Três pagamentos somaram R$ 1,2 milhão
De acordo com as mensagens descritas pela reportagem, os pagamentos foram realizados em três etapas. A primeira, de aproximadamente R$ 535 mil, quitou um financiamento que o antigo proprietário mantinha com o Itaú. O boleto foi pago por Vorcaro em 17 de novembro de 2020. A segunda transferência, de R$ 534 mil, foi destinada à construtora Yuny como sinal pela compra de outro imóvel pelo vendedor. O comprovante foi enviado pelo ex-banqueiro em 22 de dezembro daquele ano. A terceira operação, de R$ 131 mil, foi feita diretamente para a conta de Eduardo Barcellos, antigo proprietário do duplex.
As conversas também indicam que Barcellos cobrou de Vorcaro um saldo de R$ 665 mil e demonstrou preferência por receber antes da assinatura da escritura, alegando que o valor não estava documentado. A escritura foi assinada em 27 de novembro de 2020 e registrou a quitação do financiamento do imóvel, mas não identificou quem havia efetuado o pagamento. Procurado pelo UOL, Barcellos disse não se lembrar da venda e encerrou a ligação após ser confrontado com os detalhes das mensagens.
Vorcaro também teria custeado parte do aluguel
A reportagem aponta que a relação financeira envolvendo o imóvel começou antes da compra. Em 2019, Vorcaro negociou diretamente com o proprietário a locação do apartamento para Isaac Sidney, que então atuava como advogado para o Banco Máxima, nome anterior do Master. Embora o aluguel solicitado fosse de R$ 50 mil mensais, o contrato formal registrou R$ 15 mil por mês, valor atribuído à parte paga por Sidney. O dirigente teria antecipado R$ 174 mil referentes ao primeiro ano, enquanto, segundo as conversas, Vorcaro assumiria a diferença durante 18 meses, além dos impostos. O valor estimado dessa parcela era de R$ 946 mil, com pagamentos realizados entre março e abril de 2019.
Naquele período, Sidney já havia deixado o Banco Central e prestava serviços jurídicos ao Banco Máxima. Ele assumiu a vice-presidência da Febraban em maio de 2019 e chegou à presidência da entidade em março de 2020. O aluguel pago por Vorcaro teria abrangido também parte do período em que Sidney já ocupava cargo na federação. O presidente da Febraban afirma que o contrato foi firmado antes de sua entrada na entidade e que as despesas iniciais com moradia em São Paulo foram pagas a título de honorários advocatícios, sem qualquer vantagem indevida.
Compra incluiu financiamento de R$ 5,5 milhões pelo Master
A escritura do duplex registra que Sidney pagou R$ 1,8 milhão com recursos próprios e financiou os R$ 5,5 milhões restantes junto ao Banco Master. Segundo o UOL, o empréstimo foi quitado 13 meses depois, antes do vencimento da primeira parcela, em razão de um período de carência de um ano. Sidney declarou ter utilizado ativos para liquidar a dívida, que, segundo ele, havia sido cedida a um terceiro. Questionado pela reportagem, não especificou quais ativos foram utilizados.
O dirigente sustenta que o preço do imóvel e as condições da negociação correspondem integralmente ao que consta na escritura e na declaração do Imposto de Renda. Sobre o pagamento do boleto do Itaú, afirmou que acompanhou a operação porque a quitação do saldo devedor era necessária para que o imóvel pudesse ser utilizado como garantia em um novo crédito imobiliário. Ele diz que não participou dos acertos financeiros entre Vorcaro e o antigo proprietário.
Mensagens mostram conversas sobre assuntos regulatórios
Além das transações imobiliárias, a reportagem descreve mensagens entre Vorcaro e Sidney sobre temas relacionados ao Banco Máxima, ao Banco Master e a processos regulatórios. Em uma das conversas, Sidney encaminhou ao banqueiro um despacho da Comissão de Valores Mobiliários (CVM) relacionado a uma investigação sobre suspeita de operação fraudulenta com debêntures. Em agosto de 2020, também enviou um parecer técnico contrário a um acordo proposto por Vorcaro e comentou que havia considerado o documento rigoroso.
As conversas prosseguiram nos anos seguintes. No fim de 2023, quando o Banco Central preparava mudanças nas regras do Fundo Garantidor de Créditos (FGC), Vorcaro reclamou da falta de atenção de Sidney. O presidente da Febraban respondeu que havia saído em defesa do banqueiro em conversas com dirigentes do Banco Central. Em outra mensagem, afirmou: “Lealdade é o maior prestígio que posso lhe oferecer”. Em abril de 2024, Sidney relatou a Vorcaro ter conversado com o ex-ministro Henrique Meirelles, que buscava referências sobre o Master, e disse acreditar que havia conseguido desfazer ressalvas sobre o banco.
Sidney afirma que essas conversas refletiam interlocuções institucionais e que, quando foi procurado por Meirelles, recomendou que ele buscasse a área de fiscalização do Banco Central. Também sustenta que a Febraban alertou a autoridade monetária sobre a concentração de captações garantidas pelo FGC e que foi um dos primeiros dirigentes do setor a apoiar a liquidação do Master.
Proposta de delação foi rejeitada por falta de provas
Na proposta de delação apresentada à Polícia Federal e à Procuradoria-Geral da República (PGR), Vorcaro atribuiu a compra do apartamento a uma suposta contrapartida pela influência de Sidney junto ao Banco Central em favor do banqueiro e do Master. Segundo a versão apresentada pelo ex-controlador, o dirigente teria apoiado a aprovação da mudança de controle acionário do Banco Máxima e facilitado sua aproximação com integrantes do órgão regulador.
A proposta de delação foi rejeitada pela PF e pela PGR por falta de provas. A alegação de Vorcaro, portanto, não foi comprovada apenas pela existência das mensagens e dos pagamentos descritos na reportagem. Sidney nega ter recebido qualquer bem ou vantagem em troca de influência sobre o Banco Central e afirma que a transferência do controle do Banco Máxima para Vorcaro foi autorizada em outubro de 2019, quase seis meses após sua saída do escritório de advocacia. Também declarou que jamais recebeu propriedade do ex-controlador do Master.
O caso levanta questionamentos sobre os pagamentos feitos fora da escritura, o custeio de parte do aluguel e a interlocução entre o banqueiro e o dirigente da Febraban em assuntos relacionados à regulação bancária. A apuração jornalística, contudo, não equivale a uma decisão judicial sobre eventual irregularidade. Até o momento, Sidney nega favorecimento, e a acusação de que os pagamentos teriam sido contrapartida por influência junto ao Banco Central permanece sem comprovação pública conclusiva.

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