O PT emplacou a sua primeira grande vitória eleitoral brasileira no dia 15 de novembro, mesmo ano da promulgação da Constituição de 1988. Olívio Dutra derrotou o candidato do então Prefeito Alceu Collares, o Deputado Estadual Carlos Araújo, do PDT. Collares manobrou internamente para derrotar seu candidato, que ele detestava e integrava uma corrente ideológica interna mais à esquerda, neomarxista. Na época, eu exercia o comando da Secretaria Municipal da Fazenda, substituindo Dilma Roussef, justamente a mulher de Araújo, mas também assinava coluna diária no Correio do Povo.
A sucessão foi tumultuada.
No dia 1o de janeiro de 1989, eu me recusei a passar o cargo para o Secretário da Fazenda indicado pelo PT, no caso o economista João Verle, que anos mais tarde viria a ser o último prefeito da saga de 16 anos dos petistas na gestão da Prefeitura de Porto Alegre. Eu vinha encrencando com o arrogante grupo precursor de Verle e antes da posse, passei a função para meu Subsecretário.
Na transmissão de cargo de Prefeito, num palanque montado diante da Prefeitura, os fanáticos seguidores da seita petista hostilizaram com especial ênfase a nova mulher do Prefeito Alceu Collares, mas a Secretária da Educação Neusa Canabarro estava armada, era muito perigosa, mulher da fronteira, intimidou os adversários e escapou das agressões físicas. Um dos seus defensores foi o então president5e da Epatur, a Empresa Portoalegrense de Turismo, o jornalista Batista Filho, que esbofeteou um ativista petista que se aproximou demais da primeira-dama.
Eu voltei em seguida para a redação do Correio do Povo.
1989 foi o ano que no qual teve início uma torrente interminável de ações judiciais movidas pelos dirigentes, líderes e ativistas da esquerda, no caso PT, PCdoB e PSOL, tudo para me censurar, tirar meus empregos e renda, tomar meu patrimônio e me meter na cadeia.
É um calvário que começou no final do Século XX e segue Século XXI a dentro, sendo provável que dure até que eu morra, caso até lá o Partido dos Trabalhadores não seja proscrito como organização política de corte ideológico criminoso, o que é de verdade, como ficou provado nas gestões federais de Lula e Dilma Roussef, conforme julgamentos ocorridos nos âmbitos do Mensalão, da Lava Jato e no decorrer dos escabrosos escândalos do INSS e do Banco Master, estes na 3a. gestão de Lula da Silva.
Olívio Dutra assumiu a prefeitura na companhia de Tarso Genro como vice-prefeito, tudo num cenário de grande efervescência política, com muita gente achando que Porto Alegre tinha se transformado na Capital Vermelho, ou seja, que o comunismo começara por esta cidade do Rio Grande do Sul.
Com o conhecimento acumulado pela minha passagem pelo comando de duas Secretarias Municipais, no caso Desenvolvimento Econômico (conhecida como Smic ou Secretaria Municipal da Indústria e Comércio) e Fazenda, usei minha coluna diária no Correio do Povo para fustigar os erros crassos, políticos e de gestão, do novo governo de Porto Alegre. Usei e abusei do mantra que eu mesmo criei, segundo o qual a gestão de Olívio Dutra tinha se transformado na casa da sogra, onde quem mandava era o Genro. Também usei uma expressão que viria a viralizar mais tarde, a de que o PT cria dificuldades para vender facilidades.
Olívio não gostou das minhas críticas diárias.
Na época, ele e eu mantínhamos algum tipo de relação civilizada, mas isto não perdurou. Ele quis aplacar meu ânimo beligerante através de conversações e por isto me telefonou:
Olívio - Que tal almoçarmos no Naval ?
Eu conhecia o Naval de ouvir falar, sabia que Olívio gostava de ir ali para beber cachaça, mas no local, o Mercado Público, eu preferia o Treviso.
Resolvi ironizar o convite:
- Só se tu prometer não me envenenar durante o almoço.
E almoçamos.
Não deu em nada.
Continuei criticando duramente a nova gestão. O conjunto das minhas críticas e denúncias estão no meu livro "Herança Maldita - Os 16 Anos do PT em Porto Alegre".
O Prefeito Olívio Dutra voltou a me ligar, mas desta feita foi a última vez que fez isto:
- Mas, bah, não tínhamos acertado tudo durante nosso almoço.
Eu respondi que não:
- Eu apenas ouvi teus argumentos, mas não disse que concordava com eles e nem que iria levar livre o teu governo.
Logo em seguida, Olívio Dutra moveu uma série de três ações cíveis e criminais contra mim.
Perdeu todas.
Um dos seus Secretários, o do Meio Ambiente, Caio Lustosa, também moveu três ações judiciais contra mim.
Eu até exagerei numa das muitas críticas ao Secretário, porque levei tudo para o lado pessoal ao escrever de modo irônico no Correio do Povo:
- Não sei se devo chamar Caio Lustosa de Secretário do Meio Ambiente ou ama-seca dos seus três cães de passeio.
Eu me penitencio por isto. Caio Lustosa era um homem bem educado, mas estava do lado errado do rio.
Na audiência que tivemos no primeiro caso, o magistrado entendeu a insinuação que fiz sobre os cães de Caio Lustosa e quis que eu me incriminasse:
- O que o senhor quis dizer com isto ?
Eu fui ainda mais provocador ao responder:
- Quero perícia técnica.
Foi demais para o magistrado, que ordenou que meu advogado me calasse ou mandaria me prender ali mesmo.
Eu me calei.
Caio Lustosa perdeu todas as ações.
Anos mais tarde, os sucessores de Olívio Dutra, no caso os Prefeitos Tarso Genro e Raul Pont, também bateram às portas da Justiça para me enquadrar. Tarso moveu ação criminal e perdeu. No caso de Raul Pont, fizemos acordo nos autos e a ação foi arquivada.João Verle morreu no dia 7 de novembro de 2015, mas nunca buscou os tribunais para me confrontar. Verle, além de primeiro Secretário da Fzenda nas gestões petistas de Porto Alegre, foi eleito Vice-Prefeito quando do segundo mandato de Tarso Genro.
Meio século de guerra sem trégua
1989
1o ano do mandato do Prefeito Olívio Dutra, Porto Alegre
14ª Vara Cível
Olivio Dutra (então prefeito de Porto Alegre – PT)
Absolvido
18ª Vara Cível
Caio Lustosa (então Secretário Municipal do Meio Ambiente)
Absolvido
1991
3o ano do mandato do Prefeito Olívio Dutra, Porto Alegre
2ª Vara Criminal
Prefeito Olívio Dutra (então prefeito de Porto Alegre, PT)
Absolvido
2001
1o ano do 1o Mandato do Prefeito Tarso Genro, Porto Alegre, e 3o an do Mandato de Olívio Dutra no Governo do RS.
2ª Vara Cível de Caxias do Sul
Deputado Estadual Frei Sérgio Goergen (falecido, então PT)
Derrota
3o ano do Mandato do Prefeito João Verle, substituindo Tarso Genro, e 2o ano do 1o Mandato do Governo Lula
10° Vara Cível
Larri de Almeida e outros Diretores dos Correios no RS (Governo do PT)
Derrota
8ª Vara Cível – Porto Alegre
Interlig Propaganda e Marketing (Agência do Cpers, controlado pela esquerda)
Absolvido
2005
2o ano do 1o Mandato do Governo Lula
14° Vara Cível
André Luis Genro da Silva
Absolvido
2006
4o ano do 1o Mandato do Governo Lula
9º Vara Criminal
Autor: Sindicato dos Trabalhadores em Empresas de Telecomunicações do RS – SINTTEL/RS
Absolvido
16ª Vara Cível
Jeferson Miola
Derrota
9ª Vara Criminal, Porto Alegre
SINTTEL/RS – Sindicato dos Trabalhadores em Empresas de Telecomunicações do RS
Absolvido
14ª Vara Cível
André Luiz Genro, Chere da Defesa Civil de Porto Alegre, Prefeito Tarso Genro, PT
Absolvido
2007
1o ano do 2o Mandato do Governo Lula
Valter Luiz Cardeal de Souza (Presidente da Eletrobrás)
9ª Vara Criminal de Porto Alegre
2ª Câmara Criminal TJRS
Absolvido
2009
3o no do 2o Mandato do Governo Lula
Juizado Especial Cível – São Leopoldo, RS
Coronel da Brigada Militar Rodolfo Pacheco
Acordo
9ª Vara Criminal de Porto Alegre
Prefeito Raul Pont
Acordo
9ª Vara Criminal de Porto Alegre
Deputado Federal Elvino Bohn Gass
Acordo
9ª Vara Criminal
Valter Cardeal
Absolvido
2010
3o ano do 2o Mandato do Governo Lula
19ª Vara Cível de Porto Alegre
Magda Cunha – Brasília. Esposa do Secretário do Escritório da Representação do Governo do RS, Governo Yeda Crusius. suicidado em Brasília.
Faleceu no curso do processo
5ª Vara Cível de Canoas
Major da Brigada Militar Carlos Soares
Absolvido
Carlos da Cruz Soares
5ª Vara Cível de Canoas
Acordo
2015
4o ano do Mandato de Tarso Genro no Governo do RS e 1o ano do 1o Mandato do Governo Dilma Roussef
2ª Vara Cível
Joerson de Oliveira
Arquivada
2ª Vara Criminal
Manuela D’avila
Acordo
Vara Criminal de Capão da Canoa – RS
Rossana de Carli, médica
Desistência
1º Juizado Especial Criminal de Porto Alegre
Luciana Genro
Absolvido
2017
16ª Vara Cível
Kayane Rodrigues Horle, atriz
Derrota
2018
Vara Cível do Foro Regional da Tristeza, Porto Alegre
Deputado Jeferson Fernandes
Absolvido no 1º grau, 2026
Aguardando recurso em 04/05/2026
12° Comarca do Foro Central
Tarso Fernando Herz Genro, ex-Prefeito e ex-Governador do PT%
Absolvido
3º Juizado Especial Cível de Porto Alegre
Deputado Marlon Santos – Presidente da Assembleia do RS
Acordo
2° Câmara Criminal do TJ RS
Luciana Genro, PSOL
Absolvido
5° Vara Cível
Nádia Lúcia Fuhrmann, escritora
Derrota
8° Vara Criminal
Nádia Lúcia Fuhrmann
Arquivado
5° Vara Cível
Guilherme Ortiz
Acordo
9ª Vara Cível e 5º Juizado Especial Cível
Manuela D´avila
Absolvido
5º Juizado Especial Cível
Manuela D’avila
Arquivado
18ª Vara Cível de Brasilia
William Dib, presidente ANVISA
Derrota
5º Juizado Especial Cível
Manuela D´avila
Arquiv
2020
Tribunal de Justiça do RS
Tarso Genro
Vitória
2ª Vara Cível de Três de Maio – RS
Antonio Wunsch
Absolvido
45° Zona Eleitoral de Santo Ângelo
Coligação Compromisso com Santo Ângelo
Absolvido
2021
15ª Vara Cível
Leticia Sório Saraiva
Absolvido
10a. Vara Civel
Lourdes Helena Pacheco da Silva - Juiza de 1o grau do Foro Central de Porto Alegre
Em andamento processual na data de 9 de Junho de 2026
2022
Juizado Especial Cível de Gramado
Roberta Gil Merch
Absolvido
4° Juizado Especial Cível do Foro Central de Porto Alegre
Roberto Vinicius da Silva
Acordo
2024
2o ano do 3o Mandato do Governo Lula
15a. Vara Cível
Delegada da Polícia Civil do RS, Vanessa Pitrez
Acordo
2025
3o ano do 3o Mandato do Governo Lula
11ª Vara Criminal
Marcos Rovinski e Fernando Ubert Machado
Acordo
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CAPÍTULO
Minha luta
Políbio
Adolfo Braga
As
Origens, o Sangue de Colono e a Primeira Surra
Se você
me perguntar de onde sou, eu vou dizer sem pestanejar: sou um
"catarucho". Não me considero 100% catarinense e tampouco 100%
gaúcho, embora viva no Rio Grande do Sul há mais de quarenta anos e tenha
travado aqui as maiores batalhas da minha existência. Nasci em Jaraguá do Sul,
Santa Catarina. O "Adolfo" que carrego no nome veio do meu avô
materno, Adolfo Radtke, pai da minha mãe, que era filha de colonos alemães. Já
o "Políbio" era o meu avô paterno. Meu pai, para castigar o filho
mais velho por ter recebido esse nome singular, resolveu passar o fardo adiante.
E assim me tornei Políbio Adolfo Braga.
Cresci
numa Jaraguá do Sul de cinco mil habitantes, um lugar onde não existia uma
única calçada para contar história. Era tudo meio colônia, poeira e lama. Minha
família era muito pobre, e minha infância foi vivida perto de um campinho de
futebol de terra batida. Se hoje me chamam de brigão no jornalismo e na
política, a verdade é que sempre fui brigão. Todos os dias eu saía no soco com
alguém naquele campinho. Eu me achava o dono da bola; jogava no gol — era um
goleiro péssimo, diga-se de passagem —, mas quando a coisa não ia do meu jeito,
pegava a bola debaixo do braço e saía correndo enquanto os outros guris vinham
atrás para me dar um pau.
Achava-me
imbatível. Batia em todo mundo até o dia em que um guri me desafiou. Lembro-me
como se fosse hoje: olhei para ele com desdém e disse: "Não quero bater
em ti porque vou te quebrar todo". O garoto insistiu, fomos para a
briga e tomei uma surra histórica. Ali aprendi uma lição fundamental para o
restante da minha vida: eu também podia apanhar. Não deixei de brigar —
continuo brigando até hoje —, mas passei a brigar com muito mais cautela e
estratégia.
Comecei
a trabalhar cedo, aos 14 anos. Meu pai não tinha dinheiro para me comprar uma
bola de futebol decente, e quando pedi uma a ele, a resposta foi curta e
direta: "Vai trabalhar para comprar". Consegui meu primeiro
emprego numa fábrica de flores. Não me tirou pedaço nenhum; pelo contrário, foi
uma experiência excelente. O desfecho é que fui posto no olho da rua porque
bati na filha do dono. Eu tinha 14 anos,, e a guria foi me provocar justo onde
eu estava trabalhando. Não deu outra: dei-lhe uma surra e rodei.
O gosto
pela escrita também nasceu nessa época. Minha irmã ia se casar, eu gostava
demais dela e resolvi escrever um artigo em sua homenagem. Esse texto foi
publicado no Correio do Povo, um jornalzinho local de Jaraguá que existe
até hoje. No colégio, tirava ótimas notas em redação e já demonstrava essa
verve de responder no ato, sem levar desaforo para casa.
Terminado
o ginásio, os padres do colégio onde eu estudava me entregaram o diploma e me
expulsaram no mesmo dia. O motivo? No discurso de formatura, na condição de
orador da turma, desferi um ataque severo contra a conduta dos próprios padres.
Eles não tiveram como me negar o diploma, mas me mandaram embora. Foi ali, em
Jaraguá, que a primeira parte da minha vida se encerrou. Peguei minhas poucas
coisas e fui para Joinville estudar e trabalhar.
O Lider
Estudantil e a Mudança para o Rio
Cheguei
a Joinville para fazer o segundo ciclo. No começo, morei com um irmão e, mais
tarde, fui para uma pensão. Eu era bom de datilografia — aprendi a bater à
máquina com as freiras em Jaraguá —, peguei uma bicicleta emprestada e, em dois
dias, bater na porta de dezesseis empresas pedindo emprego. Fui contratado como
faturista na Malharia Arp, onde trabalhei por três anos. Na mesma época,
convidado por Augusto Sílvio Prodel — o único intelectual que Jaraguá do Sul já
produziu —, passei a colaborar com o jornal A Notícia.
Minha
fama de subversivo e articulador político consolidou-se em 1961, durante a
Campanha da Legalidade. Elegi-me presidente da União Joinvilense de Estudantes
Secundaristas. Aproximava-se a eleição para o governo de Santa Catarina: Celso
Ramos pelo PSD contra Irineu Bornhausen pela UDN. Como meu pai era ligado ao
PSD, o pessoal do partido me procurou com uma proposta: queriam que os
estudantes organizassem uma campanha forte em favor da criação de um ginásio
público em Joinville. Havia uma lei que mandava criar o colégio, mas os
governadores anteriores ignoravam. A pauta era perfeita para os estudantes e
servia aos interesses eleitorais de Celso Ramos. Eles me usaram, mas eu também
os usei.
Fizemos
um barulho enorme e Celso Ramos venceu a eleição. Logo após a posse, os mesmos
políticos que tinham me procurado me chamaram para uma conversa e disseram: "Ó,
agora você fica quieto porque nós já ganhamos a eleição". Respondi
imediatamente: "Não, agora eu quero o colégio público".
Ameaçaram falar com o meu pai, e eu desdenhei: "Pode falar até com a
minha mãe, não vou parar".
O
colégio particular de Joinville onde eu estudava me expulsou, pois a criação de
um colégio público criaria concorrência direta para eles. Pensaram que me
calariam, mas a resposta foi o oposto: elegi-me vice-presidente e
secretário-geral da União dos Estudantes de Toda Santa Catarina. Só saí de
Joinville no dia em que o governador Celso Ramos foi pessoalmente dobrar os
joelhos e colocar a pedra fundamental do ginásio público.
Em 1962,
fui eleito presidente da União Brasileira de Estudantes Secundaristas (UBES) e
mudei-me para o Rio de Janeiro. O presidente da União Nacional dos Estudantes
(UNE) na época era o jovem José Serra. Vivia ali a minha "segunda
vida": a de liderança estudantil de projeção nacional, imerso no
efervescente cenário político do governo João Goulart.
Eu me
alinhava ao que se chamava de "esquerda independente". Nunca fui
comunista de carteirinha, embora meu aliado natural nas lutas estudantis fosse
o PCB. Tinha urticária de movimentos ligados à Igreja Católica, como a Ação
Popular (AP) — católica comigo nunca teve e nunca terá passagem. Eu lutava
abertamente pelo restabelecimento e manutenção do estado democrático de
direito, pelas liberdades civis e de imprensa.
Tudo
mudou na madrugada de 31 de março para 1º de abril de 1964. Quando o golpe
militar se consumou, não pensei duas vezes: peguei um ônibus no Rio de Janeiro
e vim direto para o Rio Grande do Sul. Minha intenção era repetir o que
havíamos feito em 1961 na Legalidade: pegar em armas e resistir.
Mas a
realidade de 64 era abissalmente diferente de 61. Em 61, o governo Jânio
Quadros era conservador, enquanto em 64 o governo Jango era de esquerda e a
economia estava terrivelmente degradada. O mais importante: em 61, Leonel
Brizola era o governador do Rio Grande do Sul e comandava a Cadeia da
Legalidade a partir do Palácio Piratini; em 64, Brizola era apenas deputado
federal pela Guanabara e o governador gaúcho era seu arqui-inimigo, Ildo
Meneghetti. Não havia base institucional de apoio. A resistência armada
evaporou-se antes de começar.
As
Prisões na Ditadura e o Início da Carreira Jornalística
Sem
poder retornar a Santa Catarina, onde minha prisão já fora decretada, passei
dois anos clandestino em Porto Alegre. Fui abrigado por militantes de esquerda
em diversos aparelhos, inclusive na casa da Juventude Universitária Católica
(JUC 3), na descida da rua Mostardeiro. A Polícia do regime me procurava no
Brasil inteiro.
Em 1966,
finalmente me pegaram. Fui levado para Curitiba, onde passei seis meses
encarcerado. Aquela ainda era uma fase "romântica" da repressão: não
cheguei a apanhar. O carcereiro era um sujeito curioso que passava as noites
discutindo filosofia através das grades da cela.
Antes
das minhas prisões, eu já havia conhecido a Raquel. Ela era filha de um
estivador comunista, e nós dois compartilhávamos das mesmas ideias de esquerda
na juventude. Assim que saí da cadeia em Curitiba, fui procurá-la para saber se
continuava solteira. Em três meses estávamos casados. Digo sempre, em tom de
brincadeira, que depois que me casei nunca mais fui preso pela ditadura —
provavelmente achavam que um homem casado não causaria mais problemas.
Minha
última detenção no regime militar ocorreu por ocasião da tentativa de sequestro
do cônsul americano em Porto Alegre. Eu não tinha a menor participação naquele
plano terrorista, mas os sujeitos que tentaram executar a ação moravam na mesma
casa que eu. Quando eles quiseram me contar o que pretendiam fazer, cortei na
hora: "Não me contem nada, porque não concordo com essa ação e, se me
levarem para o pau de arara e me torturarem, eu vou contar tudo! Eu não resisto
à tortura!".
Quando a
polícia estourou o lugar, fui parar na prisão como o primeiro da lista. Ninguém
acreditava que eu morava com eles e não sabia dos detalhes. Quem me tirou do
calabouço foi o jornalista Alberto André. Ele liderou uma comitiva da
Associação Riograndense de Imprensa (ARI) até o gabinete do Secretário de
Segurança Pública, o general Jaime Mariath, e exigiu minha libertação. O
general olhou para mim e disse: "Olha, o dr. Alberto André e esses
jornalistas estão pedindo para soltar o senhor. Vou soltar, mas eles estão
assumindo total responsabilidade pelo que o senhor fizer daqui para frente. Se
for preso de novo, trago todos eles para a cadeia junto com o senhor".
Paralelamente
a esses sobressaltos políticos, minha carreira no jornalismo profissional dava
os primeiros passos acidentados. Em Florianópolis, passei a escrever para o Diário
da Tarde, de propriedade do deputado Osmar Cunha. Era um jornalzinho
modesto.. Eu carregava o chumbo de carrinho de mão pela rua Felipe Schmidt em
direção às máquinas.
Certo
dia, um terrível acidente tirou a vida dos três únicos jornalistas que
compunham a redação. Fiquei absolutamente sozinho. O deputado, que estava em
Brasília — e vir de Brasília naquela época demorava o equivalente a vir da
China —, ligou desesperado dizendo que eu tinha de assumir a chefia do jornal.
Eu não sabia nada daquilo, mas assumi junto com um colunista social.
Minha
estreia na chefia foi catastrófica: escrevi um artigo demolidor atacando o
comandante do 14º Batalhão de Caçadores. Minha carreira em Florianópolis durou
exatas 24 horas. Tive de me esconder numa praia isolada até o deputado voltar
de Brasília e me demitir sumariamente no momento em que pisou na cidade.
Cheguei
a Porto Alegre disposto a trabalhar em redação, mas precisava me esconder dos
órgãos de repressão. Fui contratado pela Zero Hora sob o pseudônimo de
Adolfo Braga. Para disfarçar a fisionomia, passei a usar um óculos de grau sem
precisar e deixei crescer um bigodinho. O pesadelo é que o meu chefe de redação
era o delegado de polícia Waldir Pacheco — um homem do regime que trabalhava
com uma metralhadora em cima da mesa. Na redação trabalhavam nomes brilhantes
como Tarso de Castro, Marcos Faermann e João Souza. Mas olhando para aquela
metralhadora diariamente, pensei: "Daqui a pouco esse cara descobre
quem eu sou e me dá um tiro".
O
jornalista Hélio Gama, que tinha conseguido uma vaga na Rádio Gaúcha, foi
chamado no mesmo dia para integrar a equipe fundadora da revista Veja.
Ele preferiu ir para São Paulo e me ofereceu sua vaga na Gaúcha. Aceitei na
hora. Fiquei bem longe da metralhadora do delegado. Meu chefe direto era
Dilamar Machado, homem de esquerda do PTB.
Logo na
primeira noite na rádio, o chefe do Dilamar, Ivan Castro, me ligou às dez da
noite dando ordens sobre uma notícia. Respondi de pronto: "Não vou
fazer coisa nenhuma! Meu chefe é o Dilamar!". Ele esbravejou que era o
diretor e que ia me botar na rua, e eu rebati: "Bota nada!".
Eu nem sabia quem ele era. Essa foi a tônica da minha vida nas redações: entrei
e saí da Rádio Gaúcha cinco vezes; da Zero Hora, seis vezes; do Correio
do Povo, umas dez vezes; da TV Piratini e da Band, outras tantas. Sempre
brigado, ou porque pediam a minha cabeça, ou porque eu mandava os donos às
favas.
O
Bastidor do Poder, Brizola, Collares e a Ruptura
Se há
algo que aprendi ao longo de décadas circulando nos bastidores da política e da
imprensa é que o jornalismo tradicional brasileira vive numa simbiose hipócrita
com o poder. Ao longo da minha carreira, atuei como jornalista e como agente
político. Transitei entre redações e gabinetes governamentais. Cheguei a ser
consultor jurídico do Banerj no Rio de Janeiro, nomeado por Leonel Brizola.
Mais tarde, assumi a chefia da Casa Civil no governo estadual de Alceu Collares
(PDT).
Collares
era um mestre na arte da desfaçatez política. Numa determinada manhã, ele me
chamou ao seu gabinete no Palácio Piratini, tirou um papel da gaveta e disse
que havia recebido um "dossiê anônimo" com denúncias contra mim.
Queria que eu investigasse o caso. Olhei bem para a cara dele, peguei o
documento e disse de chapa: "Não vou tocar nisso aí. Eu conheço o teu
jogo, Collares. Sei perfeitamente que foi você quem mandou a P-2 da Brigada
Militar armar esse dossiê contra mim. Estou me demitindo do cargo agora. Vou
sair desta sala e vou te denunciar para a imprensa".
Ele se
levantou furioso: "Eu sou o governador e você me respeita!".
Retruquei na mesma moeda: "Desde quando vou te respeitar? Você não se
dá ao respeito!". Saí do gabinete, chamei os repórteres no corredor do
Piratini e escancarei a manobra. As acusações do tal dossiê eram ridículas:
diziam que eu tinha concedido uma passagem de ônibus para o presidente da
Fracab ir a um congresso no Rio de Janeiro e que tinha feito um churrasco de
aniversário num clube da Brigada Militar com verba pública. Tudo armação barata
da P-2.
Collares
já tinha feito exatamente a mesma canalhice com outros companheiros do PDT:
armou dossiês falsos contra Milton Zuanazzi na CRT, contra Leonid Streliaev na
TVE, contra o professor Eduardo Dutra Aydos na Fundação de Recursos Humanos,
contra Aldo Pinto na Secretaria da Agricultura e contra Newton Alves na Cohab.
O modus operandi era sempre o mesmo: ele fabricava a acusação via
serviço de inteligência e espalhava notinhas caluniosas nos jornais através de
jornalistas chapa-branca que se prestavam ao serviço de recusa do governo de
plantão.
Durante
os anos em que fui editor da página mais importante da Zero Hora, o Informe
Especial, vivenciei na pele o cinismo das grandes empresas de comunicação.
Eu apurava, redigia e entregava a página pronta ao diretor-editor Lauro
Schirmer. No dia seguinte, abria o jornal e via que metade das notas que eu
tinha escrito havia sido cortada e, no lugar delas, constavam notas que eu
jamais escrevera, defendendo posições diametralmente opostas ao meu pensamento.
Quando
ia reclamar com a direção, a resposta era descarada: "Mas Políbio, é
assim mesmo. A coluna não é assinada, você é apenas um dos redatores e essa é a
linha editorial do jornal". Eu esbravejava: "Como redator? Eu
sou o editor da página!". Cortavam notas contra empresas que
anunciavam no jornal e proibiam ataques a políticos estimação da direção. Na
RBS, o jornalista tinha de adivinhar o rumo do vento para não pisar nos calos
dos patrocinadores e dos aliados do poder.
Ainda
nos tempos de Maurício Sirotsky Sobrinho, houve uma convenção de editores em
Santa Maria. Foi criada uma comissão para unificar a linguagem de todos os
veículos do grupo, composta por mim, Carlos Bastos, Lauro Schirmer e Roberto
Appel. Fiquei como relator. Após quatro horas de debates estéreis que não
chegavam a lugar algum, peguei o papel e redigi um relatório definitivo, de
apenas duas linhas:
"A linha editorial dos diversos veículos da RBS será
estabelecida diariamente no início da manhã, numa reunião entre o editor-chefe
de Zero Hora e o proprietário, senhor Maurício Sirotsky Sobrinho. Ponto.
Acabou."
O
relatório foi aprovado por unanimidade. E digo sem nenhum pudor: essa é a
gênese real da linha editorial de absolutamente todos os grandes veículos de
comunicação do Brasil. O resto é conversa para boi dormir.
A Ilusão
da Esquerda e o Surgimento do Petismo
Muita
gente me pergunta como um homem que passou a juventude na esquerda, combatendo
a ditadura e sofrendo prisões, tornou-se um dos mais ferrenhos opositores da
esquerda e do Partido dos Trabalhadores. A resposta é simples: até os meus
quarenta anos, eu acreditava genuinamente que a esquerda lutava por liberdade,
por pluralismo e pelo restabelecimento do Estado Democrático de Direito.
ILUSÃO.
A minha
grande decepção não foi uma mudança repentina de valores individuais, mas a
constatação fática de que a esquerda brasileira carrega em seu DNA um viés
autoritário, incapaz de conviver com o contraditório e com a imprensa livre.
Quando combatíamos o regime militar, eu estava ao lado da esquerda não-armada
defendendo a liberdade de expressão. Pensei que eles queriam o mesmo. Tolo
engano. Na verdade, eles não queriam destruir a ditadura para instalar a
democracia; queriam derrubar a ditadura militar para colocar no lugar uma
ditadura de esquerda. Eu não queria ditadura nenhuma.
A
história do Brasil nos mostra que governos de centro ou de esquerda tradicional
do passado não agiam com o fel e o aparelhamento destrutivo que o PT introduziu
no País. Getúlio e Jango enfrentaram oposições ferozes de jornais e rádios, mas
jamais orquestraram uma patrulha sistemática para estrangular financeiramente
veículos ou cassar o sustento de jornalistas. Eles não cortavam publicidade
oficial de jornais para exigir a demissão de críticos, não usavam a polícia
para intimidar repórteres nem acionavam a máquina do Judiciário em bloco para
falir profissionais.
O PT,
não. O PT transformou a gestão pública num trator de perseguição ideológica. E
tudo isso não começou em Brasília com o governo Lula em 2003; começou muito
antes, no dia 1º de janeiro de 1989, quando Olívio Dutra assumiu a Prefeitura
de Porto Alegre.
Porto
Alegre e o Rio Grande do Sul foram os laboratórios onde o PT testou a
engenharia do autoritarismo e da censura oblíqua que mais tarde tentaria
implantar no Brasil inteiro. As propostas de "controle social da
mídia" e o natimorto "Conselho Nacional de Jornalismo", tentados
pelo governo Lula no plano federal, nada mais foram do que a cópia amarelada
daquilo que nós, jornalistas gaúchos, já havíamos enfrentado e combatido nos
anos 1990 em Porto Alegre e no Palácio Piratini.
Quem
estudou a história do comunismo — como eu estudei —, quem leu as biografias de
Stalin e examinou as entranhas dos regimes totalitários na União Soviética, em
Cuba ou na China (países que visitei diversas vezes), reconhece o figurino de
imediato. Nesses países não existe imprensa livre; os jornalistas são reles
funcionários do Estado e do Partido Único, e a informação é totalmente
tutelada.
Quando
vejo dirigentes petistas reclamando de suposta perseguição da mídia, sou
obrigado a rir para não chorar. O que a esquerda realmente quer não é uma
imprensa justa; quer uma imprensa totalmente amordaçada e curvada aos seus
projetos de poder.
O Cerco
e o Laboratório Petista em Porto Alegre (1989–1998)
A minha
guerra contra o aparelhamento petista começou no primeiro mês da administração
de Olívio Dutra na Prefeitura de Porto Alegre, em 1989. O governo municipal
resolveu intervir brutalmente nas empresas de transporte coletivo da capital.
Fiz críticas duríssimas àquela medida truculenta na minha coluna no Correio
do Povo. A resposta do prefeito Olívio foi imediata: moveu uma ação
judicial cível contra mim baseada na antiga Lei de Imprensa.
Antes de
mover o processo, Olívio tentou me amansar. Convidou-me para um almoço no
restaurante Treviso, no Mercado Público. Quando ele me ligou fazendo o convite,
respondi no meu estilo meio brincalhão, meio sério: "Só aceito se tu te
comprometeres a não me envenenar durante o almoço!". Tivemos uma
conversa socialmente agradável — Olívio é um sujeito de trato pessoal afável
quando fala de assuntos irrelevantes —, mas na política era implacável. O
processo dele contra mim acabou caindo por um erro crasso do advogado dele, o
doutor Marco Túlio de Rose, e nem chegou a ser julgado no mérito.
Logo em
seguida, o Secretário do Meio Ambiente de Porto Alegre, Caio Lustosa, me
processou duas vezes consecutivas pela Lei de Imprensa por causa de notas
críticas que publiquei. Na primeira, cometeu erro processual; na segunda, fui
levado a julgamento e absolvido. Quando me preparei para voltar à carga contra
a secretaria, a direção do Correio do Povo, amedrontada com o contexto
político, censurou minhas notas dizendo que "já era demais".
A
máquina de comunicação da Prefeitura de Porto Alegre foi transformada numa
monstruosa engrenagem de propaganda e patrulhamento. Durante as quatro gestões
petistas na capital (1989–2004), a Coordenação de Comunicação Social virou um
feudo com mais de 110 profissionais, entre servidores, cargos em comissão e
estagiários. Nomes como Félix Valente, Vera Spolidoro, Ilza do Canto e Ayrton
Kanitz revezavam-se no comando desse aparelho.
No
último ano do governo João Verle, a verba publicitária da prefeitura atingia o
equivalente a mais de R$ 8 milhões de reais em valores atualizados. Esse
dinheiro irrigava agências companheiras como era torrado na produção de
um único programete semanal de rádio e TV, o "Cidade Viva", produzido
sucessivamente pela Cooperativa de Vídeo, Eixo Z, Radioativa e Competence. Era
a utilização da máquina pública para construir uma hegemonia cultural e sufocar
as vozes dissonantes.
Enquanto
os grandes veículos de comunicação do centro do País — e parte da mídia
paulista — fechavam os olhos ou aplaudiam o "modelo de Porto Alegre",
nós, um pequeno grupo de jornalistas gaúchos, fazíamos o enfrentamento diário
por nossa conta e risco. A maioria da imprensa tradicional gaúcha e das
lideranças empresariais capitulou ou preferiu se omitir diante dos abusos,
deixando a defesa da liberdade de expressão nas mãos de poucos profissionais
que recusavam o cabresto.
O
Terrorismo de Estado no Governo Olívio Dutra (1999–2002)
Se a
experiência na Prefeitura foi o laboratório, a chegada de Olívio Dutra ao
Governo do Estado do Rio Grande do Sul, em 1999, representou a deflagração de
uma guerra aberta contra a imprensa independente. O homem forte da comunicação
do Palácio Piratini era o jornalista Guaracy Cunha, que se tornou o czar
absoluto da área. Ele não apenas patrulhava o conteúdo dos jornalistas gaúchos,
mas utilizava a verba publicitária do Estado como chibata para premiar os
submissos e punir exemplarmente os críticos.
Como
minha relação com o PT já era de hostilidade declarada desde 1989, a minha
recepção no governo estadual foi a inclusão imediata do meu nome num verdadeiro
Index da Secretaria de Comunicação do Governo. A inclusão nesse Index
trazia consequências dramáticas para o meu trabalho diário:
- Fui proibido de receber qualquer release
ou informação oficial de todas as secretarias e órgãos do governo
estadual.
- Tive o acesso cortado a qualquer autoridade
do Estado. Não adiantava solicitar entrevistas com secretários, diretores
de autarquias ou com o governador: a porta estava trancada.
- Fui sumariamente banido da lista de
convidados para todos os atos oficiais e não-oficiais. Solenidades,
coletivas de imprensa, cafés da manhã ou almoços de trabalho: eu era
considerado persona non grata.
Durante
os quatro longos anos do Governo Olívio Dutra, não pisei no Palácio Piratini e
nem em nenhuma repartição pública estadual. A única exceção ocorreu quando fui
intimado a prestar depoimento numa Delegacia de Polícia da Polícia Civil, na
condição de investigado.
O motivo
da intimação? Escrevi uma nota denunciando perseguições políticas no Banrisul.
Os diretores petistas do banco, irritados, acionaram o Ministério Público
Estadual para forçar a Polícia a arrancar o nome da minha fonte. Compareci à
delegacia constrangido. O delegado, de forma muito cortês, me disse: "Olha,
Políbio, estou constrangido de te perguntar isso, mas recebi o pedido do
Ministério Público e sou obrigado a cumprir".
Olhei
para o delegado e respondi firmemente: "O senhor nem poderia me fazer
essa pergunta. A Constituição Federal me garante categoricamente o direito ao
sigilo da fonte". Ele insistiu que era sua obrigação formal perguntar,
e eu, obviamente, não abri o sigilo. Não abro sigilo de fonte em hipótese
alguma. (Nesse mesmo período conturbado, a Polícia Federal também me intimou a
prestar depoimento para tentar me arrancar a fonte de uma reportagem que fiz
sobre esquemas nos Correios, e mantive a mesma postura inabalável).
Mas a
perseguição policial e governamental do PT não parou por aí. Guaracy Cunha e a
cúpula do Piratini foram diretamente aos veículos de comunicação onde eu
trabalhava para exigir a minha cabeça. Foram à direção da Rádio Bandeirantes e
da Gazeta Mercantil e aplicaram uma chantagem financeira sórdida:
cortaram 100% da publicidade estatal nesses dois veículos e condicionaram o
retorno dos anúncios à minha imediata demissão.
Resultado:
fui demitido simultaneamente e sucessivamente da Gazeta Mercantil e da
Rádio Bandeirantes por pressão direta do Palácio Piratini. O mesmo terrorismo
econômico foi praticado contra o Novo Jornal, de Caxias do Sul, para
onde eu escrevia. O Governo Olívio asfixiou o jornal cortando todas as verbas
publicitárias até obrigar o veículo a fechar as portas definitivamente.
A tática
petista era a destruição total do indivíduo. O governo fez comigo tudo o que
estava ao alcance da máquina estatal:
- Cortou minhas fontes de suprimento de
informação;
- Cassou meus empregos no rádio e na imprensa
escrita;
- Intimou-me em delegacias policiais;
- Moveu dezenas de processos judiciais cíveis
e criminais para tentar me colocar na cadeia e tomar o meu patrimônio
familiar através de indenizações pesadas.
A única
coisa que faltou Olívio Dutra fazer comigo foi mandar me matar ou me trancar
fisicamente numa cela, porque o resto ele tentou de tudo. E essa crueldade não
foi aplicada só contra mim; estendeu-se a duas dezenas de profissionais
corajosos, como Érico Valduga, Hélio Gama, Diego Casagrande, Gilberto Simões
Pires e José Barrionuevo.
No final
do governo Olívio, a situação de sufocamento financeiro e profissional era tão
desesperadora que eu costumava dizer, com meu humor ácido, que só não pedi
socorro à Associação Protetora dos Animais porque o Movimento de Justiça e
Direitos Humanos do Rio Grande do Sul, liderado por Jair Krischke, acudiu a mim
e aos colegas a tempo, dando-nos suporte moral e institucional para manter a
dignidade.
O
Desagravo na OAB e a Estratégia dos Processos em Massa
No dia
10 de dezembro de 2000, às 20 horas, vivi um dos momentos mais emblemáticos
dessa resistência. O auditório da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) do Rio
Grande do Sul estava lotado por um público apreensivo e nervoso. Havia um clima
de tensão palpável no ar, agravado pelo fato de o então presidente da OAB
gaúcha, Nelson Batista, ter se recusado a compor a mesa e a ceder formalmente a
casa, decidindo, na prática, agravar ainda mais os jornalistas perseguidos.
Com
vinte minutos de atraso, Jair Krischke abriu os trabalhos da sessão de
desagravo público aos doze jornalistas perseguidos pelo Governo Olívio Dutra.
Cada um de nós — eu, Érico Valduga, Hélio Gama, Diego Casagrande, Gilberto
Simões Pires, José Barrionuevo e outros companheiros de luta — recebeu uma
pomba de acrílico transparente, uma obra de arte belíssima concebida pelas mãos
do artista plástico uruguaio Mario Cladera.
Aquele
ato não era apenas uma cerimônia simbólica; era o grito de socorro de uma
imprensa acossada pela sombra do autoritarismo estatal. Muitos outros
profissionais do interior e da capital pagaram preços altíssimos, no anonimato,
por acreditarem que podiam criticar o PT com a mesma liberdade com que
criticavam qualquer outro governo democrático.
Derrotado
nas urnas e desmascarado publicamente, o petismo mudou de tática nos anos
seguintes: passou a utilizar a metralhadora de processos judiciais coordenados.
Entre 2005 e 2006, fui vítima de um verdadeiro cerco jurídico orquestrado. A
cada dois meses, brotava uma nova ação judicial contra mim. Cheguei a responder
a 19 processos simultâneos!
A
orquestração era evidente: os advogados das partes eram os mesmos, e os autores
eram sempre figuras do PT, parlamentares ou entidades sindicais aparelhadas.
- Tive processos movidos pelo deputado Frei
Sérgio Göergen (PT) — caso em que me baseei numa fonte que se provou
falsa, admiti o erro, mas fui condenado nas duas instâncias a indenização
e pena de prisão, convertida por ser primário;
- Fui processado por quatro diretores
petistas do Banrisul;
- Duas ações movidas pela organização do
Fórum Social Mundial (fui absolvido no crime e condenado no cível);
- Processos movidos pelo CPERS, pela agência
de publicidade Intelig, pelo Sinttel (Sindicato dos Telefônicos) e por
cinco diretores dos Correios do RS;
- Recebi e-mails com ameaças veladas de
processos vindas de Eliezer Pacheco (marido da deputada Maria do Rosário)
e do ex-procurador-geral do município, Rogério Favretto, ambos instalados
em cargos poderosos no Palácio do Planalto durante o governo Lula.
Diante
dessa avalanche, tomei uma decisão radical que mudou minha vida: demiti meus
advogados e passei a fazer a minha própria defesa em juízo. Como sou formado em
Direito, percebi que os advogados que eu contratava estavam perdendo uma causa
atrás da outra. Pensei comigo: "Se é para perder e ir para a cadeia,
que seja comigo me defendendo! Pelo menos economizo dinheiro e não perco
tempo". Assumi a minha defesa e o resultado foi surpreendente: passei
a ganhar a esmagadora maioria das ações, somando absolvições sucessivas na
primeira e na segunda instâncias.
A
Reinvenção na Internet e a Criação do Portal
Quando o
PT conseguiu me varrer simultaneamente da Gazeta Mercantil e da Rádio
Bandeirantes, vi-me num momento de profundo isolamento profissional. Olhei para
o mapa dos veículos de comunicação de Porto Alegre e perguntei a mim mesmo: "Para
onde posso ir agora?".
A RBS
não me contrataria nem com banda de música; a Caldas Júnior não me queria nem
pintado de ouro; a Band fechara as portas. Os donos de jornais sabiam que, se
me colocassem para dentro da redação, eu criaria uma confusão dos diabos em
menos de 24 horas. Cheguei a considerar seriamente a hipótese de abandonar o
jornalismo e me dedicar exclusivamente à advocacia.
Mas eu
sou um homem ativo. Não tenho espaço para vitimismo na minha vida. Pode me
acontecer a pior desgraça do mundo que eu não vou me deitar no chão para chorar
ou achar que estou liquidado. Eu sempre caminho para a frente. E foi no meio
desse cerco sufocante que enxerguei a luz de uma revolução tecnológica que
estava apenas começando: a internet.
Minha
história com a rede vem de longe. Quando surgiu o Via-RS — o primeiro provedor
de internet do Rio Grande do Sul, há mais de uma década —, eu fui o primeiro
jornalista gaúcho a assinar e manter uma coluna diária na internet. Se um dia
alguém se der ao trabalho de escrever a história do jornalismo digital neste
País, vai ter de encontrar o meu nome na gênese.
Anos
mais tarde, quando eu ainda estava na Rádio Bandeirantes, o diretor Bira Valdez
sugeriu que eu criasse um site para a emissora abrigar a minha coluna. Criei o
projeto do zero. A coluna na página da Band começou a dar um retorno
espetacular. Um dia, um leitor ligou para a rádio e perguntou: "Por que
o Políbio não cria um sistema de assinatura para mandar essa coluna por
e-mail?". Eu nem sabia como funcionava aquilo. Fui pesquisar, descobri
a ferramenta do e-mail em massa e lancei a ideia. A resposta dos leitores
superou todas as expectativas.
Quando
rompi com a Bandeirantes — após o Bira Valdez passar a me assediar moralmente
no ar para agradar ao governo Olívio que cortara as verbas da rádio —, levantei
da mesa no meio do programa ao vivo, peguei meu casaco e minha pasta e nunca
mais voltei. Quando vieram me oferecer o acerto financeiro, mandei uma resposta
fulminante: "Peguem esse dinheiro e mandem para uma ONG de caridade
ligada ao PT! Não quero esse dinheiro sujo do Palácio Piratini!".
Levei a rádio para a Justiça do Trabalho e arranquei uma bolada.
Livre
das amarras de patrões e de governos, fundei o meu próprio veículo: o site [www.polibiobraga.com](https://www.polibiobraga.com).br.
A
internet me deu o que a grande mídia sempre me negou: LIBERDADE ABSOLUTA. Se
antes as minhas denúncias eram limadas pelos diretores e editores medrosos dos
jornais, agora o dono do negócio era eu mesmo. Lancei a minha newsletter
diária, que atingiu a marca impressionante de mais de 90 mil assinantes
diretos. Passei a publicar absolutamente tudo o que apurava. O volume e a
gravidade das denúncias contra os desmandos do PT cresceram em progressão
geométrica. Afinal, durante o governo Olívio, o que acontecia no Rio Grande do
Sul era coisa para se escrever um livro por dia.
Ironicamente,
a perseguição e o ódio do PT foram os melhores combustíveis para a minha
carreira. Todas as vezes que eles conseguiram me colocar na rua de um veículo,
fui para outro, ganhando o dobro; quando me fecharam as portas da imprensa
tradicional, fui para a internet e construí minha independência financeira e
editorial. Costumo dizer: se o PT ficasse mais vinte anos no poder me
perseguindo, eu acabaria virando milionário! Eles me obrigaram a me reinventar.
Métodos
de Trabalho, Ideologia e o Futuro
Hoje,
olho para a minha mesa de trabalho abarrotada de documentos, relatórios e
livros densos. Não consigo escrever uma única linha sobre qualquer assunto sem
antes investigar a gênese, a origem histórica daquilo. Quantas vezes perdi a
chance de dar um "furo" jornalístico apressado só porque me recusei a
publicar antes de compreender profundamente a raiz do problema?
Defino
meu estilo de trabalho com clareza: sou um jornalista minucioso, trabalhador,
brigão e profundamente indignado com a degradação ética do Brasil. Vivo
intensamente ao lado da minha esposa Raquel e acompanho com orgulho a
trajetória dos meus dois filhos, Frederico e Pedro Mariano. Continuo escrevendo
diariamente para o meu portal e assinando minha coluna no jornal O Sul,
do grupo Pampa, onde encontrei espaço para trabalhar sem as amarras cínicas do
passado.
Minha
rotina de autopublicação no site hoje passa por um filtro curioso: escrevo
absolutamente tudo o que quero, do jeito mais incisivo e visceral possível.
Depois, sento na cadeira do editor, leio o meu próprio texto e começo a cortar
os excessos. Aprendi a me autocensurar para não dar munição fácil aos canalhas,
mas sem jamais perder a contundência.
Politicamente,
não tenho pudor em dizer: dentro das categorias vigentes, sou um homem de
direita. Minha bronca com o PT ultrapassou a esfera política tradicional e
virou uma questão quase psiquiátrica: eles são ressentidos comigo e eu sou
visceralmente ressentido com eles. Cheirou a militante ou dirigente petista
perto de mim, a briga está formada no ato.
Assistimos
no Brasil a uma degradação moral, ética e institucional sem precedentes. O
cidadão de bem está encurralado pela impunidade, pela violência e pelo mal
exemplo que vem de cima. Como dizia o Cardeal de Retz: "Quando os de
cima se desmoralizam, os de baixo perdem o respeito". As elites
políticas que governam o Brasil atual são as piores que já vi em toda a minha
vida.
O
brasileiro está exausto da inversão de valores, de bandido protegido e de
discurso politicamente correto. Acredito firmemente na lei, na ordem e no
cumprimento rigoroso das regras. Elas são para todos.
Sou um
sobrevivente das prisões da ditadura militar e do terrorismo econômico-judicial
das ditaduras disfarçadas da esquerda. Nunca me vergaram. Continuo aqui, no meu
escritório, de pé, firme, com a caneta e o teclado afiados, sempre pronto
para a próxima briga. Porque enquanto houver alguém querendo amordaçar a
verdade, atentando contra a liberdade de expressão, eu não vou me calar.
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