- Adão Paiani é advogado em Brasília perante os tribunais superiores.
A banalidade do mal, conceito desenvolvido por Hannah Arendt em Eichmann em Jerusalém: Um relato sobre a banalidade do mal, ajuda a compreender como o intolerável pode ser normalizado quando a ideologia substitui o julgamento crítico. É essa reflexão que o caso da deputada federal eleita Ana Elisa, do PT de Minas Gerais, impõe ao Brasil. Em publicações nas redes sociais, Ana Elisa expressou hostilidade contra pessoas brancas, manifestou posições sobre o aborto e dirigiu declarações agressivas aos cristãos evangélicos. São palavras pelas quais a própria parlamentar deve responder. A responsabilidade é de quem escreve e publica. Ponto. A juventude não é salvo-conduto. Ter 15, 17 ou 21 anos não apaga palavras nem elimina responsabilidades. Tampouco a condição de mulher, a identidade racial ou qualquer outra característica pessoal ou coletiva pode funcionar como imunidade contra a crítica. Uma retratação não encerra o debate. Quem pretende representar centenas de milhares de brasileiros precisa responder pelas ideias que expressa. O mais grave, porém, é a complacência diante dessas manifestações. Ela não se limita à esquerda, cujos setores frequentemente condenam nos adversários aquilo que relativizam nos próprios militantes. Há também pessoas da direita e até católicos que procuram justificar a conduta da deputada alegando que ela é jovem, foi ideologizada ou sofreu uma espécie de lavagem cerebral. É o falso humanismo: invocar a piedade para dispensar alguém da responsabilidade por seus atos. Compreender a influência do ambiente sobre uma pessoa não significa absolvê-la. É possível repudiar as ameaças contra Ana Elisa, cuja autoria e circunstâncias precisam ser apuradas, e, ao mesmo tempo, criticar com firmeza suas declarações. Uma coisa não elimina a outra. É nesse mecanismo de normalização e complacência que a reflexão de Hannah Arendt ganha relevância. O perigo está em abandonar o julgamento moral quando ele contraria nossas preferências políticas. Não é necessário equiparar situações históricas distintas para reconhecer que nenhuma convicção ideológica deveria nos impedir de distinguir o aceitável do intolerável. Ana Elisa se declara católica, mas manifesta posições frontalmente contrárias ao ensinamento da Igreja, como no tema do aborto. Essa contradição interpela também a Igreja Católica brasileira. Cabe questionar a responsabilidade pastoral de setores do episcopado e de correntes progressistas que, sob influência da Teologia da Libertação, aproximaram a atuação religiosa da militância ideológica e relativizaram aspectos fundamentais da doutrina. Quando a identidade católica convive sem aparente conflito com posições que contradizem os ensinamentos da Igreja, é legítimo perguntar que formação de consciência está sendo oferecida aos fiéis. Há ainda uma consequência política incontornável. A esquerda, que historicamente mobilizou trabalhadores em torno de salários, emprego, moradia e combate às desigualdades, vê parcelas de sua militância substituírem essas preocupações pela guerra das identidades, pela patrulha ideológica e pela cultura woke. Essa matriz é destrutiva: fragmenta a sociedade, alimenta antagonismos e transforma diferenças em trincheiras políticas. Não é progresso, mas desagregação social. Ao abrir espaço para esse radicalismo e relativizar condutas intolerantes, a esquerda se afasta de problemas concretos e de parte daqueles que historicamente dizia representar. O resultado eleitoral de 2026 deve ser examinado à luz dessa desconexão, entre outros fatores. O risco de suicídio político surge quando um projeto passa a confundir a radicalização de sua militância com os anseios da sociedade. Ana Elisa recebeu 524.219 votos. Mais de meio milhão de eleitores lhe conferiram um mandato, dando expressiva dimensão política à sua candidatura. Sua votação não permite afirmar que cada eleitor endosse cada uma de suas declarações, mas torna impossível tratar o episódio como irrelevante ou isolado. É justamente a projeção alcançada por uma candidata associada a esse discurso que deveria provocar reflexão. Não se trata de censura, mas de responsabilidade. Nenhuma ideologia tem o monopólio da virtude. Nenhuma causa concede licença para a intolerância. E ninguém deve ser absolvido apenas por pertencer ao campo político, religioso ou ideológico com o qual simpatizamos. A banalidade do mal também se alimenta de quem, em nome de uma suposta tolerância, se recusa a condenar o intolerável. Quando a ideologia silencia a consciência, e o humanismo, por ser falso, deixa de ser virtude e se transforma em cumplicidade.
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