A Folha de S.Paulo levou para a capa desta sexta-feira (2) um editorial de forte tom crítico à atuação de ministros do Supremo Tribunal Federal e do Tribunal Superior Eleitoral na reta final da eleição presidencial.
Com o título “Ataque de juízes prejudica neutralidade da eleição”, o texto institucional do jornal afirma que intervenções recentes do Judiciário estariam comprometendo a percepção de imparcialidade de quem arbitra o processo eleitoral. No subtítulo, a Folha atribui diretamente a Gilmar Mendes e à ministra do TSE Estela Aranha decisões que, na avaliação do jornal, favoreceram Lula. Trata-se da posição editorial da Folha, e não de uma conclusão judicial sobre a motivação dos magistrados.
O editorial foi publicado depois da turbulência que terminou com o cancelamento do debate presidencial da TV Globo.
Um dos episódios questionados pela Folha foi a decisão de Estela Aranha, tomada a pedido da coligação de Lula, que proibiu a emissora de mostrar o púlpito identificado do presidente caso ele não comparecesse e também impediu perguntas dirigidas ao candidato ausente. A ministra argumentou que a participação em debates é facultativa e que a exposição do lugar vazio poderia produzir consequências negativas para quem optasse por não participar.
A Folha rejeita esse entendimento e chama a medida de censura. O editorial lembra que a utilização de cadeiras ou púlpitos vazios possui precedentes em debates eleitorais e sustenta que a decisão interferiu na liberdade da emissora para definir a dinâmica do programa. Novamente, essa classificação é a avaliação institucional do jornal.
O outro alvo central é Gilmar Mendes. O ministro do STF determinou que a Globo aceitasse a participação de Renan Santos, candidato do Missão, no debate. A Folha critica tanto o mérito quanto o caminho processual utilizado para a decisão e afirma que o episódio aprofundou a interferência judicial sobre um evento organizado por um veículo de comunicação.
A sequência de decisões ocorreu poucas horas antes da transmissão. Lula já havia informado que não participaria. Flávio Bolsonaro, que anteriormente havia confirmado presença, também desistiu depois da decisão envolvendo o púlpito vazio. Diante das alterações, a Globo cancelou o debate e alegou que as determinações judiciais haviam criado insegurança jurídica e interferido nas regras acertadas para o encontro.
O ponto mais contundente do editorial está na dimensão institucional dada pela Folha ao episódio. O jornal sustenta que a neutralidade e a previsibilidade do árbitro eleitoral são patrimônio da democracia e afirma que decisões percebidas como partidárias corroem a autoridade do próprio Judiciário. Em sua formulação mais severa, o texto acusa integrantes das cortes de agir para beneficiar a candidatura do presidente. Essa é uma acusação política-editorial da Folha, não um fato demonstrado sobre a intenção dos magistrados.
A publicação ganha peso também pela escolha editorial: não ficou restrita à página de opinião. Foi chamada na primeira página do jornal, ao lado da manchete sobre a nova pesquisa Datafolha e da notícia do cancelamento do debate da Globo.
Assim, em poucas horas, dois dos maiores grupos de comunicação do país fizeram críticas públicas às decisões judiciais envolvendo o último debate presidencial. A Globo contestou as interferências que levaram ao cancelamento do programa. O Globo publicou editorial crítico. Agora, a Folha de S.Paulo coloca na própria capa um editorial questionando a neutralidade da atuação judicial na eleição.
O debate foi cancelado. A controvérsia institucional, porém, entrou definitivamente na reta final da campanha.
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