Vinícolas gaúchas querem redução de impostos para competir com vinhos chilenos e argentinos

A diferença de preços entre vinhos brasileiros e importados é um desafio para a vitivinicultura nacional e merece entrar na agenda econômica do próximo governo federal. Na Serra Gaúcha, produtores de marcas reconhecidas, como Miolo, Boscato, Pizzato e Casa Valduga, enfrentam a concorrência de rótulos importados que, em determinadas faixas de mercado, chegam às prateleiras por valores inferiores. Enquanto vinhos nacionais médios dessas marcas podem custar entre R$ 45 e R$ 90, conforme o rótulo e o estabelecimento, produtos de marcas como Concha y Toro, Casa Silva, Norton e Trapiche podem ser encontrados na faixa de R$ 25 a R$ 45. Os valores são referências indicadas para a comparação e variam conforme a safra, a linha, as promoções e a região de venda. 

A discussão, porém, não se resume à carga tributária. O preço final de uma garrafa inclui impostos federais e estaduais, custos de produção, embalagens, logística, distribuição, margens comerciais e condições de negociação com as redes supermercadistas. Além disso, vinhos importados podem se beneficiar de escala produtiva, acordos comerciais e estruturas de custos diferentes. Por isso, uma política de redução de preços para o vinho brasileiro precisaria avaliar toda a cadeia, identificando quais componentes mais pesam sobre o consumidor sem comprometer a arrecadação ou a sustentabilidade dos produtores nacionais. 

Próximo governo pode adotar cinco medidas para reduzir custos 

A primeira frente seria negociar com o Congresso Nacional e o governo do Rio Grande do Sul uma revisão da tributação incidente sobre a produção e a comercialização de vinhos nacionais, com atenção ao ICMS, além de avaliar os tributos federais e os efeitos da reforma tributária. A segunda seria criar mecanismos de crédito e incentivo à modernização das vinícolas, à compra de equipamentos, à automação e à redução dos custos de energia, garrafas, rolhas, embalagens e transporte. A terceira envolveria medidas para ampliar a escala de produção e facilitar a distribuição dos rótulos brasileiros, inclusive por meio de acordos comerciais com supermercados e redução de custos logísticos. 

A quarta medida seria estabelecer uma agenda permanente de competitividade para o setor, reunindo União, governo gaúcho, vinícolas, entidades representativas e varejistas para identificar os componentes que mais encarecem o produto nacional. A quinta seria estimular campanhas de valorização dos vinhos brasileiros e ampliar sua presença nas gôndolas, com melhores condições comerciais, degustações e espaço para rótulos de diferentes faixas de preço. A proposta não deve se limitar a proteger produtores: precisa também permitir que o consumidor encontre vinhos nacionais de qualidade a preços mais acessíveis. 

Concorrência internacional exige atenção 

O desafio tende a aumentar com as mudanças comerciais. O Chile já conta com tarifa de importação zerada no comércio com o Mercosul, conforme o acordo bilateral vigente desde 2015. Em paralelo, o acordo Mercosul-União Europeia prevê redução gradual das tarifas para vinhos europeus, ampliando a pressão competitiva sobre os produtores brasileiros. Nesse cenário, a revisão de custos e tributos internos ganha relevância para a Serra Gaúcha, que concentra centenas de vinícolas e tem peso econômico e turístico para o Rio Grande do Sul. 

O objetivo deve ser construir condições mais equilibradas de concorrência, sem presumir que todo o diferencial de preço decorra de impostos ou que uma redução tributária seja integralmente repassada ao consumidor. O governo poderá estabelecer metas de transparência, acompanhar preços e margens e negociar compromissos com o varejo para que eventuais benefícios cheguem às prateleiras. Fazer o vinho brasileiro caber melhor no bolso do consumidor é uma estratégia para fortalecer a indústria nacional, preservar empregos e valorizar a produção da Serra Gaúcha.

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