Execuções são parte de um processo de naturalização da violência

O caminho passa pela gestão integrada dos investimentos em prevenção e controle da criminalidade
Por Aline Kerber, Socióloga e especialista em segurança cidadã
A maior chacina do Estado na última década ocorreu na noite de 19 de julho. A cena desse crime "fala" por si só. Um cenário como muitos das periferias brasileiras onde ocorrem homicídios, com pouca iluminação, sem calçamento, acúmulo de lixo e falta de infraestrutura. Nesse caso, em um território que concentra a maior parte dos homicídios da capital gaúcha. Essa execução se deu, ainda, configurando um processo de naturalização da violência letal, próximo do 20º BPM, conhecido, paradoxalmente, pela sua eficiência no trabalho integrado da prevenção e da repressão de crimes.
A priori, homens armados atingiram sete vítimas fatalmente, duas grávidas, com arma de uso restrito, o que pode indicar associação com o crime organizado. As execuções aconteceram, em tese, por disputas territoriais de tráfico de drogas entre duas facções criminosas, sendo que houve, na mesma noite, outros disparos em local próximo como resposta à chacina.
Esse fenômeno, infelizmente, não é novo. O RS já estava em 2016 na segunda posição de homicídios múltiplos, com 26 episódios e 90 vítimas, atrás somente do RJ. Cerca de 2,8% do total de casos envolvendo homicídios ceifam mais de uma pessoa em solo gaúcho — o triplo da proporção brasileira para esses crimes, embora venha apresentando reduções importantes nos últimos anos. Observe-se que, neste primeiro semestre de 2018, em relação ao mesmo período de 2017, houve redução de 23% de homicídios no Estado e de 14,7% na Capital, totalizando 363 vidas salvas!
Inobstante, o caminho passa pela gestão integrada dos investimentos em prevenção social e controle da criminalidade violenta. Salta aos olhos, a importância da especialização da investigação criminal de homicídios e, mais ainda, da presença do delegado de Polícia e de profissionais da BM e do IGP na cena do crime, como se viu com o envolvimento direto do delegado-chefe de Homicídios, Paulo Grillo. Esse fato é um símbolo importante do processo de priorização pública do enfrentamento dos homicídios, trazendo um alento no esclarecimento dessa barbárie.

O Brasil que eu quero?


Desde março deste ano, vem sendo exibida na TV uma série intitulada “O Brasil que eu quero”, uma interessante oportunidade para que os brasileiros expressem o que desejam para o país nestas eleições. Invariavelmente, os vídeos exibidos giram em torno das mesmas aspirações: mais educação, mais saúde, um país com mais decência e menos políticos corruptos. Desejos legítimos, mas que precisam passar pela análise necessária sobre a coerência entre nosso discurso, como povo, e nossa prática cotidiana.
Não existe uma corrupção dos políticos, separada da corrupção dos outros seres humanos. Políticos não são extraterrestres. São pessoas eleitas por outras pessoas para a missão de administrar a “polis”, a comunidade, e seus eventuais vícios e virtudes são, em certa medida, reflexo de hábitos da sociedade que os elege.
Todos querem educação de qualidade, mas muitas famílias não se importam em matricular os filhos na escola na idade certa, obrigando o Poder Público a realizar busca ativa.  Todos querem Saúde digna, mas alguns procuram o agente político para “furar a fila” do atendimento ou do procedimento médico, não levam seus filhos e idosos às campanhas de vacinação, e quando fazem um exame custeado pela rede pública, muitas vezes não vão sequer buscar o resultado. Todos querem moralidade na gestão pública, mas muitos vão ao político pedir um “jeitinho” para fazê-lo passar na prova de habilitação de motorista, ou ainda, burlar a ordem de classificação para nomeação em concurso público.  Em resumo, todos querem mudança, mas poucos querem mudar.
Estamos sempre esperando que outros mudem o país por nós: uns pedem intervenção militar, outros querem o ativismo do Judiciário e do Ministério Público, atrofiando o equilíbrio dos demais Poderes, e outros ainda vão atrás dos “Salvadores” da vez, os ditos “não-políticos” – muitos deles, estranhamente, com décadas de vida partidária.
É fácil transferir responsabilidades, tão fácil quanto ilusório. A política é a gestão da sociedade, e para mudar a política, as pessoas precisam mudar. Deixar de recorrer aos atalhos, evitar a compra da peça de carro proveniente do roubo, da carne que vem do abigeato, do produto pirata. Um país não é democrático somente quando os direitos são para todos, mas especialmente quando as leis, as normas que são base de qualquer civilização, são por todos respeitadas e cumpridas. 
Nossa democracia é imperfeita justamente porque ela é a soma de nossas imperfeições. Quando a sociedade se civilizar e se educar moralmente para a vida pública, teremos políticos melhores, porque teremos cidadãos melhores.
Este é o Brasil que eu quero. E você?

Denis Lerrer Rosenfield - Loucura com método


      Se o PT sempre foi uma máquina produtora de versões, a prisão de seu Líder máximo apenas confirma este fato. Sempre atento à formação da opinião pública, é-lhe capital manter o seu protagonismo político. Sair de cena, significaria uma batida em retirada de difícil retorno.
      Acontece que Lula e vários de seus dirigentes foram condenados e, alguns, estão cumprindo penas em prisões. O comprometimento do partido com o crime tornou-se uma outra marca sua, com o mensalão e o petrolão sendo suas expressões mais visíveis. O partido da ética na política tornou-se o da criminalização da política, em uma equação em que salta aos olhos a contradição.
      Imagens contraditórias atormentam o partido. Como conviver com elas veio a ser uma questão maior. Várias alternativas fizeram-se presentes. Uma delas, a de uma verdadeira autocrítica e uma mudança de rumos propriamente socialdemocrata, foi das primeiras a ser descartada. Seu lugar foi ocupado por uma denegação de todos os crimes cometidos, acompanhada por um discurso de tipo revolucionário, em que abundam as radicalizações, com seus dirigentes abertamente defendendo o Foro de São Paulo em Cuba e a sanguinária ditadura de Maduro na Venezuela.
      O discurso do “golpe”, da “perseguição política” e contra a “direita e os conservadores” faz parte da estruturação desta narrativa. Lula preso tornou-se um ativo de preservação do próprio partido, em sua busca desenfreada por manter uma imagem pública palatável aos seus crentes e simpatizantes.
      Neste quadro, a prisão do ex-presidente é um fato propriamente político da maior importância. O aparente quebra-cabeças de seus advogados faz parte do jogo, visando a manter o apenado em cena. Não se trata de uma defesa jurídica, mas propriamente política. Os argumentos digamos “jurídicos” são apenas uma aparência que faz parte de uma lógica mais geral. Não se bate em juízes e promotores um dia sim e outro também se há verdadeira intenção de libertar o condenado. A estratégia seria outra.
      Alguns chegam a enxergar nestas atitudes aparentemente paradoxais uma espécie de “suicídio” do PT, vitimado que seria por suas contradições. Contudo, se adotarmos uma outra perspectiva, poderíamos ver a lógica do que surge como ilógico. E se o objetivo maior do partido fosse precisamente a sua própria conservação sob a ótica do longo prazo?
      Uma abordagem possível consistiria em considerar um posicionamento partidário voltado para o período pós-eleitoral, cujo relógio começaria a contar a partir do dia primeiro de janeiro de 2019.  Eis o cenário para qual o PT está se preparando.
      O partido já sabe que Lula não poderá ser candidato em 2018 por razões legais evidentes. A Lei da Ficha Limpa é clara a respeito. Até um estudante de primeiro ano de direito sabe disto. Não é necessária a contratação de nenhum grande advogado. Contudo, o discurso da “perseguição política” e de cerceamento de seus direitos eleitorais faz parte de um processo mais amplo de deslegitimação das próximas eleições. O partido está amealhando capital político.
      As chances de um poste escolhido no último momento são exíguas, apesar de alguns acreditarem ainda sinceramente nesta possibilidade. Em todo caso, tal crença contribui para que o partido continue coeso, algo que é da máxima relevância neste momento. Aparentemente, o PT está preocupado em ganhar esta eleição, quando na verdade visa a se posicionar enquanto oposição ao novo governo, dentro de um cenário institucional degradado. Cenário esse que lhe é de valia também em função do discurso revolucionário que está adotando. Regressa às suas origens.
      Neste cenário, não lhe interessa qualquer aliança que lhe dê substância eleitoral para outubro. Por exemplo, compor com o ex-governador Ciro Gomes não lhe convém, pela simples razão de que esse, eleito, seria por demais igual ao PT, vindo a aniquilar o próprio partido. O programa do candidato apresenta semelhanças profundas com o que foi defendido pelos governos Dilma e Lula II. Seria lógico apoiá-lo. Eleitoralmente faria sentido, partidariamente não. O fundamental para o partido reside em manter a sua hegemonia.
      Para o PT, faz muito mais sentido a eleição de Jair Bolsonaro. Isto por que sempre poderia dizer que o processo eleitoral não possui nenhuma legitimidade, na medida em que Lula não teria podido participar da eleição. Teria sido impedido graças a uma “perseguição política”, a um ato de “arbítrio” perpetrado por juízes e promotores apoiados pela “grande mídia”.
      Teria, ainda, do ponto de vista de sua narrativa, no interior de um quadro apresentado como institucionalmente degradado, o “benefício” de colocar-se como de oposição a um governo “militar”. Caso eleito, Bolsonaro não seria considerado como resultado de um processo constitucional, mas como produto de um conjunto de arbitrariedades da toga e dos meios de comunicação que teria propiciado a volta dos militares ao Poder.
      O comprometimento do partido com a verdade é nulo. Importa-lhe exclusivamente a sua versão, contanto que essa lhe seja útil na perspectiva da conquista do Poder. Não há nada ilógico no que o partido vem fazendo. A aparente desordem nas orientações partidárias segue também um método próprio de ordenação, tendo como eixo a estrutura partidária e a coesão de sua ideologia, por mais falsa e dissociada que seja da realidade.
      O PT nunca prezou tampouco a democracia. Essa lhe foi útil, sobretudo no período pós-regime militar, apresentando-se como uma nova alternativa de participação política. Discursos de uma suposta “democracia direta” abundaram naquele período.  Entretanto, o que importava para o partido era o uso que poderia fazer das instituições democráticas para a apropriar-se do Poder. Tratava-se do mero uso instrumental da democracia. Agora, o seu aviltamento veio a ser o seu complemento.

STF julga denúncia sobre subornos no Trensurb


O material a seguir é de Zero Hora, edição de 24 de maio.

Não é só com relação à compra de trens que dirigentes da Trensurb terão de dar explicações. A força-tarefa do Ministério Público Federal (MPF) na Operação Lava-Jato investiga possível suborno da construtora Odebrecht a políticos para que a empresa de trens urbanos concluísse a extensão da linha entre São Leopoldo e Novo Hamburgo. Entre os investigados estão dois ex-diretores da Trensurb, Marco Arildo Prates da Cunha e Humberto Kasper — o mesmo que firmou o contrato para aquisição de 15 trens do consórcio Alstom-CAF, que nunca funcionaram a contento. Na época da compra, Kasper era diretor-presidente da estatal. Arildo era diretor-financeiro na época da assinatura do contrato de manutenção dos novos trens.

Conforme o inquérito 4.434 sobre a obra no RS, que tramita no Supremo Tribunal Federal (STF) há um ano, a Odebrecht admite ter pago R$ 3,45 milhões a políticos e dirigentes da Trensurb para conseguir destravar a extensão dos trens até Novo Hamburgo. A obra estava parada por enfrentar restrições do Tribunal de Contas da União (TCU). Com ajuda política, teria deslanchado.

Conforme delação premiada de dois ex-dirigentes da Odebrecht, Benedicto Junior e Valter Lana, foi pago R$ 1,49 milhão ao então deputado federal Eliseu Padilha, do MDB, atual ministro da Casa Civil, R$ 734,7 mil ao deputado federal petista Marco Maia, R$ 934,5 mil ao ex-ministro do Planejamento Paulo Bernardo, do PT, R$ 260,3 mil a Marco Arildo e R$ 38,7 mil a Humberto Kasper, ambos ex-presidentes da Trensurb, indicados pelo PT. No total, conforme os executivos, a extensão da linha da Trensurb foi alvo de três pedidos de pagamentos de propina entre 2008 e 2009: um de Padilha; um de Maia, Arildo e Kasper; e outro de Paulo Bernardo. Juntos, eles teriam recebido R$ 3,45 milhões da construtora.

Os jovens repórteres esquerdopatas horrorizaram-se com a convenção de Bolsonaro


O blog O Antagonista de hoje, recuperou este relato que o repórter Leandro Narloch fez na Folha de S. Paulo:

“Como jovens jornalistas são próximos da nova esquerda, é natural que antipatizem com Bolsonaro e recebam tratamento recíproco. A tensão ficou evidente na convenção.
O público, em êxtase, empunhava bandeiras, tocava tambores e buzinas, aplaudia, louvava os falantes e gritava contra a imprensa: ‘Globo lixo! Imprensa comunista!’.
Já nas cadeiras reservadas aos jornalistas, o clima era de velório.
À minha direita, um repórter de TV mostrava seu descontentamento assistindo a Fórmula 1 pelo celular. À esquerda, uma jornalista fazia ‘não’ com a cabeça a cada vez que um dos falantes criticava a legalização do aborto. ‘Isso me aterroriza demais’, disse. Outra colega, sentada no chão, com cara de ressaca, segurava a cabeça como se pensasse: ‘o que é que fiz da minha vida pra ter de ouvir essas coisas num domingo de manhã?’.
O pior é que talvez seja exatamente isso que os eleitores de Bolsonaro procurem. Querem alguém que leve mais virilidade à política, irrite o jovem reportariado e que não se preocupe com a repercussão de seu discurso no programa da Fátima Bernardes.
‘Como eu, Bolsonaro fala por impulso, sem ligar para o que a imprensa vai dizer’, diz Roriz, o ex-eleitor de Lula que hoje leva a imagem de Bolsonaro na perna.”

Protestos contra o governo bolivariano de Ortega toma conta de Manágua


Um grande protesto contra o presidente Daniel Ortega tomou neste sábado as ruas da capital da Nicarágua, apesar do pedido do líder para manter ativos "os mecanismos de autodefesa" a fim de evitar "um golpe de Estado". Centenas de nicaraguenses iniciaram uma manifestação em uma das principais vias do leste de Manágua para exigir a renúncia de Ortega, a quem responsabilizam pela morte de centenas pessoas contrárias ao governo.

"Povo, una-se!", "O povo unido jamais será vencido!" e "Liberdade para os presos políticos!", estavam entre as palavras de ordem dos manifestantes. Eles também levavam cartazes com frases como "Só o povo salva o povo" e "Não eram delinquentes, eram estudantes".

Há dois dias, na celebração do 39° aniversário da revolução da Nicarágua, o presidente insistiu para que seus seguidores defendessem o governo. Ortega pediu aos seus simpatizantes para não baixarem a guarda, “a seguir defendendo nossos direitos, as nossas decisões". Neste sábado, horas antes de uma manifestação governista, a polícia nicaraguense expulsou de uma de suas sedes carcerárias dezenas de mães que perguntavam por seus filhos, que foram detidos ou desapareceram durante manifestações contra Ortega. As famílias deixaram a entrada da Direção de Auxílio Judicial (DAJ) da polícia, conhecida como El Chipote, para evitar um confronto com partidários do governo.

"Há alguns dias vieram nos dizer para sairmos de El Chipote. Ficamos com medo de que façam algo conosco, por isso viemos para cá (Catedral de Manágua)", afirmou uma mulher que não quis se identificar. "Disseram que com as balas eles nos expulsariam e para proteger as nossas vidas decidimos sair", acrescentou a esposa de um oficial militar reformado que estaria detido por se recusar a fazer parte de grupos paramilitares.

Localizada em uma elevação montanhosa no centro de Manágua, a prisão de El Chipote foi mencionada como um centro de vexação e tortura por organizações de direitos humanos que solicitaram seu fechamento. O governo nicaraguense é acusado pela Comissão Interamericana de Direitos Humanos (CIDH) e o Escritório do Alto Comissariado das Nações Unidas para os Direitos Humanos (Acnudh) de "assassinatos, execuções extrajudiciais, maus-tratos, possíveis atos de tortura e detenções arbitrárias cometidas contra a população majoritariamente jovem do país". As autoridades da Nicarágua negaram reiteradamente as acusações.

Os protestos contra Ortega começaram no dia 18 de abril, em razão de uma reforma da previdência que finalmente foi cancelada, e se tornaram uma campanha dos que pedem a renúncia do presidente, depois de 11 anos no poder, com acusações de abuso e corrupção.

A vice-presidente e primeira-dama da Nicarágua, Rosario Murillo, disse na sexta-feira que os opositores se mataram durante os protestos para responsabilizar o governo de Ortega. "Eles mesmos tiraram suas vidas para culpar o governo", afirmou ela em mensagem por meio de veículos de imprensa oficiais, exaltando "o trabalho pela paz da Polícia Nacional".

Rosario afirmou que, após três meses do início da crise, "a culpa por essas mortes recai sobre o golpe terrorista e criminoso na Nicarágua". Ela observou que "o povo está indignado", no entanto, afirmou que o governo não guarda "ódio ou desejo de vingança" contra os responsáveis pela violência, que atribuiu aos "golpistas". "Sabemos que existem instituições que farão justiça a todas as vítimas do terrorismo golpista. Sabemos que há instituições que serão capazes de reconhecer os crimes daqueles que causaram tanta dor, tanta morte, tanto sofrimento, tantos crimes aberrantes, diabólicos em nossa Nicarágua, e confiamos na justiça", afirmou Rosario.

Livro-reportagem revela segredos incômodos sobre a guerrilha do Araguaia


Livro-reportagem revela segredos incômodos sobre a guerrilha do Araguaia
“Borboletas e lobisomens”, de Hugo Studart, deve desagradar tanto aos militares quanto aos comunistas.

Por Luciano Trigo, G1

O historiador e jornalista Hugo Studart está lançando um livro que promete reacender o debate sobre a resistência armada à ditadura militar: “Borboletas e lobisomens” (editora Francisco Alves, 660 pgs. R$ 79) traz revelações bombásticas, que devem desagradar tanto aos militares quanto aos que cultuam uma imagem heroica dos integrantes da guerrilha do Araguaia – movimento armado que tentou promover uma revolução comunista no Brasil, entre 1967 e 1974, na fronteira entre os estados do Pará, Maranhão e Goiás, mas acabou sendo dizimado pelos militares.
Resultado de nove anos de pesquisa e do acesso a documentos secretos das Forças Armadas, o livro afirma, entre outras coisas, que:
As revelações sobre os militares não são menos incômodas, incluindo episódios de barbárie, como o do guerrilheiro que teve o pescoço serrado enquanto ainda agonizava e o da guerrilheira que foi enterrada viva, sem falar na tortura e nas execuções sumárias de 22 prisioneiros.
Nesta entrevista, Hugo Studart lamenta que o Brasil ainda continue refém da mentalidade daquela época: “Boa parte das esquerdas se recusa a fazer autocrítica e radicaliza o discurso em torno de um líder messiânico condenado”, afirma. “De outro lado, parcela equivalente da sociedade alinha-se a um candidato radical de direita que tenta se fazer líder messiânico ou, pior, uma parcela que prega a volta da ditadura militar. Vejo esses dois fenômenos como as faces de uma mesma moeda.”
A quem seu livro “Borboletas e lobisomens” irá desagradar mais? Aos comunistas ou aos militares?
HUGO STUDART: Desagrada aos dois lados, pois busco escrever história, ainda que para tal precise revelar segredos incômodos. Difícil avaliar a quem vou desagradar mais. Sobre os militares, revelo em detalhes a opção por abandonar as Leis da Guerra e as Convenções de Genebra, aderindo às leis da selva. Em muitos momentos, aprovando a barbárie pura e simples, com a decapitação de guerrilheiros e a execução de 22 prisioneiros. Revelo ainda os nomes de todos os oficiais superiores que consegui identificar, com suas respectivas funções e atos no Araguaia. Por outro lado, acabei por descrever os erros identificados dos guerrilheiros e do partido, que batizei sob a alegoria de “uivo dos lobisomens”.
Descrevo episódios polêmicos, como a de induzir as guerrilheiras a fazerem sexo com até cinco companheiros para aliviar as necessidades dos guerrilheiros machos, ou o recrutamento de adolescentes de até 13 anos para pegar em armas, ou ainda a deserção de três dos principais comandantes guerrilheiros. Acredito, contudo, que a parte que mais vai desagradar aos comunistas seja o fato de mostrar, ao longo da narrativa, que os chefes do partido deixaram aqueles garotos à própria sorte, cortando as linhas de abastecimento, sem armas ou munições, proibindo que recuassem sob pena de justiçamento [prática de julgamento e eliminação de pessoas consideradas traidoras], um crime quase tão grande quanto o crime dos militares que os exterminaram.
Em que medida a sociedade brasileira ainda continua presa à mentalidade da época da guerrilha?
STUDART: O maniqueísmo vulgar, sem dúvida, de uns tempos para cá retornou com toda a força, colocando vendas na razão de muita gente. A ditadura militar e a luta armada no Brasil se deram em um período singular da história da humanidade, o qual o historiador Eric Hobsbawm define como “Era dos Extremos” e o pensador Isaiah Berlim chama de “século mais terrível da nossa história”. Eram os tempos da Guerra Fria, de maniqueísmo e radicalismo político, tanto dos militares quanto das esquerdas. Com a queda do Muro de Berlim, parecia que esses tempos haviam terminado. Contudo, voltaram com toda a força em alguns países da América Latina, onde o populismo de esquerda ascendeu.
Em nosso Brasil de hoje, somos assolados por um maniqueísmo vulgar perpetrado por coxinhas e mortadelas. De um lado, boa parte das esquerdas se recusa a fazer autocrítica e radicaliza o discurso em torno de um líder messiânico condenado. De outro lado, uma parcela equivalente da sociedade, no oposto contraditório, alinha-se a um candidato radical de direita que tenta se fazer líder messiânico ou, pior ainda, uma parcela prega a volta da ditadura militar. Vejo esses dois fenômenos como as faces de uma mesma moeda. Sobre nosso fenômeno atual, invoco uma frase do pensador Bertrand Russell sobre a Guerra Fria: “Por que as coisas precisam ser angelicamente brancas ou diabolicamente negras”?
Depois de tantas obras já publicadas sobre a guerrilha do Araguaia – incluindo “A lei da selva”, de sua autoria – o que seu livro traz de novo?
STUDART: A Guerrilha do Araguaia é de fato um dos episódios mais comentados da nossa história, mas, paradoxalmente, é dos menos conhecidos. Nesta obra, busquei relatar as vidas daqueles jovens que, movidos essencialmente por sonhos e esperança de influir na construção de um país mais igualitário, se instalaram no coração das selvas amazônicas, sem armas ou provisões, a fim de deflagrar uma revolução absolutamente impossível de ser vencida.
Uma das questões que me intrigam é por qual razão os guerrilheiros permaneceram na área, mesmo depois de constatada a derrota no campo militar? Por que não tentaram se reorganizar em outro local quando as Forças Armadas os cercaram? E, mesmo quando descobriram que o Exército estava executando os prisioneiros, por que, afinal, muitos deles ofereceram-se à imolação certa? Acredito que esse seja o ponto nevrálgico do livro: tentar compreender o lado humano daqueles jovens, incluindo suas fraquezas e erros. Como consequência, a pesquisa consegue descortinar as circunstâncias das mortes da maior parte deles.
Que mitos você derruba e que segredos revela?
STUDART: Cada um dos 21 capítulos é um susto, tomado por revelações. Eu mesmo, quando releio, me surpreendo com a quantidade de informações inéditas, segredos incômodos que tanto os militares quanto os comunistas vêm tentando manter ocultos. Desde a revelação de episódios de barbárie, como um guerrilheiro que teve o pescoço serrado enquanto ainda estava vivo, uma guerrilheira enterrada viva, ou ainda a descrição das execuções de 22 prisioneiros. O livro apresenta o nome de todos os comandantes militares, com as respectivas cadeias de comando de cada campanha. Surpreendeu-me, por exemplo, descobrir que o ex-deputado Sebastião Curió aparece como o 47º na hierarquia dos que combateram no Araguaia. Mas talvez a revelação mais polêmica seja o detalhamento da Operação Mortos Vivos, na qual sete guerrilheiros fizeram delação premiada e trocaram de identidade dentro do programa de proteção às testemunhas.
Afinal, os guerrilheiros do Araguaia lutavam para restaurar a democracia ou para instituir um regime comunista no Brasil?
STUDART: Lutavam para instaurar a ditadura do proletariado, um regime tal qual aquele preconizado pelo ditador soviético Josef Stalin. Disseco esse assunto em um capítulo, “O racha do movimento comunista”. Lembrando que, em 1955, depois da morte de Stalin, o novo líder soviético, Nikita Kruschev, denunciou os crimes do antecessor, renegou as revoluções armadas e anunciou uma nova estratégia de luta, a pacífica, dentro das instituições públicas. O movimento comunista rachou no mundo inteiro, inclusive no Brasil. O tradicional Partido Comunista Brasileiro, o PCB, fundado em 1922 e que estava sob a liderança de Luiz Carlos Prestes, manteve-se sob a batuta de Moscou e adotou a luta pacífica. Um grupo de dissidentes do Comitê Central abandonou o PCB e fundo o Partido Comunista do Brasil, PCdoB, alinhando-se com a China de Mao Tsé-Tung. Desde seu manifesto de fundação, em 1962, a nova organização preconizava a revolução armada como único caminho de atingir a ditadura do proletariado. Em fevereiro de 1964, em pleno governo democrático de João Goulart, os primeiros militantes embarcaram para o curso de guerrilhas na Academia Militar de Pequim. No retorno, já sob a ditadura militar, começaram a se instalar na região do Araguaia. Registro ainda que o PCdoB só começou a aceitar a luta pacífica, dentro da atual democracia representativa brasileira, a partir de 1996. Ainda assim, até hoje não renegou oficialmente o stalinismo ou teceu autocrítica sobre o caminho da luta armada ou da ditadura.
Você escreve que muitos guerrilheiros pousaram na mata como borboletas, movidos pelo sonho de um Brasil mais justo e igualitário, e acabaram se transformando em lobisomens...
STUDART: Para tecer a narrativa, optei por partir de dois guerrilheiros que, quando os combates apertaram, acabaram por assumir a liderança da guerrilha: Dinalva Conceição Teixeira, a Dina, e Osvaldo Orlando Costa, o Osvaldão. Reza a lenda, entre os moradores da região do Araguaia, que Dina virava borboleta e Osvaldão lobisomem. Mais do que personagens da história, ou mitos populares, Dina e Osvaldão se transformaram naquilo que a psicologia chama de arquétipos. A borboleta Dina representa a guerrilheira sonhadora, miúda e bondosa, mas extremamente corajosa. Em qualquer outra cultura, a borboleta simboliza a utopia da transmutação, ou da revolução, de buscar superar o mundo rasteiro para, depois de um período de gestação em crisálida, despontar rumo ao céu. Na alegoria em questão, rumo a uma sociedade mais justa e igualitária.
Já o lobisomem Osvaldão, a representação do gigante carismático, inexpugnável, implacável. Em qualquer cultura, o lobisomem representa o homem dual, um cidadão cujo destino traiçoeiro o transforma em homem-fera, quando perde as estribeiras, fica violento e deixa aflorar seus instintos ancestrais e sua sede de sangue. Construo a narrativa a partir da metáfora da borboleta, desde o período no qual aqueles jovens eram apenas lagartas nas cidades, sonhando com um mundo melhor, até que renascem como borboletas quando os militares chegam e a luta tem início. Em determinado momento, quando instauram o Tribunal Revolucionário e começam a executar camponeses suspeitos de colaboração com os militares, transformam-se em lobisomens. Chegam a executar um companheiro, naquele que é um dos episódios mais polêmicos do livro. Essa parte, o período dos lobisomens na floresta, é aquele no qual o Partido Comunista vem há quatro décadas tentando esconder.
Uma das revelações do livro é que uma guerrilheira manteve uma longa relação amorosa com seu torturador. Foi um caso de "Síndrome de Estocolmo"?
STUDART: Relato esse episódio no capítulo “O Judas do Evangelho”, que discute a busca obsessiva dos dirigentes do partido por encontrar um “traidor”, um “delator” da guerrilha. Busquei mostrar que os guerrilheiros que caíram presos, a começar por José Genoíno, não podem ser apontados como traidores por conta das informações que foram extraídas pelos militares. Ao contrário, são vítimas da mesma história. Nesse contexto, relato o caso de uma guerrilheira, Criméia Almeida, codinome Alice, que também caiu prisioneira. Ela acabou mantendo um caso amoroso por muitos anos com o militar que a interrogou, um sargento do Exército que usava o codinome de Ivan. Há muito que seus amigos e familiares sabem que ela manteve um caso com um militar, mas não sabiam quem.
A questão mais delicada é que Alice levou o amante aos sítios de camponeses aliados da guerrilha. Semanas depois, os militares mataram cinco guerrilheiros justamente nos locais apontados pela guerrilheira. Entre os mortos, o guerrilheiro André Grabois, codinome Zé Carlos, pai do filho dela. Descrevo esse episódio em detalhes, com testemunhas. É muito comum a tal Síndrome de Estocolmo, na qual prisioneiros se envolvem emocionalmente com carcereiros. Pode ter acontecido isso entre Alice e Ivan. O problema maior é que Alice, hoje sob a verdadeira identidade de Criméia, tornou-se a personificação de Torquemada, uma caçadora de supostos traidores, implacável em acusações contra os próprios companheiros que teriam feito revelações a militares tentando sobreviver. Ressalto, contudo, que esse episódio é relatado com a maior serenidade possível, dentro de um contexto maior. Nesse capítulo, acabei sendo duro somente com os dois comandantes que desertaram, abandonando os companheiros à própria morte, Ângelo Arroyo e João Amazonas.


Hugo Studart (Foto: Divulgação)
Fale sobre a pesquisa que resultou no livro.
STUDART: O livro é resultado da minha tese de doutorado em História pela Universidade de Brasília, cujo título original é “As memórias dos guerrilheiros do Araguaia”. Foram nove anos de pesquisa e escrita, na qual tive acesso a cerca de 15 mil páginas de documentos secretos da ditadura. Também acessei as memórias dos guerrilheiros sobreviventes, de militares e de mais de 100 camponeses que participaram do episódio. A tese ficou com mais de 600 páginas e 998 notas de rodapé, algo absurdo. Para publicá-la em livro, passei dois anos reescrevendo tudo, retirando ao máximo o academicismo, acrescentando novos episódios e buscando tecer uma trama com narrativa a mais literária possível. Acredito que tenha conseguido.
Que resistências você enfrentou, como teve acesso aos arquivos e quais foram as suas descobertas mais importantes?
STUDART: Desde 1998 venho formando um acervo pessoal sobre a luta armada no Brasil, sobretudo a rural. Busco os documentos principalmente com militares na reserva, que há décadas resguardam informações relevantes em seus baús. Aliás, registro que quase totalidade das revelações sobre aquele período emergiram de militares, que desde 1996 vêm dialogando com jornalistas ou historiadores. Mas os serviços de inteligência das três Forças Armadas jamais aceitaram abrir seus arquivos. A partir de 2011, passei a fazer parte, na condição de representante da Universidade de Brasília, do Grupo de Trabalho da Presidência que buscou os corpos dos desaparecidos do Araguaia. Foi nessa condição que o então ministro da Defesa, Nelson Jobim, autorizou os pesquisadores do grupo a acessarem os acervos dos extintos SNI e dos Centro de Informações de Segurança da Aeronáutica, CISA. Há muitos documentos interessantes nesses arquivos. O mais revelador, verdadeira Pedra de Roseta, é um levantamento da Agência Central do SNI, de 1996, que aponta o destino da maior parte dos guerrilheiros. Melhor: aponta para os números dos documentos originais e onde estão arquivados. Sobre os documentos, relevante registrar que há muito mito sobre os mesmos. Os militares brasileiros sempre evitavam registrar em papel informações essenciais. O melhor ficou resguardado nas memórias daqueles que participaram da repressão.
Dos guerrilheiros do grupo original, 13 ainda estão vivos, mas nunca foram convidados a registrar suas lembranças da guerrilha. Por quê?
STUDART: Dos 79 militantes comunistas que participaram de alguma forma do episódio, 20 sobreviveram e 13 ainda estão vivos. Paradoxalmente, ainda não haviam sido convidados a contar suas histórias. O PC do B vem contando sua história com destaque especial aos seus comandantes. Os militares também, ainda que façam opção muito mais por silêncios, por hiatos e pelo oculto do que por revelações de fato relevantes. Os trabalhos jornalísticos, por sua vez, reportagens ou livros, têm dado destaque quase absoluto às violações dos direitos humanos perpetradas pelos militares. E quanto às histórias protagonizadas por aquele punhado de jovens? O que pensavam? O que sonhavam? Por qual razão deixaram suas vidas na cidade e foram para lá? Como viviam? Onde estavam suas dores? E quanto a seus amores? Mesmo os 13 sobreviventes jamais tiveram a oportunidade de abrir suas lembranças e revelar suas histórias de forma organizada ou estruturada. O PCdoB nunca os convidou a falar. Tampouco foram chamados a fazer depoimentos orais a instituições de pesquisa. Não narraram a visão que têm sobre o grupo que ajudaram a formar, ou suas trajetórias como sujeitos. Quando no Araguaia, todos eles estavam à sombra dos heróis. E na penumbra permanecem.