Artigo, Tito Guarniere - Distribuir renda, sim, mas a dos outros

Artigo, Tito Guarniere - Distribuir renda, sim, mas a dos outros

O debate sobre a concentração de renda, no Brasil e no mundo, está sempre em alta temperatura. Há teoria para todos os gostos. Eu mesmo tenho enunciado que com Lula e Dilma, ao contrário do que dizem e até do que era de se esperar de um partido que se diz de esquerda, o perfil de distribuição de renda no Brasil não melhorou em nada.  Não é figura de linguagem nem exagero.  Ficou igual ao que existia em 2003 quando o PT assumiu. Se houve um ligeiro avanço na renda dos mais pobres, foi compensado por igual avanço em favor das camadas mais favorecidas.
Os processos de concentração de renda são denunciados, nos meios acadêmicos e de esquerda, como um efeito colateral e necessário do capitalismo.  Eles têm razão.  O capitalismo é o sistema econômico dos desiguais. Está no seu cerne e na sua natureza.
Não é à toa que o socialismo atrai tantas vontades generosas. Não seria mais habitável um mundo em que não houvesse tantas diferenças entre as classes, entre pobres ou ricos, e onde todos pudessem desfrutar de uma situação de vida decente e confortável?
O problema está em que (quase) todos que propugnam em favor de uma distribuição mais justa da renda nacional, só querem distribuir a renda dos outros.
É suprema ingenuidade achar que uma sociedade mais igualitária possa ser alcançada através de medidas administrativas ou políticas públicas. A discussão prospera até que alguém diga:   muito bem, companheiros; precisamos distribuir melhor a renda e a riqueza. Alguém tem de ganhar: os mais pobres. E alguém tem de perder, os mais ricos. E de que modo podemos tirar a parte dos mais ricos, mexer no seu rico dinheirinho?
Aí, não é que a discussão apenas patine. Ela simplesmente congela. Porque os detentores da maior parcela de renda e da riqueza, não têm a menor disposição de perder os anéis e muito menos os dedos. Querem a prova provada? Olhem a atual polêmica sobre a previdência no Brasil. Todos sabem que está quebrada, ou em vias de quebrar, até mesmo os maluquetes que dizem se tratar de uma conspiração do governo de Temer, aliados aos patrões e banqueiros. Ou os que fazem uma conta torta e falaciosa das projeções possíveis da previdência brasileira, dizendo que ela não precisa de reforma.
O fato singelo, que ninguém gosta de admitir, é que a concentração de renda mais injusta e desigual, é a da previdência dos servidores públicos, face à previdência dos trabalhadores privados. No agressivo corporativismo brasileiro, ninguém abre mão de um único milímetro de suas “conquistas”, de seus “direitos adquiridos”. O Brasil gasta com um milhão de aposentadorias do setor público mais do que gasta com 33 milhões de aposentadorias do setor privado.
E como fazer, se os defensores de uma distribuição mais justa da renda nacional, são também os mais ferrenhos defensores dos seus direitos, agora mais do que adquiridos, sagrados e intocáveis?
Ao menos no Brasil, a mais iniqua das concentrações de renda   não tem a mão invisível do mercado, mas a mão visível dos tecnoburocratas do Estado, e dos altos estamentos da República. 

titoguarniere@terra.com.br

Viva Marighella! Viva a morte!

Viva Marighella! Viva a morte! - MARCO ANTONIO VILLA
O GLOBO - 13/02

Em seu manual, ele faz questão de explicar didaticamente como deve ser cometido um assassinato

Desde os anos 1980 consolidou-se como verdade absoluta que a luta armada conduziu o Brasil à redemocratização. Isto é reproduzido nos livros didáticos e repetido ad nauseam no debate político. Questionar esta versão falaciosa da História é tarefa fundamental no processo de construção da democracia no nosso país. E, em momento algum, deve representar qualquer tipo de elogio à bárbara repressão efetuada pelo regime militar, especialmente nos anos 1968-1976. Ou seja, o terrorista e o torturador são faces da mesma moeda. Com o agravante, no caso do torturador, de que sua ação foi realizada sob cobertura estatal.

Num país sem tradição democrática, os cultores do extremismo ganharam espaço — inclusive na reconstrução do passado. Hoje, torturadores são elogiados em pleno Congresso Nacional, como vimos na sessão da Câmara dos Deputados que autorizou o encaminhamento para o Senado do pedido de impeachment de Dilma Rousseff; assim como, no dia a dia, terroristas são homenageados nas denominações dos logradouros e edifícios públicos.

Carlos Marighella é um caso exemplar. Militante comunista desde a juventude, stalinista, acabou rompendo com o Partidão após os acontecimentos de 1964. Fundou a Ação Libertadora Nacional (ALN), um grupo terrorista, fortemente influenciado pelas teorias revolucionárias de Fidel Castro e, especialmente, Che Guevara. Foi a Cuba e estabeleceu uma aliança com a ditadura castrista. A ALN se notabilizou pelos impiedosos ataques terroristas e pelo assassinato até de militantes que desejavam abandonar a organização, como no caso do jovem Márcio Leite de Toledo.

Mesmo assim, na canhestra metamorfose tupiniquim, virou um lutador da liberdade. Agora também no cinema. O ator Wagner Moura está produzindo um filme — claro que com o apoio da Lei Rouanet — para glorificar, ainda mais, Marighella, apesar de a Constituição definir no artigo 5º, inciso XLIII, o terrorismo como crime inafiançável e insuscetível de graça ou anistia. Ou seja, o Estado brasileiro, através do Ministério da Cultura, está rasgando a Constituição ao conceder seu apoio financeiro a uma película que afronta um princípio tão caro da Carta Magna.

Carlos Marighella é autor do Manual do Guerrilheiro Urbano. O documento não pode ser considerado uma ode ao humanismo, muito pelo contrário. Logo no início, afirma que o terrorista “somente poderá sobreviver se está disposto a matar os policiais.” E que deve se dedicar “ao extermínio físico dos agentes da repressão.” O herói de Wagner Moura exemplifica várias vezes como matar policiais: “a grande desvantagem do policial montado é que se apresenta ao guerrilheiro urbano como dois alvos excelentes: o cavalo e o cavaleiro.” E continua, páginas depois: “as greves e as breves interrupções de trânsito podem oferecer uma excelente oportunidade para a preparação de emboscadas ou armadilhas cujo fim é o de destruição física da cruel e sanguinária polícia.” Marighella faz questão de explicar didaticamente como deve ser cometido um assassinato: “a execução pode ser realizada por um franco-atirador, paciente, sozinho e desconhecido, e operando absolutamente secreto e a sangue-frio.”

O fundador da ALN não tem pejo em se proclamar um terrorista: “o terrorismo é uma ação usualmente envolvendo a colocação de uma bomba ou uma bomba de fogo de grande poder destrutivo, o qual é capaz de influir perdas irreparáveis ao inimigo.” O democrata Marighella, ídolo de Wagner Moura, quer ficar distante dos defensores da “luta sem violência.” Diz ele — delirando — que não passam de manobras pedir “eleições, ‘redemocratização’ (as aspas são do terrorista), reformas constitucionais e outras bobagens desenhadas para confundir as massas e fazê-las parar a rebelião revolucionária nas cidades e nas áreas rurais do país.” E, raivoso, conclui: “Atacando de coração essa falsa eleição e a chamada ‘solução política’ (aspas dele) tão apeladora aos oportunistas, o guerrilheiro urbano tem que se fazer mais agressivo e violento, girando em torno da sabotagem, do terrorismo, das expropriações, dos assaltos, dos sequestros, das execuções.”

O terrorista é infatigável na defesa da violação dos direitos humanos. Indica como tarefa fundamental os sequestros. Diz Marighella: “sequestrar é capturar e assegurar em um lugar secreto um agente policial, um espião norte-americano, uma personalidade política ou um notório e perigoso inimigo do movimento revolucionário.” Em todo manual não há, em momento algum, qualquer valorização de algum ideário democrático. Nada disso. A morte — e não o voto — é a companheira fiel do terrorista. Cabe a ele, matar, matar, matar.

O filme poderá captar R$ 10 milhões (!!) do Estado burguês, não é, Wagner Moura? Afinal, o Erário serve para isso. Até para subsidiar uma película reacionária, antidemocrática e stalinista. Que falsifica a história sem nenhum pudor. Chega até a transformar um pardo em um negro, pois, de acordo com as notícias, o terrorista será interpretado pelo cantor Seu Jorge. Inacreditável.

A resistência democrática não fez parte do programa de nenhum grupo terrorista. Todos, sem exceção, defendiam religiosamente que o Brasil deveria caminhar para uma ditadura do proletariado. A divergência é se o nosso país seria uma Cuba, União Soviética ou uma China. A triste ironia é que os perdedores acabaram vencendo no discurso histórico. Aqueles que desqualificavam a democracia e agiam tão ditatorialmente como o regime militar, que diziam combater, foram alçados a mártires da liberdade.

Marco Antonio Villa é historiador


José de Souza Martins: A nova ignorância

- Valor Econômico / Eu &Fim de Semana

Historicamente, no Brasil, ignorância é um juízo de valor e manifestação de poder de quem, em posição de mando, não se considera ignorante. Era a definição que os poucos escolarizados davam aos muitos não escolarizados nas primeiras décadas do século passado. Estes, considerados socialmente inferiores, porque trabalhadores, mestiços ou descendentes de escravos, gente ao longo das gerações condenada ao trabalho braçal, supostamente vazio de trabalho intelectual.

No entanto, seja na lavoura, no artesanato, no trabalho doméstico, havia e há sistemas complexos de conhecimento, modos de fazer e de pensar que a maioria dos críticos da ignorância ignora. Aliás, analfabeto não quer dizer ignorante. Os estudos antropológicos nas áreas das etnociências mostram que o conhecimento popular tem elaborações e peculiaridades lógicas que indicam um labor cognitivo que não é antagônico ao da ciência e ao da arte.

Ao ignorar essa cultura, em vez de uma ponte de diálogo criativo e de aprendizado, a escola preferiu o abismo que a separa daqueles que pretende educar. Raramente nos lembramos de que a escola é um poder e instrumento de poder. Foi esse poder que decretou que aqueles aos quais o trabalho impediu a escolarização fossem definidos como ignorantes.

Ignorância é um rótulo, um dos conceitos de nossa cultura de preconceitos. A ignorância muda com o tempo, a circunstância e a mentalidade dominante. Ignorantes de hoje, na classe média e mesmo na elite, passaram pela escola e até mesmo pela universidade. Apesar de terem opinião sobre todos os assuntos, quando muito dominam apenas uma área do saber. Fora de sua área, são ignorantes pela especialização, pelo raciocínio estereotipado e desvinculado do pensamento crítico.

No plano das condutas e da visibilidade da ignorância, há meio século, os ignorantes já sabiam o motivo pelo qual eram assim definidos. Desenvolveram formas de dissimulação de sua ignorância para enfrentar as adversidades numa sociedade em que ser ignorante tornara-se motivo de discriminação e vergonha. A ignorância expressava-se não só na fala e nos simplismos, mas na apresentação pessoal, no uso impróprio de coisas e modos do que Erving Goffman define como equipamento de identificação.

Uma técnica tem sido a de copiar formas de expressão e de apresentação pessoal em público, prestar muita atenção no que os outros fazem e dizem e tentar imitá-los. Imita-se na fala, no traje, nos gestos. Mas a dissimulação da ignorância tinha e tem limites. Não raramente, gestos, palavras e trajes impróprios denunciam que a pessoa desconhece o que é apropriado para assegurar a eficácia da imitação. É ignorante.

Mas a concepção de que é socialmente mais decisivo parecer do que ser se difundiu, criou uma cultura, definiu valores e regras de penosos esforços de apresentação e de conduta. A forma aparente incluiu socialmente os excluídos. A superficialidade tornou-se democrática e, mesmo, decisiva, para incluir enganosamente o ignorante. Há uma função terapêutica no uso desses recursos numa sociedade que enfrenta, cada vez mais, limites no acesso à cultura erudita e que, cada vez mais, oferece recursos de dissimulação da ignorância. A sabedoria popular foi confrontada com a frágil sabedoria de ocasião.

Nos anos 1960, a difusão da leitura dinâmica, de ler apenas uma de cada duas palavras, ou de cada três, permitia "ler" um livro na metade do tempo da leitura normal. Não era ler para saber, era para que o "leitor" fizesse de conta que o havia lido, para simular conhecimento. O importante não era e não é deixar de ser ignorante. Importante é fingir não ser ignorante. Uma nova forma social de ignorância estava nascendo.

Nos anos 1970, as chamadas classes populares emergiram no cenário político brasileiro. Em alguns anos elegeriam um presidente da República. A intelectualidade dos movimentos populares produziu racionalizações que na essência asseguravam que o ignorante é sábio, na contramão dos valores da própria classe trabalhadora que, desde sua constituição entre nós, sempre valorizou a escola. Ignorância e poder se encontraram. Difundiu-se aqui a raiva como fundamento dos confrontos sociais, uma concepção antipolítica da luta de classes. O novo saber superficial e manipulável amalgamou-se com a raiva política, a incultura tornou-se prepotente. Durante quase um século a consciência da ignorância levou à busca da escola, à valorização da escola. Agora, a nova ignorância elegeu a escola como inimiga.

Da universidade ao palanque e do palanque ao botequim, o ignorante perdeu a consciência da ignorância, ao ponto de questionar o conhecimento erudito e minimizar e afrontar os profissionais do saber.
-----------------------
José de Souza Martins é sociólogo. Membro da Academia Paulista de Letras. Entre outros livros, autor de “O Coração da Pauliceia Ainda Bate” (Ed. Unesp/Imprensa Oficial)


Artigo, Bolívar Lamounier, Estadão - Golias contra Davi

Moro será morto e lançado aos cães ou o gigante cairá fulminado pela certeira funda?

“Prova”, no plano da técnica jurídica, é um conceito complexo, daí o extremo cuidado com que todo juiz tem o dever de se conduzir na apreciação das informações que lhe chegam às mãos. Mas é algo perfeitamente compreensível a partir da razão comum que Deus, em sua infinita bondade, repartiu igualmente entre os homens, dela excluindo só os de má vontade e os mentalmente prejudicados. Realmente, só um rematado idiota ou alguém movido por interesse contestará que a história montada pela defesa de Lula acerca do sítio em Atibaia é uma farsa sem tamanho. Quem contasse algo parecido para tentar iludir um cidadão comum – alguém que não tenha ocupado altos cargos políticos ou não possa arcar com os obscenos honorários cobrados por advogados de renome – deveria ser imediatamente levado à delegacia de polícia mais próxima.

A reflexão acima veio-me à mente, como é óbvio, a propósito do inquérito do sítio em Atibaia, cuja propriedade Lula contesta, e da entrada do ex-ministro José Paulo Sepúlveda Pertence na equipe de advogados que defende o ex-presidente.

Tive o privilégio de conviver com o dr. Sepúlveda Pertence nos anos 1985-86, como colega dele na Comissão Afonso Arinos, nomeada pelo presidente José Sarney a fim de elaborar um anteprojeto de Constituição. Vezes sem conta me deslumbrei com a clareza de seu intelecto e a solidez de seus conhecimentos jurídicos. Não menos importante, admirava o rigor de suas convicções republicanas. Discordávamos no tocante ao sistema de governo – ele, presidencialista, eu, parlamentarista –, mas confortava-me sentir que daí não advinha diferença alguma em nossa devoção à democracia representativa.

Faz tempo que não o encontro, mas tenho, infelizmente, a impressão de que nos distanciamos um pouco no entendimento de nossos antigos ideais e valores. Apresso-me a esclarecer que essa afirmação não decorre diretamente de ele ter aceitado integrar a defesa de Lula. Todo acusado tem direito a defesa; argumentando por hipótese, digo que eu mesmo, se fosse advogado, torceria o nariz, mas aceitaria defender o ex-presidente. Tampouco me refiro aos altos honorários que vai receber, a julgar pelo que a imprensa veiculou durante a semana, cujos reais valores não conheço e não tenho interesse em conhecer.

O que me causa estranheza no caso é a natureza da relação que aparentemente se pretende estabelecer entre a acusação e a defesa – ou, para dizê-lo sem rodeios, entre o juiz Sergio Moro e o ministro Sepúlveda Pertence. A relação que começa a se configurar me parece bem distinta da clássica lide forense, na qual as partes até certo ponto se equivalem. Não é simplesmente o fato de que uma estará do lado de cá e a outra do lado de lá, com recursos e prerrogativas semelhantes, salvo, é claro, por uma eventual diferença de qualificação intelectual. Até onde me é dado compreendê-la, o que se tem dito, e me parece plausível, é, em primeiro lugar, o que geralmente se designa como “tráfico de influência”.

Um gigante das letras jurídicas brasileiras, ex-ministro do próprio STF, é contratado para exercer uma influência difusa sobre os integrantes do Egrégio Colegiado, levando um ou outro a mudar sua linha de raciocínio – no limite, até sua convicção – no tocante à prisão após a decisão em segunda instância. Influência decorrente, portanto, de uma posição de elevado status no nível mais elevado da comunidade de magistrados. Há crime nisso? Creio que não, mas, não tendo tido oportunidade de me louvar em matéria jurídica, abstenho-me de perseguir essa linha e volto ao que me parece palpável: o recurso ao status e a singularidade da questão que ora nos ocupa no presente contexto brasileiro.

Pertence, como antecipei, estará “do lado de cá: na defesa”. Do lado de lá, encarnando a prerrogativa acusatória inerente ao Estado, estará Sergio Moro, um juiz federal de primeira instância.

A questão crucial que o STF vai examinar é se Lula deverá ou não ser preso imediatamente. Já condenado em segunda instância, tal exame recairá somente sobre questões técnicas de Direito, não sobre o mérito, já decidido.

Visto por esse ângulo, o recurso de última hora ao status – quero dizer, a clara intenção de contrastar um deus do Olimpo aos dei minori do STF e mais ainda ao pobre diabo de Curitiba que exarou a primeira sentença – parece-me indisfarçavelmente antiética. Mas, como não poderia deixar de ser, admito que estou a exprimir uma opinião, um juízo de valor, uma expressão do que a meu ver deveria ser a ética advocatícia. Afirmo, não obstante, que minha inquirição ética vai muito além da aceitação da tarefa pelo douto ex-ministro Pertence. No cerne dessa celeuma há uma questão relevante para todo o ordenamento jurídico do País e para os valores que pelo menos em tese regem nossa ordem política: a da busca da igualdade republicana.

Não admitir a prisão em segunda instância equivale a deixar livres os criminosos que possam arcar com altos honorários advocatícios e facilitar a prescrição de seus crimes, apontando aos destituídos da terra a imediata reclusão numa das fétidas masmorras mantidas pelo Estado brasileiro. Isso é República? É igualdade de tratamento? De forma alguma. É outorgar a Lula um tratamento diferenciado, mais que isso, o status de monarca absoluto, acima de qualquer norma jurídica ou costumeira, no país que se quer republicano.

Esse aí, em português corrente, o triste papel que José Paulo Sepúlveda Pertence acaba de assinar. Comparado a Moro, homem de estatura média, ele parece um Golias de três metros. O futuro, como sabemos, a Deus pertence. Em algumas semanas saberemos se Moro será morto e lançado aos cães, como queria Golias, ou se o gigante cairá fulminado pela certeira funda de Davi.

*Cientista político, sócio-diretor da Augurium Consultoria, é autor do livro ‘Liberais e Antiliberais’ (Companhia das Letras, 2016)


Artigo, Fernando Gabeira - Meditando no carnaval

Se for a única opção, teremos o carnaval apesar de tudo

RIO — Andei por Salvador visitando mosteiros, templos e terreiros para um programa de tevê. Encontrei o carnaval duas vezes, em Ondina e no Rio Vermelho. Entrei na multidão para documentá-lo, mas não podia deixar de refletir. Não sou especialista em carnaval, nem mesmo fui um observador atento da festa nos últimos anos. Meditei um pouco sobre ele não no sentido que os budistas dão à meditação: um processo que esvazia a mente. Aliás, tenho dificuldade de alcançar esse estado de concentração e o mais perto que consigo chegar dele é quando estou boiando de costas. Meditação no meu caso é dar voltas sobre o tema.

Os entendidos dizem que o carnaval libera sentimentos reprimidos durante o ano de trabalho. Pensei: mas o que falta mais ser liberado? Na medida em que os costumes tornam-se mais ousados, o que restará aos foliões nos dias de festa?

Homem vestido de mulher, por exemplo, pode ser considerado um tipo de liberação num tempo em que isto é feito com profissionalismo e sucesso pelos artistas? Já vi poucos homens vestidos de mulher, mas prevejo uma certa decadência dessa fantasia de carnaval. Com o feminismo em ofensiva, as mulheres podem duvidar se certo modo de travestir é mais uma zombaria do que propriamente imitação.

No que me parecia um bem policiado carnaval, com PMs e guardas municipais em movimento entre os foliões, pensei no carnaval do Rio. Um motorista de táxi me disse: um estrangeiro deve achar estranho que num país em crise e o Rio em guerra civil, tanta gente saia para o carnaval. Mas um estrangeiro não sabe da força que impulsiona as pessoas, uma alegria que precisa sobreviver nas mais duras circunstâncias.

Mas há algo que me preocupa no carnaval em nosso esforço de fazer uma grande festa, apesar de tudo. No meio da semana, três vias importantes foram interditadas: Avenida Brasil, Linha Vermelha e Linha Amarela. De repente, minha reação foi pensar que alternativas teria caso tivesse de entrar ou sair da cidade. É assim que a gente começa a se acostumar.

Muitos já consultam o aplicativo Onde tem Tiroteio antes de se deslocar. Certos lugares, certas horas tornam-se proibidos. E a gente se adaptando.

Com o tempo, descobrimos que a vida está mudada e nosso comportamento é o mais ou menos clássico das populações que vivem em longos conflitos: tocar a vida com alguma normalidade apesar do caos em torno.


Há uma sabedoria nisso, mas também uma certa resignação. E se for a única opção, continuamos com o carnaval apesar de tudo, com nossa vida “normal” apesar de tudo, e as coisas podem piorar.

Uma chance para o Rio Grande

Uma chance para o Rio Grande
Os mais jovens certamente não se lembram, e alguns dos mais antigos fingem não lembrar. No ano de 2002, o Rio Grande do Sul vivia uma eleição de vida ou morte, para definir a sucessão do desastroso governo petista da época, que endividou o Estado, mandou a Ford embora, perseguia judicialmente jornalistas, mantinha relações pérfidas com a contravenção e usava sua poderosa máquina de moer reputações para destruir adversários e aliados.  Ciente do mal que o governo petista fazia às finanças e ao futuro do Estado, Brizola surpreendeu a muitos quando conduziu o PDT a apoiar a candidatura de Antonio Britto, então no PPS, o homem que havia privatizado a CRT, criada justamente por Brizola quando governador.  Como o estadista que era, Brizola fez a leitura do tempo histórico e compreendeu que o que estava em jogo era a permanência de um projeto de poder perdulário, autocrático e ruinoso para o Rio Grande.
Mais de quinze anos depois, o Rio Grande vive um novo ciclo de preocupação. Depois do governo Tarso Genro solapar as finanças gaúchas, oferecendo generosas isenções fiscais que seu partido hoje finge combater e ter transformado o Badesul num clube de amigos, o Estado não tem recursos para investimentos, atrasa salários, descumpre repasses com hospitais, e por isso o governo apresentou um plano de Recuperação Fiscal que, sim, possui medidas amargas e que nenhum governante gostaria de aplicar.  Dentre elas, a venda de estatais que provocou a compreensível reação adversa de muitos deputados, entre eles companheiros do Trabalhismo, advogando a defesa do futuro dos trabalhadores. Ocorre que o Trabalhismo, conforme preconizado por Pasqualini, nunca defendeu apenas o trabalhador do setor público, mas também o da iniciativa privada, no campo e na cidade. E o colapso estrutural do Rio Grande do Sul causaria prejuízos a todos os trabalhadores gaúchos, sem exceção, como já vem acontecendo.  Que o digam os municípios gaúchos, que tem de assumir diversos serviços de competência estadual sem a devida contrapartida em recursos. Como prefeito já na quarta gestão, posso assegurar que este é um dos contextos mais graves já vividos pelas municipalidades.
A renúncia a futuras ações de cobrança de dívidas contra a União, sem dúvida, é um ingrediente controverso, felizmente sanado por recente decisão da Ministra Carmem Lúcia no STF. O Trabalhismo, como idéia generosa e norteadora de defesa da soberania, não deveria alinhar-se com a defesa dos super-salários da deficitária CEEE, onde os dez maiores contracheques somam, juntos, mais de R$ 600 mil mensais, e um engenheiro pode receber, num mês, até R$ 80 mil. Não há professor ou médico da rede estadual que tenha salário semelhante.
Brizola, quando teve oportunidade, mostrou que, às vezes, o segredo é desfazer paradigmas do passado para construir um novo rumo. O Trabalhismo precisa compreender o momento histórico sem perder a essência: defender o Rio Grande hoje, para que amanhã o trabalhador gaúcho possa ter um futuro.
Rossano Dotto Gonçalves

Prefeito de São Gabriel RS

Conab reestima para baixo produção de grãos

A Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) divulgou ontem a quinta estimativa para a safra 2017/18 de grãos, com estimativas de área plantada e de produção. 

De acordo com o levantamento, a área plantada será de 61,0 milhões de hectares, o que representa uma ampliação de 0,2% ante a safra 2016/2017. Dentre as culturas mais relevantes, as estimativas de maiores altas de área estão associadas ao algodão (17,4%) e à soja (3,3%). Em sentido contrário, a área de milho deverá diminuir 6,6%. A produção, por sua vez, está estimada em 225,6 milhões de toneladas, recuando 5,1% em relação à safra passada, que foi recorde (237,7 milhões de toneladas). 

Na comparação com a quarta estimativa, divulgada no mês passado, a produção foi revisada para baixo em 1,0%, refletindo a reavaliação com as produções de milho 1ª safra (em -1,7%) e 2ª safra (em -5,8%), influenciada pela expectativa de redução da produtividade e da área para a cultura, que deverá alcançar 88 milhões de toneladas neste ano (queda de 10% ante a safra anterior). Já a estimativa para a produção de soja passou de 110,4 para 111,6 milhões de toneladas, o equivalente a uma ampliação de 1,0% ante o mês anterior (queda de 2,2% em relação à safra passada). As produções de arroz e de feijão devem diminuir 5,6% e 2,9%, respectivamente, na atual safra. Por outro lado, é esperado aumento da produção de algodão, em 16,8%. A expectativa de menor volume produzido de grãos, ainda que seja o segundo melhor de todos os tempos, poderá levar a alguma elevação dos preços agrícolas neste ano.