Editorial, RBS - Investigar Moraes é obrigação


São estarrecedoras as mensagens em que Vorcaro pede para o ministro intervir junto ao diretor-geral da PF e ao PGR

Chegou a hora de um ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) ser pela primeira vez formalmente investigado no exercício do cargo. As novas revelações sobre a relação entre Alexandre de Moraes e o dono do Banco Master, Daniel Vorcaro, são de extrema gravidade. Tornam obrigatório que se apurem as suspeitas de interferência do ministro para frear as investigações sobre as fraudes do banco e o cerco a Vorcaro, hoje preso. Mensagens extraídas do celular do banqueiro divulgadas nesta terça-feira (1º) dão margem à conclusão de que Moraes informava o dono do Master sobre a preparação da Operação Compliance Zero. A situação do ministro se complica com a descoberta de que ele editou o contrato de R$ 130 milhões do banco com sua esposa, a advogada Viviane Barci de Moraes.

São indícios alarmantes demais para serem relativizados ou esquecidos com o passar do tempo. Integrantes do Supremo só podem ser investigados com a autorização do plenário. O corporativismo seria desmoralizador. A seriedade do momento exige que a Corte se mostre leal em primeiro lugar ao princípio da igualdade de todos os cidadãos perante a lei, base da ordem jurídica e da democracia. A Constituição prevê o rito. Que se cumpra, sob pena da definitiva perda da confiança da sociedade no STF, instituição que deve ser esteio da República. E investigar, deve-se ressaltar, não significa condenação prévia. Prevê ampla defesa, o que aliás Moraes poderia fazer com maior dignidade afastando-se do cargo.


A seriedade do momento exige que a Corte se mostre leal ao princípio da igualdade de todos os cidadãos perante a lei
São estarrecedoras as mensagens em que Vorcaro pede para o magistrado intervir junto ao diretor-geral da Polícia Federal (PF), Andrei Rodrigues, e ao procurador-geral da República, Paulo Gonet. Em outro momento dos diálogos, pergunta a Moraes se ele "acha que segunda já tenho que estar fora?", referindo-se à data em que acabou preso pela primeira vez, a noite de 17 de novembro de 2025, em Guarulhos, quando estava prestes a tomar um voo para Dubai, possivelmente em fuga.


Moraes e Vorcaro trocavam mensagens de visualização única, passadas após capturas de tela de textos escritos no aplicativo de notas do celular. Assim, os investigadores recuperaram apenas o que foi enviado pelo banqueiro. O estratagema é indício de que a conversa continha imoralidades, se não crimes, como advocacia administrativa por parte de Moraes. O ministro deve essa explicação aos brasileiros. 

Gonet e Rodrigues, da mesma forma, precisam se manifestar e esclarecer se receberam algum pedido de Moraes e, em caso de resposta positiva, como procederam. Gonet também teria a prerrogativa e até o dever de pedir a abertura de inquérito, mas as citações a ele no material coletado pela PF na investigação sob relatoria do ministro André Mendonça tornam a sua situação no caso confusa. Ainda na noite desta terça-feira, Gonet pediu a nulidade do relatório da PF.

O turbilhão de informações surgido nas últimas horas forma mais um capítulo revelador da teia de influências e de favorecimentos que Vorcaro teceu para se proteger, enquanto perpetrava a maior fraude financeira da história do país. Soube-se também nesta terça-feira, por reportagem da revista Piauí, que o banqueiro fez ao menos mais um repasse, até então desconhecido, de US$ 1,6 milhão para o filme Dark Horse, cinebiografia do ex-presidente Jair Bolsonaro. O senador e candidato à Presidência Flávio Bolsonaro é investigado no caso. O escândalo do Master atinge figurões de todos os poderes e matizes ideológicas. É preciso passar a limpo a conduta de todos os envolvidos, sem seletividade, e não admitir que essa abrangência ecumênica contribua para um acordão pela impunidade.


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