Segundo a Emater, 60% das lavouras estão em enchimento de grãos, 27% chegaram à maturação e 4% já foram colhidas. Embora a colheita tenha começado nas áreas mais precoces, a maior parte da produção ainda depende das condições climáticas das próximas semanas. A combinação de precipitações frequentes e baixa incidência de radiação solar prejudica o desenvolvimento dos grãos, enquanto o excesso de umidade aumenta a exposição das plantas a doenças fúngicas e dificulta a execução dos tratamentos fitossanitários.
Os danos são mais evidentes em áreas atingidas por tempestades no Centro-Oeste e no Noroeste gaúcho. Nesses locais, o granizo e os ventos fortes provocaram acamamento das plantas, debulha de espigas e perdas de estruturas reprodutivas. Em determinadas áreas, a intensidade dos eventos meteorológicos comprometeu severamente a capacidade produtiva das lavouras. O cenário também varia conforme a região, o estágio de desenvolvimento das plantas e a suscetibilidade das cultivares utilizadas.
Qualidade dos grãos entra no radar
Além do volume produzido, a qualidade do trigo tornou-se uma preocupação central nesta fase da safra. Nas lavouras em maturação, a permanência da umidade elevada pode reduzir o Peso Hectolitro (PH), indicador relacionado à massa dos grãos por volume. Também aumenta o risco de germinação pré-colheita, processo que pode ocorrer quando os grãos permanecem expostos à umidade antes de serem colhidos.
Esse fenômeno pode comprometer o falling number, índice utilizado para avaliar a atividade enzimática associada à degradação do amido. Valores reduzidos podem prejudicar as propriedades tecnológicas da farinha e limitar a adequação do trigo a determinados usos industriais. Por isso, mesmo quando parte do rendimento é preservada, a deterioração da qualidade pode afetar a classificação comercial dos lotes e seu aproveitamento pela indústria de moagem.
A umidade durante o período reprodutivo também favoreceu a ocorrência de giberela, manchas foliares, ferrugens, oídio e outras doenças. A Emater observa que o excesso de chuvas dificultou a entrada de máquinas nas lavouras e restringiu a aplicação de fungicidas. A situação é especialmente delicada nas áreas em floração e enchimento de grãos, fases em que as condições sanitárias e a disponibilidade de radiação solar influenciam diretamente a formação e o peso final dos grãos.
Regiões apresentam perdas e rendimentos distintos
Na região de Frederico Westphalen, 60% das lavouras estão em enchimento de grãos, 23% em maturação, 10% em florescimento e 7% já foram colhidas. A incidência expressiva de giberela, associada ao excesso de chuva, pode comprometer a produtividade e a qualidade. A estimativa inicial para a região era de 2.965 quilos por hectare.
Na região de Ijuí, aproximadamente metade dos cultivos está em enchimento de grãos, enquanto 28% se encontram em maturação, 19% no final da floração e 3% já foram colhidos. O excesso de umidade e os danos provocados por granizo tendem a reduzir o potencial produtivo. Em Santo Augusto, as primeiras áreas colhidas alcançaram 2.820 quilos por hectare, com PH 78. Apesar desse resultado pontual, a média regional não ultrapassa 2.400 quilos por hectare. Segundo a Emater, a diferença está relacionada, entre outros fatores, à maior suscetibilidade de determinadas cultivares à giberela, doença que afeta tanto o rendimento quanto a qualidade.
Na região de Santa Rosa, 46% das lavouras estão em enchimento de grãos, 44% em maturação, 8% já foram colhidas e 2% permanecem em floração. Os eventos meteorológicos provocaram perdas severas em áreas atingidas por granizo, com acamamento, debulha das espigas e, em determinados locais, perda total das estruturas reprodutivas. O tempo chuvoso e nublado também favoreceu a incidência de giberela e brusone.
Em Santa Maria, as chuvas intensas acompanhadas de vento e granizo registradas no final de setembro deverão provocar redução da produtividade regional. Em Maçambará, a elevada incidência de doenças foliares reduziu o potencial inicialmente estimado. Já em São Gabriel, a infestação de azevém tem ampliado a competição com a cultura. A redução da área foliar verde durante o enchimento, somada às manchas foliares, pode comprometer o peso dos grãos.
Na região de Bagé, em São Borja, metade dos 16 mil hectares cultivados está em maturação, e a colheita deve começar em breve. O potencial produtivo ainda é considerado satisfatório, mas as chuvas no final do ciclo geram preocupação com a qualidade final. Em Passo Fundo, os cultivos também avançam no enchimento de grãos, mas a umidade dificulta a realização dos tratamentos fitossanitários contra doenças fúngicas.
Em Pelotas, 56% das lavouras estão em enchimento de grãos, 36% em florescimento e 8% em desenvolvimento vegetativo. A sequência de dias nublados, chuvas e baixa radiação solar prejudicou o enchimento, enquanto a elevada umidade do solo dificultou o acesso de máquinas para os tratamentos. Nos Campos de Cima da Serra, na região de Caxias do Sul, as lavouras estão no final do alongamento do colmo e no início do espigamento. A condição sanitária é considerada adequada, mas o avanço para essa fase aumenta a exposição das plantas às doenças.
Clima será decisivo para o resultado final
A evolução da colheita e as condições meteorológicas nas próximas semanas serão determinantes para dimensionar as perdas e verificar quanto da produtividade inicialmente projetada poderá ser preservado. A diferença entre regiões mostra que o impacto não é uniforme: enquanto algumas áreas mantêm potencial considerado satisfatório, outras já registram danos associados ao granizo, ao acamamento, às doenças e à menor formação dos grãos.
O desafio para os produtores será colher as lavouras no momento adequado, aproveitando as janelas de tempo firme para reduzir a exposição dos grãos à umidade e limitar novas perdas de qualidade. Além do volume colhido, a classificação do trigo terá peso relevante para o resultado econômico da safra, já que os parâmetros físicos e tecnológicos influenciam a destinação industrial do produto.
Os dados da Emater/RS-Ascar indicam, portanto, uma safra
marcada por diferenças regionais e por riscos crescentes na reta final do
ciclo. A produtividade média de 2.701 quilos por hectare permanece como
estimativa inicial de referência, mas os danos observados em diferentes regiões
e a preocupação com a qualidade mostram que o resultado efetivo dependerá do
comportamento do clima e das condições de colheita.

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