Artigo, Marco Aurélio Nogueira, Estadão - A era digital de risco


O mundo político e a opinião pública estão há duas semanas às voltas com o vazamento de conversas telefônicas envolvendo o ministro Sergio Moro e procuradores da Lava Jato. São conversas constrangedoras e inadequadas quando se levam em conta as expectativas do sistema de justiça em que vivemos. As revelações, além do mais, deixam patente algo que todos sabem, mas nem todos levam suficientemente a sério: hoje não há ser vivo que se possa considerar imune a invasões de privacidade. A era digital, com seus recursos e instrumentos, fez com que os dados se tornassem moeda preciosa e facilmente manipulável.

Em entrevista publicada recentemente, o ex-ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Carlos Velloso observou que “hoje, o exercício da função pública é cada vez mais uma profissão de risco. A cada ano a privacidade vai se tornando mais vulnerável”. Para ele, “o que foi feito para facilitar e proteger reverte-se à condição de pesadelo”.

O cenário é sombrio quando se trata de segurança informacional. A revolução digital facilitou muita coisa, ampliou acessos e transparência, mas permitiu também que a vulnerabilidade se expandisse. Na velocidade de um clique, qualquer um pode perder dados valiosos e ter sua identidade virtual sequestrada.

Segundo dados governamentais, em 2018 ocorreram 20,5 mil notificações de incidentes computacionais em órgãos do governo, dos quais 9,9 mil foram confirmados. Desde 2014 o número não fica abaixo de 9 mil. No levantamento feito, 26% do total dos casos são de adulteração de sites públicos por hackers. Em segundo lugar estão os vazamentos de dados, com 20%.

A situação estrutural em que estamos remete ao que o sociólogo alemão Ulrich Beck (1944-2015) chamou de “sociedade de risco”, expressão de uma fase histórica de transições aceleradas e reconfigurações. Em sua formulação, a “sociedade de risco” se tornaria progressivamente o casulo em que habitariam todos os humanos. Um casulo instável, marcado pela incerteza, por ameaças recorrentes e pela dificuldade de planejamento, no qual a vida transcorreria impulsionada pela inovação tecnológica, sem fornecer muitos espaços para a intervenção política. O risco não cairia do céu como uma fatalidade: viria por decisões humanas, “incertezas fabricadas”, rotinas, descuidos.

Quando Beck publicou Sociedade de risco (1986), a vida ainda não estava saturada de tecnologia de comunicação e informação, os celulares mal haviam sido projetados, os computadores e a internet engatinhavam, a própria globalização não havia se aprofundado tanto. Mas Beck antevia que o risco se converteria em companheiro de viagem da humanidade. Ganhos conseguidos como progresso iriam se mostrar carregados de perigo. Chernobyl aconteceria pouco depois da publicação do livro. A paisagem ficaria tingida por tragédias ambientais, crises econômicas sucessivas, tsunamis inesperados, aquecimento global.

A intensificação das relações de troca, de comunicação e de circulação de pessoas para além das fronteiras nacionais fez com que as sociedades nacionais, com seus respectivos governos, passassem a viver sob pressão. Muitos espaços e atores “transnacionais” condicionam as operações estatais. Os Estados não são mais os únicos sujeitos a determinar as leis e o Direito Internacional. Perderam soberania e, com isso, não conseguem mais prover segurança ou proteção para seus cidadãos, nem para seus próprios órgãos e servidores públicos. A vulnerabilidade digital é parte desse quadro.

José Nêumanne, Estadão - Cadê a bomba, Glenn?

José Nêumanne, Estadão - Cadê a bomba, Glenn?


Interpretação dada na Band News sobre eventuais mensagens trocadas entre procuradores da força-tarefa da Lava Jato não contêm ilegalidades pretendidas na atuação do então juiz da operação e atual ministro da Justiça, Moro

Divulgação de mensagens, que não se sabe se são autênticas, contendo observações (e não mais do que isso) sobre a participação da procuradora federal Laura Tessler num processo da Lava Jato, foi reproduzida por Reinaldo Azevedo na rádio FM Band News. Mas não teve o impacto com que contavam a defesa de Lula e os inimigos da Lava Jato diante dos fatos de as revelações não terem sido até agora atestadas como verídicas e por não haver correspondência da versão com o fato. O site O Antagonista definiu a tentativa como “pastel de vento” requentado e Glenn Geenwald ainda está por apresentar a bomba com que pretende demolir a reputação de Moro.
https://soundcloud.com/jose-neumanne-pinto/neumanne-21062019-direto-ao-assunto
Assuntos para o comentário da sexta-feira 21 de junho de 2019-06-20
1 – A divulgação pelo blogueiro Glenn Greenwald de que Conselho do Ministério Público criticou a procuradora do processo de Lula por críticas do ministro da Justiça, Sergio Moro, feitas pelo aplicativo telefônico russo Telegram
2  O que você acha que o ministro da Economia, Paulo Guedes, e o novo presidente do BNDES, Gustavo Montezano, podem fazer a respeito do prejuízo dos bancos públicos no caso da recuperação judicial da empreiteira Odebrecht
3 – Você acha que o presidente Jair Bolsonaro agiu corretamente ou cometeu um erro ao demitir o general Juarez Cunha da presidência dos Correios e nomear o general Floriano Peixoto para o lugar, provocando a segunda troca em menos de seis meses na Secretaria de Governo
4 – Segundo manchete do Estadão de hoje, “Bolsonaro contraria discurso de campanha e admite reeleição”. Isso muda alguma coisa de essencial na democracia brasileira hoje?
5 – Que avaliação você faz da participação do senador Renan Calheiros no interrogatório do ex-juiz Sérgio Moron na CCJ do Senado
6 – Quem teve razão no debate entre o ministro da Justiça e o senador Jaques Wagner, que cobrou um paralelo entre o hacker que invadiu celulares de autoridades que atuam no combate à corrupção e a queda do sigilo telefônico do presidente Lula em chamada à ex-presidente Dilma
7 – Por que, na sua opinião, o ministro da Justiça repreendeu o senador petista Rogério Carvalho, que criticou uma eventual troca de mensagens entre Moro e a oitava turma do Tribunal Federal Regional da 4.ª Região que teria influído na condenação de Lula em segunda instância.


Famílias da Nazaré recebem casas


As primeiras famílias da Vila Nazaré foram reassentadas nesta sexta-feira-21, no Loteamento Senhor do Bom Fim, no bairro Sarandi. Agentes comunitários do Departamento Municipal de Habitação (Demhab) acompanharam o processo, que transcorreu com tranquilidade. A prefeitura cedeu o terreno e firmou convênio com a Caixa Econômica Federal para a construção das moradias por meio do programa Minha Casa Minha Vida.  A assinatura dos contratos com 112 famílias foi  realizado na quarta-feira, 19, e na próxima semana, mais 16 famílias assinam os contratos, totalizando 128, da primeira etapa de mudanças. Assim, será possível a continuidade das obras de ampliação da pista do Aeroporto Salgado Filho. 
 “Este é um dia especial para essas pessoas e gratificante para nós que trabalhamos na política habitacional de Porto Alegre. As famílias agora vão morar com dignidade e realizar o sonho da casa própria. Chegar a este momento é o que nos motiva a trabalhar com todas essas comunidades e vê-las começar uma nova história de vida”, frisa o superintendente de Ação Social e Habitação do Demhab, Emerson Côrrea.
Nas primeiras horas da manhã, os caminhões chegaram para carregar os móveis e objetos. As famílias serão reassentadas em casas e apartamentos com dois dormitórios, sala, cozinha, banheiro, área de serviços e aquecimento com energia solar. A primeira a estar com tudo pronto foi Vera Regina Monteiro. “Um sonho realizado. Agora vou poder até andar de ônibus e passear. Aqui eu não tinha como sair”, explica ela que é cadeirante.
As primeiras quatro mudanças serão de pessoas com deficiência ou dificuldades de locomoção. As demais famílias seguem o cronograma montado pelo  Departamento Municipal de Habitação (Demhab). Assim que as antigas casas ficam vazias são demolidas para evitar futuras invasões. João Alberto Reck de Souza foi o segundo morador a estar pronto. “Até o inicio da tarde queremos estar na casa nova. Isso é muito bom. A gente precisava sair daqui”, afirma.
A chegada no Loteamento Senhor do Bom Fim, no bairro Sarandi, não foi menos emocionante. Vera, a primeira a chegar, era só felicidade. “Que alegria! Finalmente na minha casa. Agora vou comprar um armário novo, quero ver minhas coisas todas arrumadinhas, tudo organizado”, comemora.  A Fraport concedeu voucher-compras no valor de R$ 2 mil para as famílias adquirirem  móveis  ou utensílios para as novas moradias.
Os moradores receberão também uma cartilha criada pela Fraport, Caixa Federal e Demhab com  informações básicas para as famílias que serão reassentadas. A peça inclui a planta das casas e apartamentos, dicas de cuidado com a nova unidade, telefones úteis da região, tarifas sociais e de descarte sustentável de lixo. 
Histórico - Em abril foram realizados os sorteios das casas para as pessoas com deficiência e dificuldades de locomoção e apartamentos para os demais das 128 famílias que farão a mudança ainda no mês de junho. A prefeitura oferece dois empreendimentos e a transferência será  em duas etapas. A primeira com 128 famílias transferidas para o condomínio Senhor do Bom Fim. A segunda etapa, até o final do ano, disponibiliza unidades para mais 236 famílias no Senhor do Bom Fim e 936 no condomínio Irmãos Maristas, que está em fase final de construção. A prefeitura trabalha para assegurar que, nos dois empreendimentos, as famílias tenham acesso à creche, escola e posto de saúde. Ambos os empreendimentos também terão unidades comerciais, para aqueles que já possuírem estabelecimentos na Vila Nazaré.


Nota do Ministério Público Federal


“A força-tarefa Lava Jato do Ministério Público Federal no Paraná (MPF/PR) vem a público repudiar notícia falsa sobre troca de procuradores em audiência do caso Triplex por meio de publicação rasa, equivocada e sem checagem dos fatos pelo blogueiro Reinaldo Azevedo.

Conforme é público, a procuradora da República Laura Tessler participou, na manhã de 13/03/2017, de audiência em ação penal em que acusado o ex-ministro Antônio Palocci (autos nº 5054932-88.2016.404.7000). Além de seguir realizando a audiência na tarde do mesmo dia, a procuradora participou de todas as subsequentes do caso, nos dias 14/03/2017, 15/03/2017, 21/03/2017, e 22/03/2017.

Como sempre, sua atuação firme, técnica e dedicada contribuiu decisivamente para a condenação, somente nesse caso, de 13 réus acusados de corrupção e lavagem de dinheiro a mais de 90 anos de prisão, incluindo o ex-ministro Antônio Palocci. Integrante da Lava Jato no MPF desde 2015, a procuradora Laura Tessler seguiu e segue responsável por diversas investigações e ações criminais, realizando todos os atos processuais necessários, incluindo audiências, contando com toda a confiança da força-tarefa na sua condução altamente profissional, cuidadosa e obstinada no combate à corrupção.

Ou seja, não houve qualquer alteração na sistemática de acompanhamento de ações penais por parte de membros da força-tarefa. Assim, os procuradores e procuradoras responsáveis pelo desenvolvimento de cada caso acompanharam as principais audiências até o interrogatório, não se cogitando em nenhum momento de substituição de membros, até porque todos vêm desenvolvendo seus trabalhos com profissionalismo, competência e seriedade.

Também como é público, os procuradores da República Júlio Noronha e Roberson Pozzobon, que participaram em 11/05/2017 do interrogatório de Lula na ação penal sobre o triplex no Guarujá (autos nº 5046512-94.2016.404.7000), foram os mesmos que estiveram presentes nas principais medidas investigatórias do caso em 04/03/2016 (como na oitiva do ex-presidente no aeroporto de Congonhas e na busca no Instituto Lula), na exposição pública do conteúdo da denúncia em 14/09/2016, e em 16 das 18 audiências judiciais do caso realizadas no ano de 2017.

Além de desrespeitosa, mentirosa e sem contexto, a publicação de Reinaldo Azevedo não realizou a devida apuração, que, por meio de simples consulta aos autos públicos acima mencionados, evitaria divulgar movimento fantasioso de troca de procuradores para ofender o trabalho e os integrantes da força-tarefa. Como o site “The Intercept Brasil”, de quem se diz parceiro, Reinaldo Azevedo, de modo tendencioso, tentou criar artificialmente uma realidade inexistente para dar suporte a teses que favoreçam condenados por corrupção e lavagem de dinheiro na Lava Jato.

Para suas absurdas conclusões, o blogueiro usou material cuja autenticidade não foi confirmada, reforçando o aparente intuito de criar notícias às custas de publicações que distorcem supostas conversas entre autoridades, atacando o Sistema de Justiça e as instituições da República, na mesma linha do que verificado nos ataques cibernéticos. A suposta versão, que não resiste a uma mínima análise crítica diante dos fatos públicos, indica que a fábrica de narrativas político-partidárias baseadas em supostos diálogos sem autenticidade e integridade comprovadas somente leva à perda de credibilidade de quem delas se utiliza sem a devida apuração.

Todas as informações sobre as ações penais referidas podem ser consultadas no site da Justiça Federal:

a) Ação penal sobre o triplex no Guarujá: autos nº 5046512-94.2016.404.7000 (Chave eletrônica: 162567218816);

b) Ação penal envolvendo o ex-ministro Antônio Palocci: autos nº 5054932-88.2016.404.7000 (Chave eletrônica: 111718380216).”

Snowden, asilado na Rússia, foi aliado de Greenwald na espionagem da CIA e NSA


As pistas da principal linha de investigação levam à Rússia. É onde reside o americano Edward Snowden, notório aliado do jornalista Glenn Greenwald, dono do site The Intercept Brasil. Em 2013, Snowden se aproximou dos irmãos bilionários Nikolai e Pavel Durov, que criaram o Telegram, um sistema de comunicação por mensagens similar ao Whatsapp. A PF suspeita que Snowden possa estar por trás do esquema de bisbilhotagem e divulgação das mensagens de membros do Ministério Público Federal. Recentemente, Snowden elogiou o Telegram por sua resiliência na Rússia, depois que o governo proibiu o aplicativo e pressionou para que liberasse o acesso às mensagens privadas dos usuários. Na PF, há quem acredite que o americano refugiado na Rússia possa ter se valido de recentes contatos com os Durov para ter acesso aos diálogos envolvendo as autoridades brasileiras.
Condinome: “lucky12345”
A partir da investigação sobre os passos de Snowden, informantes do Brasil na Rússia puxaram um outro fio do novelo: o que leva a Evgeniy Mikhailovich Bogachev, de 33 anos. Criador do vírus Cryptolocker e do ardiloso código Zeus, ele é procurado pelo FBI americano por crimes cibernéticos. Um rastreamento identificou que Slavic ou “lucky12345”, como é conhecido, teria recebido US$ 308 mil em bitcoins (a moeda virtual). Resta saber se o depósito foi realmente a contrapartida financeira por ele ter participado do processo de quebra do sigilo telefônico dos procuradores. O dinheiro teria circulado pelo Panamá antes de chegar a Anapa, na Rússia, onde foi transformado em rublos. Na última semana, o nome do agente russo veio à tona pela primeira vez através de um perfil anônimo no twitter. Embora parecesse inverossímil num primeiro momento, por conter erros de grafia e tradução, ISTOÉ confirmou que a PF segue sim o rastro da pista, considerada importante pelos agentes hoje à frente do caso. Em especial, pelos indícios de que Slavic, uma espécie de laranja no esquema, possa estar ligado a Snowden. Um relatório de segurança da Ucrânia aponta que “lucky12345” atua sob a supervisão de uma unidade da espionagem russa.
Mas por que os bilionários irmãos Nikolai e Pavel Durov, do Telegram, se aliariam a Snowden e Slavic na tentativa de desqualificar a principal operação de combate à corrupção da história recente do Brasil? Agentes da PF colheram informações que os levam a crer que os Durov, atualmente abrigados em Dubai, podem ter agido com motivações puramente ideológicas. Adeptos do islã, eles teriam ficado enfurecidos com a proverbial predileção do presidente Jair Bolsonaro por Israel em detrimento aos árabes. Em abril, depois de recebido com honras pelo premiê Benjamin Netanyahu, o presidente anunciou a criação de um escritório de negócios em Jerusalém “para a promoção de comércio, investimentos e intercâmbio” bilaterais. Netanyahu saudou a abertura de um gabinete brasileiro na cidade e pediu que aquele fosse o primeiro passo para a abertura da embaixada brasileira em Jerusalém – o que provocou a ira dos islâmicos e, consequentemente, dos Durov. Bolsonaro, ao alcançar o poder, foi o principal beneficiário da Lava Jato, conduzida por Moro. Desmoralizar o juiz e a Lava Jato significaria enfraquecer o bolsonarismo e trazer a esquerda lulista de volta ao jogo. Confirmada a tese, Greenwald teria sido a ponta final da operação comandada pelo trio Snowden, Slavic e Durov.
Não custa lembrar que Greenwald e Snowden foram parceiros num trabalho desenvolvido em 2013 e que expôs dados secretos da Agência de Segurança Nacional (NSA), do governo dos EUA. O material interceptado por Snowden, também de forma ilegal, foi divulgado por Greenwald no jornal inglês The Guardian e em outros jornais pelo mundo afora, como O Globo, no Brasil. Graças aos documentos vazados, o jornalista ganhou os prêmios Pulitzer e Esso. Pressionado a divulgar detalhes de sua operação, Snowden acabou se asilando na Rússia, onde passou a ser protegido pelo presidente Vladimir Putin. Enquanto que Greenwald se refugiou no Brasil, casando-se com o brasileiro David Miranda, atual deputado federal pelo PSOL e acabou fixando residência no Rio de Janeiro, de onde opera o The Intercept Brasil. Atualmente, Snowden é presidente da Freedom of the Press Foundation. Um dos co-fundadores é Greenwald. Na última semana, a PF considerou realizar uma operação de busca e apreensão dos computadores do dono do The Intercept e conduzi-lo para prestar depoimento, mas fontes ligadas ao ministro entenderam que esse fato poderia transformar o jornalista em mártir e o governo ainda corria o risco de ser acusado de cercear a liberdade de imprensa.

Polícia Federal acha que Greenwald espiona junto com Telegram (Dubai) e Snowden (Rússia)

A Polícia Federal já está muito próxima do jornalista estrangeiro Glenn Greenwald, que vem usando material criminoso para denunciar autoridades da República.Para a PF, Nikolai e Pavel Durov, do Telegram, teriam se aliado a Snowden, Slavic e Greenwald por razões ideológicas

É o que conta o jornalista Germano Oliveira na Istoé de hoje.


A PF já sabe que o acesso ilegal ao aplicativo Telegram dos procuradores não foi realizado por amadores, conta a revista.

Algo é certo: a PF já sabe que o acesso ilegal ao aplicativo Telegram dos procuradores não foi realizado por amadores. “Não foi uma ação de um adolescente por trás de um computador. Tratou-se de um trabalho feito por uma organização criminosa altamente especializada”, endossou Moro em depoimento que prestou no Senado na quarta-feira 19. De fato, segundo fontes da PF, o trabalho de hackers na quebra de sigilo de celulares e computadores foi coisa de profissional. Além de envolver equipamentos caríssimos que alcançam a casa dos milhões de dólares, fogem completamente do padrão de hackers de menor poder destrutivo, conhecidos como “defacements”, que se notabilizaram por fazer as chamadas “pichações políticas” em sites e organizar malfadados ataques a transações bancárias. No dia 4, o suposto hacker tentou se passar pelo ministro da Justiça enviando uma mensagem a um funcionário do gabinete de Moro, depois de ativar uma conta no Telegram.

O DESIGNADO O delegado Maurício Valeixo, diretor-geral da PF, está à frente da operação destinada a encontrar os responsáveis pela violação das conversas (Crédito:Divulgação)
Sem descartar as pistas que surgem pelo caminho, na última semana, a PF adicionou uma organização criminosa que operava em Santa Catarina ao rol dos suspeitos. Na terça-feira 18, a PF desencadeou a operação “Chabu” (vulgo “deu errado”) em Florianópolis, com o cumprimento de sete mandados de prisão e 23 de busca e apreensão. O objetivo foi a desarticulação de uma quadrilha que vinha quebrando sigilos de autoridades no estado para o vazamento de operações policiais e ações de órgãos públicos. Para a PF, a quadrilha pode estar envolvida na operação de hackeamento dos celulares dos procuradores do Paraná.
Para a PF, Nikolai e Pavel Durov, do Telegram, teriam se aliado a Snowden, Slavic e Greenwald por razões ideológicas

Entre os presos, está o delegado da PF Fernando Amaro de Moraes Caieron e o policial rodoviário federal Marcelo Roberto Paiva Winter, ambos especializados em crimes cibernéticos e tráfico de drogas. Foram presos ainda o prefeito de Florianópolis, Gean Loureiro (sem partido), e o ex-chefe da Casa Civil Luciano Veloso Lima. Todos eles utilizavam a estrutura da empresa Nexxera, de tecnologia, para cometer as ilegalidades. Segundo fontes ligadas ao diretor-geral da PF, Maurício Valeixo, a análise dos documentos apreendidos será decisiva para apontar a existência do elo do grupo com os hackers da Lava Jato. Assim como a conexão Brasil-Rússia-Dubai, o elucidamento do caso parece estar próximo. Quem acompanha as investigações assegura: se os indícios encontrados até agora se confirmarem, a PF estará bem perto mudar o rumo do rumoroso episódio que monopolizou as atenções dos brasileiros nas últimas semanas.


Artigo, Mário Rosa, Poder360 - Volta o filme: como é que é? Grampos agora vêm do céu?


Sabe o que mais me surpreende em todas essas mensagens do Intercept? Não, não são conteúdos pra lá de reveladores. O que é de espantar é a ética pendular adotada por alguns jornalistas e órgãos de imprensa e arautos da moralidade diante do fato: sim, alguns se travestem de um súbito e implacável espírito legalista.

Acho espetacular! Só não é coerente. Pois em muitos outros casos do passado, a imprensa se lambuzou com conteúdos de origem cri-mi-no-sa e… fez isso corretamente! Pois o fez em nome do interesse público. Com isso não quero dizer que o ministro Sergio Moro não mereça toda a solidariedade e o respeito, sobretudo por tudo de bom que a Lava Jato fez pelo Brasil, especialmente no tocante ao quesito corajoso do combate à corrupção. Mas… por favor, colegas, arautos, a liberdade de expressão permite tudo, permite inclusive incoerências. Mas a História está aí. Desculpem.

Ora, alguém se esquece da “Tele Gangue”, o escândalo que abalou o segundo governo Fernando Henrique Cardoso? Eram só gravações clandestinas. Só e apenas isso. Feitas contra as maiores autoridades da República. E… toda a imprensa, todinha, se esbaldou nela sem dó nem piedade. Sem contar a compra de votos para a reeleição de FHC. Gravações de um tal de Senhor X. Eram provas do ponto de vista jurídico inquestionáveis? Talvez sim, talvez não. E o essencial: eram relevantes? Eram. E era o que importava.

E o Mensalão? Sim, ele mesmo. O primeiro abalo moral do petismo.  Mostrava uma filmagem de um funcionário de quinto escalão dos correios, Maurício Marinho, recebendo 5 mil reais. Gravação legal? Ora pois! Mas foi veiculada e se a internet existisse naquela época com a força de hoje poderíamos dizer que “viralizou”.

Agora mesmo, com Neymar: todo mundo se preocupou em dar uma olhadinha na legislação para saber se aquelas imagens amplamente difundidas em reportagens e portais eram compatíveis com as leis e os princípios digitais? E o que dizer de todos, to-dos, todinhos, sem exceção, absolutamente todos, os escândalos dos últimos anos?

Ora, senhoras leitoras, senhores leitores, toda vez que vocês esbarram com o chamado “furo” de uma investigação o que está acontecendo ali quase sempre tem também um outro nome: ilegalidade. Quer ver? Alguma emissora ou jornal ficou choramingando as horas e horas de vazamento i-le-gal sobre a contabilidade do senador Flávio Bolsonaro? Não! E não fizeram isso porque não estavam cometendo crime nenhum. Crime estava cometendo, e cometeu, a autoridade que quebrou a inviolabilidade do segredo de justiça.

Os jornalistas que obtiveram a informação, mesmo que de fonte i-le-gal, fizeram… jornalismo. E eu não vi matérias nas mesmas emissoras e nos mesmos jornais que publicaram esses fatos se autoquestionando por estarem cumprindo sua missão com a sociedade: trazerem fatos relevantes ao público, fazendo, assim, jornalismo. E o que dizer da própria Lava Jato? Não falo em relação ao PT ou em relação ao ex-presidente Lula não. Falo em relação a todos os investigados.

Ora, foi o maior festival mundial de vazamentos de informações, dados bancários, áudios, documentos, contas no Brasil e no exterior de que já se teve notícia. E tudo isso virou notícia. E, assim como a operação Mãos Limpas, essa imprensa sempre afiada e inundada por denúncias tóxicas enauseou a sociedade e deu forças para que a investigação avançasse.

E agora vem-se falar de origem criminosa dos conteúdos? Com todo o respeito: todos os vazamentos dos últimos anos foram criminosos e se justificaram no fiapo moral de sua relevância para a sociedade. E entender os critérios de funcionamento dessa que é a mais importante operação de combate à corrupção da história do Brasil não é uma justificativa para além do razoável?

Discutir origens nesse caso, sem que jamais se tenha discutido em todos os outros, é apenas um subterfúgio para não discutir o caso e suas revelações. Por que a Lava Jato, tão ciente dessa barbaridade agora, não se levantou com o mesmo vigor em todos esses e outros casos do passado?

Ou todos os áudios e vídeos da JBS que vazaram vieram a público de maneira absolutamente legal? Claro que não! E ainda assim serviriam para estraçalhar próceres de diversos partidos. Lembra da gravação do Aécio? Do Temer? Da foto dos milhões atribuídos ao Geddel? De todas as delações premiadas amplamente difundidas, em vídeo? Das horas de filmagens falando horrores de todos os políticos?

Pois é: nada daquilo podia estar nas telas, nos jornais ou nas rádios, nos portais. Era cri-me, ilegal. E de onde surge agora o Supremo Tribunal Federal da Ética Jornalística para atuar e atuar num caso só? A imprensa estava fazendo jornalismo, como é jornalismo colocar para a sociedade segredos dos poderosos, mesmo que da Lava Jato.

Os criminosos é que devem ser punidos e não a imprensa se autoquestionar, sobretudo isoladamente, seletivamente. Ah, sim: e o famoso “cheque do Fiat Elba”, o fragmento tão festejado da hoje bolorenta CPI do caso PC Farias? Foi a “prova” de que o então presidente Collor mantinha laços com as contas fantasmas de PC Farias. Não me lembro de ninguém falar que a origem daquele vazamento era um crime. E era, pois se tratava de documento sob segredo de Justiça.

Sabe qual é o problema das moralidades de ocasião? A História. Essa menina travessa que desmascara e põe a nu as contradições e imposturas.