Argentina: sem efeito Orloff no Brasil


Inflação baixa, reservas internacionais altas e déficit externo confortável indicam que são baixos os riscos de contágio da crise argentina por aqui

Até recentemente, as crises na Argentina repercutiam no Brasil. Os mercados financeiros chamam isso de contágio, mas se falava em “efeito Orloff””. Um comercial de TV de uma vodca exibia um homem sóbrio que dizia: “eu sou você amanhã” (sem ressaca no dia seguinte), mas uma Argentina bêbada pressagiava um Brasil trôpego depois.

Naqueles tempos, a Argentina e o Brasil padeciam dos mesmos problemas: inflação alta, déficit público elevado, desequilíbrio no balanço de pagamentos e escassas reservas internacionais. Logo, uma crise de confiança se reproduzia imediatamente por aqui.

A situação mudou. A Argentina voltou a ter os mesmos problemas. Maurício Macri herdou uma economia em pior estado do que a recebida por Michel Temer. A inflação passa de 25%; o déficit em conta-corrente do balanço de pagamentos é de 5% do PIB. No Brasil a inflação é baixa: menos de 3% em doze meses. O déficit em conta-corrente é 0,5% do PIB. As reservas internacionais estão em US$ 382 bilhões. Não há contágio.

A Argentina precisava de uma terapia de choque, mas Macri preferiu o gradualismo. A estratégia deu certo enquanto a taxa anual de juros americana era baixa. Agora, os sinais são de alta: já atingiu 3%, depois de anos abaixo de 1%. As aplicações em títulos públicos americanos, os mais seguros do mundo, ficam mais atrativas. Nesse contexto, presta-se mais atenção aos fundamentos dos mercados emergentes.

Foi o que aconteceu com a Argentina. Percebeu-se que havia riscos de descontrole inflacionário e de uma insolvência externa, que pioraram com a seca que reduziu substancialmente as exportações de soja.

Como sempre acontece nesses casos, os mercados azedaram subitamente. Saídas de capital agravaram os riscos externos, que provocaram novas saídas de capital e assim por diante. A taxa de câmbio subiu muito, aumentando os riscos inflacionários. Para enfrentar a situação, o Banco Central aumentou a taxa básica anual de juros para mais de 30%.

A Argentina gastou US$ 5 bilhões de reservas, mas adiantou pouco. Os investidores sabem que o país não tem muito poder de fogo. As reservas baixaram para as proximidades dos US$ 30 bilhões. A saída foi recorrer ao FMI, o qual foi criado exatamente para socorrer países a braços com crises cambiais.

O apoio do FMI pode estancar a crise, mas exigirá um duro programa para atacar os desequilíbrios da economia. Como nossos vizinhos odeiam o FMI mais do que os brasileiros, Macri pode perder popularidade, inclusive pelos efeitos da austeridade fiscal e dos juros altos na atividade econômica e no emprego.

Macri corre o risco de não se reeleger em 2019. Antes de curar seus problemas, os argentinos podem ter que enfrentar as incertezas de uma eleição presidencial e os riscos de retorno de Cristina Kirchner ao poder. Nesse campo, o “efeito Orloff” se inverte. Torçamos para não haver uma ressaca nem lá nem aqui.

A condenação de Paulo Ferreira, PT do RS

Não foi surpreendente a condenação do ex-tesoureiro nacional do PT e ex-deputado gaúcho Paulo Ferreira, homem ligado a Zé Dirceu, cujos gastos pessoais, políticos e eleitorais sempre surpreenderam até seus companheiros do Partido no RS.

Ele foi condenado, ontem, pelo juiz Sérgio Moro, junto com outros 12 elementos que assaltaram os cofres da Petrobrás.

A manchete do Correio do Povo, ao lado, mostra que a corrupção na Petrobrás parece não ter fim.


É a primeira condenação do petista pela Operação Lava Jato. Também foram condenados o ex-diretor de Serviços da Petrobras Renato Duque e o ex-executivo da construtora OAS, José Aldemário Pinheiro Filho, o Léo Pinheiro, pelos crimes de corrupção passiva e ativa, respectivamente. 

O processo é referente à 31ª fase da Lava Jato, denominada Operação Abismo. Segundo a denúncia, um consórcio integrado pela OAS e outras empreiteiras pagou R$ 39 milhões em propina, entre 2007 e 2012, para fraudar e superfaturar a licitação de construção do Centro de Pesquisas e Desenvolvimento Leopoldo Américo Miguez de Mello (Cenpes), da Petrobras. O consórcio era composto por OAS, Carioca, Construbase, Schahin e Construcap CCPS. OAS e Shahin já eram investigadas pela Lava Jato.




Artigo, Ronaldo Nogueira, Zero Hora - Mais do mesmo


- O autor é deputado federal do PTB do RS, ex-ministro do Trabalho e atual presidente da Comissão de Trabalho, Administração e Serviço Público da Câmara dos Deputados.

Parte dos manuais políticos, de Maquiavel à Mazzarino, diz que a política é a arte da dissimulação. Ou seja: o político de sucesso seria aquele que diz uma coisa, mas faz outra. Nada mais antiquado!
Na era digital, das redes sociais e da democracia 2.0, a população está participando ativamente do processo político, o qual se tornou transparente pela democratização dos meios de informação. Por isso mesmo não será mais enganada por velhas estratégias. Nesse sentido foram as grandes jornadas de 2013, onde o povo saiu às ruas exigindo três atributos dos agentes políticos: probidade, eficiência e coerência. 
O Rio Grande do Sul e o Brasil não podem esperar. É preciso continuar avançando no processo de reformas!
Pois bem. É estupefato que tenho assistido o verdadeiro contorcionismo argumentativo de pessoas que rechaçam a ideia de se realizar, simultaneamente às eleições de outubro, um plebiscito para viabilizar a venda de empresas estatais deficitárias, que sugam o povo gaúcho. De fato, contrariamente à ideologia de seus próprios partidos (que defendem as privatizações), vemos alguns afastarem a ideia da realização da consulta, pois avaliam que tal discussão traria benefícios eleitorais a adversários políticos. 
Sob argumentos pitorescos, que vão desde um suposto número excessivo de operações a serem realizadas na urna eletrônica, até uma hipotética inoportunidade pela mistura de assuntos, as desculpas para não realização do plebiscito são diversas. Tais argumentos são falsos, e mascaram uma concepção antiquada de política, onde o futuro das novas gerações é alienado por interesses eleitoreiros. Afinal, existe momento mais oportuno para se debater as privatizações do que em uma eleição?
Novo na política é não dissimular. Novo na política é ser coerente. Novo na política é enfrentar os problemas como eles são. Novo na política é não deixar para depois o que se pode fazer agora. Novo na política é modernizar o Brasil e o Rio Grande, realizando as reformas estruturais de que tanto precisamos, como fizemos com a modernização das leis trabalhistas.
O Rio Grande do Sul e o Brasil não podem esperar. É preciso continuar avançando no processo de reformas! Mais do que novas caras, precisamos de novas práticas. O resto é mais do mesmo.

Exportações do RS em abril

As exportações totais gaúchas subiram 6,4% em abril, ao somarem US$ 1,6 bilhão. Considerando apenas a indústria de transformação, que alcançou US$ 1 bilhão e representou 62,7% da pauta, a variação foi ainda maior, 12,5%. Apesar disto o cenário de curto prazo não é animador. A Argentina, principal destino dos produtos manufaturados produzidos Estado, vive um período turbulento. A desvalorização da taxa de câmbio e a elevação considerável da taxa de juros devem impor uma desaceleração do comércio exterior nos próximos meses, atrasando ainda mais a recuperação da indústria gaúcha.

A análise por segmentos industriais mostra que a base de comparação deprimida explica em parte o forte crescimento verificado em Tabaco (124,3%) e Alimentos (16,7%). Outras categorias da indústria gaúcha que exerceram contribuições positivas foram Celulose e papel (45,8%) e Veículos automotores, reboques e carrocerias (14,5%). Por outro lado, Químicos sofreu forte diminuição, com perdas equivalentes a 33,5%. Por sua vez, o grupo das commodities teve queda de 2,5% (totalizando US$ 586 milhões).

Ainda sobre abril, as importações totais subiram 5,1%, chegando a US$ 808 milhões. Na abertura dos produtos por categoria de uso, os segmentos de Bens intermediários (14,3%) e de Capital (36%) aumentaram, enquanto Bens de consumo (-11%) e Combustíveis e lubrificantes (-61,6%) recuaram.

Acumulado

O acumulado do primeiro quadrimestre de 2018 mostra que as exportações gaúchas foram de US$ 7,44 bilhões, o que representa alta de 54,2% em relação ao mesmo período de 2017. Desse somatório, a indústria foi responsável por US$ 5,92 bilhões, avanço de 63%. Os melhores resultados vieram de Outros equipamentos de transporte (25.750%), Tabaco (104,1%), Celulose e papel (92%), Máquinas e equipamentos (70,5%), Veículos automotores, reboques e carrocerias (25,4%) e Alimentos (7,1%). A categoria de Químicos (-7,4%) registrou a perda maior.

Artigo, Denis Lerrer Rosenfield, Estadão - Linha divisória


             São inegáveis os ganhos obtidos nos agora dois anos do governo Temer. De profunda recessão com alta da inflação, o Brasil conseguiu seguir novos rumos, graças a uma agenda reformista que começa a apresentar os seus frutos. No entanto, a popularidade do presidente é muito baixa, em clara dissonância com os benefícios trazidos ao país. Um novo norte foi apontado, porém os problemas morais atravessaram e contaminaram o atual governo.
                É forçoso reconhecer que os acertos econômicos foram ofuscados pela própria negligência no enfrentamento das questões éticas. Ministros do atual governo foram presos, outros estão sendo investigados, transmitindo à sociedade a mensagem de que a corrupção não foi encarada como deveria. O governo apostou na economia e foi tragado pela moral.
                Contudo, a moral não pode ofuscar o que deve ser feito do ponto de vista do Brasil como um todo. A limpeza das instituições, com a punição e condenação dos corruptos, não pode dar lugar à irresponsabilidade no tratamento das grandes questões nacionais. Os opositores do presidente Temer não deveriam oportunisticamente aproveitar a ocasião para se oporem ao país e ao seu futuro. Os acertos do atual governo não podem ser negligenciados pelos seus erros cometidos no domínio da ética.
                O ocorre que os candidatos a presidente da República, para se afastarem de um presidente impopular, cobram distância em relação às reformas empreendidas e as que foram apresentadas e não votadas, como as da Previdência e da Simplificação tributária. Pensam no ganho imediato e não demostram nenhuma preocupação com o futuro do país, que não se encerra com a eleição de outubro.
                Diferentes presidenciáveis, tanto da oposição quanto da mesma seara governista, não dizem ao que vieram. Perdem-se em discursos de cunho demagógico, sem nada declararem de preciso no que diz respeito ao equacionamento das questões nacionais. Vão seguir e aprofundar as reformas ou apostam no retrocesso?
Como vão enfrentar a necessária reforma da Previdência e os imorais privilégios do setor público? Vão regredir nas imensas conquistas da Reforma Trabalhista? Vão voltar a proibir a terceirização em nome de uma anacrônica distinção entre atividades-meios e atividades-fins? Vão estourar as finanças públicas revogando a Lei do Teto do Gasto Público? Serão lenientes com a inflação? Aumentarão os impostos em lugar de aprofundarem as reformas, em mais um ato de tolerância em relação à falta de controle da gestão pública?
Trata-se de questões centrais que deveriam ser seriamente apresentadas e discutidas. De nada adianta o comportamento escorregadio dos que se contentam com expressões genéricas de que teriam feito diferentemente. O país precisa de decisões e não de tergiversações. A demagogia se apropriada de forma geral em disputas político-eleitorais, torna-se particularmente inapropriada quando um país encontra-se em uma situação de crise, devendo dar respostas precisas a problemas urgentes. A verdade não pode ser simplesmente escamoteada, sob pena de o Brasil comprometer o seu próprio futuro.
Tomemos alguns exemplos.
O Teto do Gasto Público impôs um limite à farra reinante introduzida nos governos anteriores, como se o Estado tudo pudesse, sendo ele mesmo, na verdade, financiado pela sociedade. O Estado brasileiro asfixia cada vez mais as condições econômicas, que constituem a base mesmo dos ganhos sociais. Se a economia não cresce não há como manter um distributivismo social que todos estimam justo. Não há mágica. Quanto maior for o desperdício nos gastos públicos e nos privilégios dos estamentos estatais, menores serão os recursos alocados aos mais pobres e aos mais necessitados.
Ora, uma regra que diria de bom senso, usada por qualquer responsável familiar na administração de seu orçamento, não se podendo gastar mais do que se ganha, torna-se motivo de grandes discussões demagógicas. Ocorre que tal regra não poderá vingar a médio e longo prazo se não for enfrentada a Reforma da Previdência, que engole cada vez mais uma fatia maior dos recursos públicos. É a sociedade financiando privilegiados e os que não querem encarar as profundas mudanças demográficas ocorridas no Brasil e, também, no mundo. O que pensam os candidatos a respeito? Irão compactuar com a irresponsabilidade, quebrando o país logo adiante?
Em busca dos votos dos desavisados e dos mal informados, esboça-se todo um processo de uma suposta revisão da modernização da legislação trabalhista, recentemente aprovada. Tem só seis meses de existência, mas seus detratores não cessam de repetir mentiras. É a ideologia esquerdizante tomando a cena pública. A situação alcança aqui o paroxismo, pois chega-se a falar de eliminação de direitos, quando nenhum desses foi suprimido!
O seguro desemprego foi eliminado? E o décimo terceiro? E o salário mínimo? E a licença maternidade e paternidade? E as férias de 30 dias com um terço a mais de salário? E o FGTS? Eis apenas uma pequena amostragem dos direitos que foram todos preservados! É má-fé dizer o contrário. O que houve foi uma flexibilização na aplicação destes direitos, reservando aos empregadores e trabalhadores a livre negociação e a capacidade coletiva de escolha! A alternativa é entre modernização ou retrocesso! Entre liberdade ou tutela estatal!
Com a nova lei de profissionalização na direção de empresas estatais, sendo o maior exemplo o êxito na recuperação da Petrobrás, foi enfrentado um problema maior de uma espécie de sumidouro dos recursos públicos e, sobretudo, de combate à corrupção. Quanto maior o aparelhamento partidário destas empresas e menor o cuidado com a gestão pública, maiores serão os focos de desenvolvimento da corrupção. Há também uma questão estrutural, envolvendo a privatização da maior parte destas empresas. O cronograma está dado. De nada adianta combater a corrupção se as suas causas de fundo não forem abordadas!

Artigo, Marcelo Aiquel - O oportunista Relatório da CIA


        Nesta semana, a mídia e os esquerdopatas fanáticos, juntamente com os “anti-bolsonarianos”, exultaram com a divulgação de um Relatório da CIA que condena (?!?) os generais do regime militar de 1.964/85, no Brasil.
         Mas, esta louvação ridícula é totalmente despropositada.
         E explico (quase desenhando) porque acho isto:
         Aos esquerdopatas e mídia dissimulada, a justificativa é simples. Até “ontem” a CIA não tinha credibilidade alguma, sendo considerada (inclusive com deboche) pela esquerda como uma entidade do mal, responsável por todas as mazelas ocorridas no mundo, desde o embargo a Cuba (1.960).
         Aos “anti-bolsonaristas” – Será que ninguém, mesmo no alto de sua experiência e discernimento estranhou que tal notícia (ou factoide) tenha surgido somente 44 ANOS depois do fato, e exatamente quando o Bolsonaro lidera as pesquisas de intenção de voto, e é o preferido da maioria para ocupar o cargo de Presidente do Brasil?
         Hipocrisia é pouco!
         Pois, para os primeiros, a CIA virou uma fonte confiável e credível; enquanto para a turma que só votará no Bolsonaro caso o adversário no 2º turno seja “pior que ele” (sic), tudo vale para criticar o favorito.
         Isto que os “anti-bolsonarianos” nada farão para impedir a ida do famigerado (pior) candidato da esquerda ao 2º turno. Nem que seja escolhendo votos em candidatos sem nenhuma chance, “só para marcar presença”.
         Estamos diante da grande virada moral (nossa maior crise) e muitos “brasileiros responsáveis” pensam em favorecer um amigo, ou um parceiro.
         Daí, por si só, se explica a escalada do PT ao poder. Enquanto a esquerda se une para uma única alternativa, a direita (com suas variantes liberais, capitalista, e ortodoxa) se divide em torno de ideias e amigos. Mesmo sabendo que ambos são inviáveis no momento!
         Apesar de não questionar a denúncia “claramente oportunista”, gostaria – por amor à verdade – esclarecer dois fatos que reputo importantíssimos e altamente relevantes:
         1º) o “tal” relatório (cujo original não apareceu...) é datado de 11/abril/1974, e está escrito num “sistema operacional” chamado de “Microsoft Word”, processador de texto criado em 1983, apenas 11 ANOS depois;
         2º) o “tal” relatório se refere ao “Centro de Inteligência do Exército” (Army Intelligence Center – CIE),  que somente foi oficialmente criado em 23/12/1992 e passou a valer a partir de 1º/01/1993  para substituir o nome “Centro de Informação do Exército”.        
         Temos então que o “super credível” relatório enganou não só o eficiente departamento de investigação da Rede Globo, como um montão de gente que prefere “acreditar em bruxas” para criticar o capitão/deputado Jair Bolsonaro.
         Mais um ataque oportunista foi desmascarado!

         Marcelo Aiquel – advogado (13/05/2018)
        


Os dois Brasis que dominam o debate sobre 2018

Por Fernando Abrucio, doutor em ciênias políticas pela USP

O dia seguinte das eleições de 2018 pode consagrar a polarização atual e aumentar o fosso entre as visões sobre o Brasil, ou pode ser um momento de busca de um novo ponto de equilíbrio entre concepções legítimas, capazes de explicar questões estratégicas para o futuro do país. O fato é que estamos diante de dois modos de diagnosticar nossa situação, ambas com parte da verdade, e sem a reconciliação entre elas o próximo presidente terá dificuldades de governar bem e manter o apoio popular.

O debate atual pode ser compreendido como um tipo específico de explicação dualista da realidade. Cabe lembrar que o uso do dualismo para entender o Brasil é uma marca do pensamento social e político produzido sobre o país. "Os dois Brasis" de Jacques Lambert falava sobre a contraposição entre o moderno e o arcaico, algo que já aparecera antes na obra de Sérgio Buarque de Holanda, em "Raízes do Brasil". Edmar Bacha retomou essa lógica quando cunhou o termo "Belíndia", mistura de Bélgica com Índia, para mostrar a natureza de nossa desigualdade. Outros autores importantes seguiram essa trilha, seja para mostrar a incompatibilidade entre os dois polos, seja para mostrar o quanto um "contaminava" o outro - na visão mais hegemônica, isso significava o quanto o atraso sempre conviveu e influenciou o modo de modernização.

O dualismo que se coloca hoje diante de nós é de outra natureza. De um lado, há o predomínio do argumento de que é necessário ajustar o modelo de Estado, principalmente seu padrão de gastos, e, em menor medida (ou de uma forma menos elaborada), seu modelo de funcionamento. De outro, há os que ressaltam mais os sérios problemas sociais do país, que se agravaram desde 2013, e a urgência de melhorar e atuar mais em áreas como educação, saúde, segurança pública, combate à pobreza e à desigualdade, moradia e transporte público.

Seria melhor ao país se aquilo que se apresenta como um embate fosse visto como uma complementariedade de preocupações. Mas não é assim que o debate está posto. Aqueles que se concentram mais na questão fiscal e na preocupação com a viabilidade financeira do Estado são muitas vezes tachados como neoliberais ou qualquer outro termo que expresse um sentimento de xingamento. Para os que têm se concentrado mais na necessidade de priorizar as políticas sociais como o ponto central da agenda do país, regularmente se utiliza a denominação populistas ou qualquer adjetivação que os coloque no grupo dos irresponsáveis frente ao futuro do Brasil.

Para mudar essa rota sem diálogo que nos levará a algum tipo de precipício, é preciso, antes de mais nada, constatar as verdades de cada parte. Se o Brasil não reestruturar suas finanças públicas, de um modo a tornar o Estado solvente e garantir maior igualdade e eficiência no gasto, nenhum presidente conseguirá governar o país daqui para diante. Todos os adultos do recinto da política sabem disso, embora a maioria ainda não expresse isso aos eleitores. A prova disso é que uma reforma previdenciária concentrada na questão da idade mínima e na paridade entre os regimes público e privado provavelmente não será votada pelo atual Congresso, pois não existe contingente suficiente para aprovar tal mudança.

Sem algum tipo de reforma previdenciária o país não terá como gastar mais com quem mais precisa, e nem o Estado poderá ter instrumentos para induzir o desenvolvimento, com gastos, por exemplo, em infraestrutura. Claro que se pode sempre encontrar formatos distintos e negociados de reformas, mas é igualmente fundamental apresentar as contas que porventura embasem uma nova proposta.

Também é essencial repensar os créditos e subsídios federais às empresas. Grande parte do dinheiro gasto pelo BNDES durante o lulismo não serviu para combater a desigualdade ou gerar um novo padrão de desenvolvimento, como propugnavam seus defensores. Muitos dos campeões nacionais ganharam o campeonato sozinho e levaram o troféu para suas casas - em outras palavras, geraram benefícios com dinheiro público apenas a eles mesmos, e não ao povo brasileiro. Mais uma vez, pode-se dizer que o BNDES pode ter um papel estratégico e ser um ativo para melhorar a competitividade da economia brasileira, de modo que não se pode simplesmente acabar com ele. A questão é definir como isso será feito para o benefício da maioria, com uma indução governamental mais meritocrática do que patrimonialista, com resultados efetivamente cobrados, numa dinâmica que gere, ao longo do tempo, menos dependência (e não mais) do Estado.

O ângulo fiscal é essencial, mas insuficiente, para repensar o Estado brasileiro. Mesmo o tema da gestão e sua capacidade de produzir melhor desempenho não ganhou tanta atenção dos defensores dessa agenda. Evidentemente que houve ganhos na governança das estatais, mas o espaço para discutir, apresentar propostas e aperfeiçoar a administração pública brasileira ainda está para ser devidamente ocupado. Pior do que isso, o governo Temer e muitos dos que defendem o predomínio da visão fiscalista não têm levado em conta as necessidades de se debater e repensar o restante das políticas públicas, sobretudo as da área social.

O desempenho do governo Temer em políticas como saúde, segurança pública, redução de desigualdades regionais, mobilidade e pobreza urbanas, entre os principais, tem sido pífio. Isso se soma à sensação de participação ativa na corrupção, e tem um peso maior do que imagina o núcleo político e tecnocrático do governo na enorme impopularidade do presidente. Mesmo uma política onde houve ações mais efetivas como a educação tem sofrido com a visão excessivamente fiscalista. A PEC dos gastos representa bem isso, quando não se deu à área educacional a prioridade necessária a um país que quer se desenvolver e pegar o trem-bala do século XXI.

Afinal, do que adianta arrumar a casa, por anos, se não mudarmos a qualidade da educação e aumentarmos a equidade na sua provisão? Não se pode pensar o Brasil por etapas, isto é, adotar uma lógica em que é preciso fazer todas as reformas econômicas para depois se pensar em como resolver as políticas sociais. Se isso for feito, o país virará cada vez mais um caldeirão - sem trocadilhos, evidentemente -, prestes a explodir. Não haverá país a governar de forma minimamente racional e democrática. Esse tipo de raciocínio, que ainda impera entre economistas, é o primeiro passo para que nos próximos anos seja eleito alguém ao estilo Erdogan ou Putin.

É verdade que há certos arroubos populistas contaminando o debate atual. As propostas de Bolsonaro para a segurança pública são desastrosas e poderiam, se implementadas, piorar o ambiente social do país, abrindo a porta para soluções, no mínimo, pouco democráticas. Bolsonaro é mais parecido com o atual presidente filipino e seu modus operandi racharia o país de vez. O PT, por sua vez, tem negado o que falou e tentou implementar no governo Dilma no caso da reforma da Previdência. A vitória de um petista o levaria, imediatamente, a ter de fazer mudanças previdenciárias, e dizer uma coisa na eleição e praticar outra no governo é um passo para o desastre - e espero que os apoiadores de Dilma tenham aprendido com essa lição da história recente.

Mas não se pode, em nome de uma racionalidade econômica virtuosa e insulada do restante do mundo, ignorar a urgência social do país. Temos de pensar soluções urgentes para saúde, segurança, educação, combate às desigualdades e políticas urbanas. Temos de gastar mais e melhor com saúde, segurança, educação, combate às desigualdades e políticas urbanas. Temos de colocar essa agenda no topo das preferências do próximo presidente. Com Temer, o social foi escanteado e o resultado, segundo as pesquisas de opinião, é que quem estiver ao lado dele, não será eleito presidente do país. Pode até melhorar um pouco o desempenho econômico ao longo do ano, mas o bem-estar social é a variável-chave para definir a disputa presidencial de 2018.

Por essa razão, o debate sobre as outras políticas públicas para além da macroeconomia e das finanças públicas - mas não aquém --teria de ser priorizado nos próximos meses. O Brasil deveria olhar um pouco mais para a experiência internacional, onde há muitas inovações na área social, e para os estudos dos especialistas brasileiros.

O exemplo que mais aparece como presságio do que pode ser o nosso futuro é a situação do Rio de Janeiro. De fato, só se chegou