiros amigos para um café
da manhã em seu instituto e, a pretexto de anunciar que vai participar
“ativamente” do próximo pleito municipal, aderiu pessoalmente – já o havia
feito por intermédio de seu pau-mandado Rui Falcão – à campanha promovida por
prósperos advogados e seus clientes, apavorados empresários e figurões da
política, para desmoralizar a Operação Lava Jato, que procura acabar com a
impunidade de poderosos corruptos.
Lula conseguiu escapar penalmente ileso do escândalo do
mensalão e, por enquanto, não está oficialmente envolvido nas investigações
sobre o assalto generalizado aos cofres públicos. Os dois casos juntam-se numa
sequência das ações criminosas que levaram dinheiro sujo para os cofres do PT e
aliados e “guerreiros” petistas como José Dirceu, José Genoino e Delúbio Soares
para a cadeia.
O que é inacreditável é que, como presidente da República
e dono do PT, Lula não tivesse conhecimento do mensalão e do petrolão que
desfilavam sob seu nariz. Assim, é notável o atrevimento – talvez mais
estimulado pelo desespero do que por sua índole de ilusionista – com que o
personagem, que ficou rico na política, se apresenta como monopolista das mais
prístinas virtudes.
Só mesmo alguém empolgado pelo som da própria voz e pelas
reações da plateia amiga cairia no ridículo de se colocar como referência
máxima e insuperável em matéria de honestidade. “Pode ter igual, mas mais do
que eu, duvido.”
Apesar de inebriado com as próprias virtudes, Lula
encontrou espaço para a modéstia – infelizmente de braços dados com a
mendacidade, que alguns chamam de exagero retórico – ao se referir ao combate à
corrupção. Fez questão de dar crédito a sua sucessora, deixando no ar a
pergunta sobre a razão pela qual os petistas esperaram oito anos, até que o
chefão deixasse a Presidência, para se preocuparem com os corruptos: “O governo
criou mecanismos para que nada fosse jogado embaixo do tapete nesse país. A
presidente Dilma ainda será enaltecida pelas condições criadas para punir quem
não andar na linha nesse país”. E arrematou, falando sério: “A apuração da
corrupção é um bem nesse país”.
Lula não se conforma, no entanto, com a mania que os
policiais e procuradores têm de o perseguirem, obstinados pela absurda ideia
fixa de que ele tem alguma coisa a ver com a corrupção que anda solta por aí:
“Já ouvi que delação premiada tem que ter o nome do Lula, senão não adianta”.
Ou seja, os homens da Lava Jato ou da Zelotes não vão sossegar enquanto não
obrigarem alguém a apontar o dedo para o impoluto Lula. Mas, confiante, o
chefão do PT garante que não tem o que temer: “Duvido que tenha um promotor,
delegado, empresário que tenha coragem de afirmar que eu me envolvi em algo
ilícito”.
Lula falou também sobre a fase mais financeiramente
próspera de sua carreira política, quando, depois de ter deixado o governo, na
condição de ex-presidente faturou alto com palestras aqui e no exterior
patrocinadas por grandes empresas. Explicou que é comum ex-chefes de governo
serem contratados para transmitir suas experiências ao mundo. Quanto a
palestrar no exterior para levantar a bola de empreiteiras que para isso lhe
pagam regiamente, Lula tem a explicação que só os mal-intencionados se recusam
a aceitar: “As pessoas deveriam me agradecer. O papel de qualquer presidente é
vender os serviços do seu país. Essa é a coisa mais normal em um país”.
De fato, é muito louvável que um ex-presidente da
República se valha de seu prestígio para “vender” os serviços e produtos de
grandes empresas brasileiras aptas a competir no mercado internacional. Resta
definir quando essa benemerência se transforma em tráfico de influência.
“Nesse país”, porém, qualquer um que manifeste dúvidas em
relação à absoluta integridade moral do asceta de Garanhuns é insano ou
mal-intencionado."
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