Índia enfrenta onda de protestos após cancelamento de milhões de títulos de eleitores

Uma barata virou símbolo de contestação política na Índia. O chamado Cockroach Janta Party, ou Partido do Povo Barata, nasceu como uma sátira nas redes sociais e ganhou força ao canalizar a indignação de jovens com o desemprego, declarações controversas de autoridades e suspeitas de interferência política no sistema eleitoral. 

A mobilização desafia o governo do primeiro-ministro Narendra Modi, no poder desde 2014, e levou milhares de pessoas às ruas, apesar das barreiras policiais e das restrições impostas pelas autoridades. 

A origem do movimento está em comentários atribuídos a autoridades indianas que associaram jovens desempregados a baratas e parasitas. A declaração provocou uma onda de indignação, ironia e manifestações digitais. Criado por Abhijeet Dipke, estrategista de comunicação política e estudante da Universidade de Boston, o coletivo transformou o insulto em identidade de protesto. 

Sem ser um partido formal, o grupo reúne jovens que usam o humor e a mobilização online para criticar o cenário econômico e político do país. Entre suas referências estão o desemprego e a percepção de que as novas gerações enfrentam dificuldades para conquistar espaço no mercado de trabalho. 

A crise ganhou dimensão institucional com a revisão dos cadastros eleitorais realizada no ano passado. Segundo os relatos divulgados, o processo resultou no cancelamento de aproximadamente 130 milhões de registros. Partidos de oposição acusam a Comissão Eleitoral de excluir eleitores legítimos e favorecer o Bharatiya Janata Party (BJP), legenda de Modi. 

O órgão eleitoral nega irregularidades. Em meio à controvérsia, manifestantes passaram a exigir a saída do chefe da comissão e denunciar o que consideram uma violação do direito ao voto. 

A resposta das autoridades incluiu reforço da segurança, bloqueios de ruas, barricadas e a suspensão de operações em estações de metrô. Segundo relatos da Reuters e da imprensa indiana, milhares de pessoas foram detidas em Nova Déli e Mumbai. O fundador do movimento e outros dois líderes também teriam sido presos ao desembarcar na capital. 

Em imagens divulgadas nas redes sociais, Dipke aparece sendo escoltado para fora de um avião enquanto afirma não ter medo do governo. Para os manifestantes, a disputa vai além de uma sigla política: envolve emprego, representação e confiança nas instituições democráticas. 

O episódio mostra como um símbolo improvável pode transformar frustração social em mobilização política, embora o alcance e a capacidade de organização do movimento ainda dependam de seus próximos passos.

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