No apagar das luzes de Lula, Caixa pode assumir R$ 630 milhões em dívida do Corinthians

Às vésperas do provável “apagar das luzes” do governo Lula, empresa pública avalia operação de R$ 630 milhões envolvendo o Corinthians, clube pelo qual o presidente jamais escondeu sua paixão. Se confirmada, a operação envolvendo a Caixa Econômica Federal e o Corinthians abre uma pergunta inevitável: quem está pagando a conta? 

A proposta em discussão prevê que a Caixa assuma os direitos de nome da Neo Química Arena em troca da quitação de uma dívida do Corinthians estimada em R$ 630 milhões. O assunto avançou no Conselho de Administração do banco e agora aguarda uma formalização. 

Até aí, poderia ser apenas uma negociação comercial. O problema é que a Caixa não é um banco privado. É uma empresa pública controlada integralmente pela União. E, portanto, qualquer decisão envolvendo centenas de milhões de reais precisa ser analisada não apenas pela ótica de marketing ou de relacionamento comercial, mas principalmente sob a perspectiva do interesse do dinheiro público. 

E é justamente aí que a história ganha contornos políticos. Lula nunca escondeu sua ligação com o Corinthians. É torcedor declarado do clube e possui uma relação pública e histórica com a agremiação. Por isso, qualquer decisão bilionária ou milionária envolvendo o Corinthians e uma instituição financeira controlada pelo governo federal inevitavelmente será submetida ao escrutínio público. 

Não basta dizer que se trata de uma operação de mercado. É preciso demonstrar que o negócio é economicamente vantajoso para a Caixa e para a União e não apenas uma solução conveniente para o Corinthians. 

O Corinthians possui uma dívida estimada em R$ 630 milhões relacionada à arena. A proposta em discussão prevê que a Caixa fique com o naming rights do estádio. O clube avalia esse direito em aproximadamente R$ 70 milhões por temporada, valor muito superior aos cerca de R$ 15 milhões anuais pagos pela Hypera desde 2020, corrigidos pela inflação. 

Mas há uma questão básica: se o naming rights vale realmente R$ 70 milhões por ano, por que a Caixa deveria simplesmente aceitar uma estrutura que resulte na quitação de R$ 630 milhões em troca desse ativo? 

Quanto tempo seria necessário para recuperar esse valor? Qual será o retorno efetivo para a Caixa? Como foi calculado o valor do naming rights? Houve avaliação independente? Existiram propostas concorrentes? Outros bancos ou empresas poderiam pagar mais? Qual será o custo de oportunidade para a instituição? 

E, principalmente: quem garante que o valor atribuído ao naming rights corresponde ao seu verdadeiro valor de mercado? 

Ou seja: enquanto se discute uma solução para uma dívida de centenas de milhões de reais, o credor público também estaria sendo chamado a flexibilizar os pagamentos. 

O risco de uma operação dessa natureza não está apenas nos números. Está no precedente. 

Se um clube de futebol endividado pode negociar uma dívida de R$ 630 milhões com uma instituição pública por meio de um contrato de naming rights, outros grandes devedores poderiam perguntar por que não recebem tratamento semelhante. 

A Caixa precisa explicar, com transparência, qual é o interesse econômico da instituição e quais mecanismos de proteção do patrimônio público serão utilizados. 

Não se trata de ser contra o Corinthians. Tampouco de ser contra o naming rights. É uma questão muito mais simples: dinheiro público não pode ser tratado como dinheiro de torcida organizada. 

O Brasil já assistiu inúmeras vezes à mistura perigosa entre política, futebol e negócios. Por isso, quando uma operação dessa dimensão aparece justamente no final de um ciclo de governo, a sociedade tem todo o direito de levantar a sobrancelha e exigir explicações.

Nenhum comentário:

Postar um comentário