Artigo, Renato Sant'Ana - Nem Deus escapa: a fé como disfarce

Um grupo de indivíduos, autodenominado Movimento Espírita Progressista, sem nome nem cara de ninguém, lançou nas redes sociais um manifesto para manipular a convicção dos kardecistas e induzi-los a darem seu voto a um candidato que, como se verá, afronta os fundamentos do Espiritismo.

E quem é o candidato? É aquele que não fez cerimônia para dizer que seu objetivo na presidência da República é vingar-se dos seus inimigos: "(...) estou aqui para me vingar dessa gente" (entrevista ao Portal Brasil 247, em 21/03/2023)

Eu não preciso ser espírita para saber que o ódio e a vingança não se coadunam com a doutrina de Allan Kardek.

Sim, ele é o chefe de uma facção política que tem por método a mentira, que opera no ódio, que encara adversários como inimigos, que só cumpre a Constituição quando convém ou quando é inevitável, uma linha ideológica de corte revolucionário que, como estratégia para formar um ser humano moldado a um modelo autoritário de Estado, procura subverter os valores da chamada cultura ocidental cristã.

É oportuno dizer que esse candidato, defendido por sedizentes espíritas, é de um partido que propõe a legalização do aborto e a liberação das drogas, referindo aqui só dois temas em que o kardecismo jamais poderia concordar com essa gente, duas questões essenciais do espiritismo.

Tem mais. Ele teve duas condenações na Lava Jato, sentenças dadas por um magistrado de 1º grau, confirmadas por três magistrados de 2º grau e mantidas num colegiado de cinco magistrados em tribunal superior. Quer dizer, nove magistrados examinaram as alegações do Ministério Público e as provas da polícia federal e o condenaram a 26 anos de prisão.

Porém, ele falta à verdade, dizendo-se absolvido e acusando os outros de terem agido para impedir-lhe a candidatura. Em entrevista à TV Globo, repetiu isso e se traiu: "Só foi provada a [minha] inocência quando o processo foi anulado": anulação de processo não prova inocência. Sobre isso, vários ministros do STF declararam e jornais veicularam: o que houve foi uma "anulação formal" dos processos, o que, no dizer deles, não nega a existência da corrupção apontada (com bilhões recuperados). E conhecemos bem o "casuísmo" de tal anulação. (Aliás, a Lava Jato começou em março de 2014, longe de cogitações eleitorais.)

Ódio, vingança, mentira, o que mais falta? Eu não preciso ser devoto de nada para captar a incoerência de quem forjou o tal manifesto. Eu sei o que está escrito no Evangelho: "... e conhecereis a verdade, e a verdade vos libertará" (João 8:32). Tais palavras são um farol para quem queira cultivar a integridade. E só falsos espíritas desprezam-nas, tentando apagá-las na consciência dos simples.

Ninguém é espírita sem estudar o "Livro dos espíritos", de Allan Kardec. Nele está posto que "o meio prático mais eficaz que tem o homem de se melhorar nesta vida e de resistir à atração do mal" é o autoconhecimento (questão 919). Para o espiritismo, a "melhoria íntima" é condição para o progresso pessoal e para a evolução da sociedade, o que não é possível sem autoconhecimento. Pergunto: alguém que diz seguir o Espiritismo pode apoiar quem se opõe à evolução do espírito? Uma ideologia que fomenta o ressentimento e o vitimismo, que, em vez de criar laços fraternos e unir as pessoas, separa-as, jogando negros contra brancos, mulheres contra homens, irmãos do Nordeste contra irmãos do Sul, homo contra heteros e assim por diante, vai totalmente contra a evolução do espírito.

Muito mais se teria a dizer. Porém, abreviando, lembremos. Nos últimos 24 anos, tivemos 18 de governos dessa gente e, em todos os mandatos, escândalos. No mandato atual, há o caso Master, com envolvimento direto de estrelas do partido; e a fraude do INSS, em que se estima que R$ 6 bilhões foram subtraídos dos mais necessitados, com a participação de aliados e, segundo a polícia federal, até de familiares do candidato. Um dos resultados da atuação praticamente hegemônica de tal ideologia em tantos anos é a educação formal no fundo do poço: na escola pública, jovens terminam o ensino médio sem saber ler (na escola privada não é muito diferente). E esse não é o único sintoma.


Ah, mas a retórica populista do candidato exalta os pobres, desdenha as elites e despreza qualquer empreendedor (menos os que o favorecem). E os espíritas "fake" aí evocam o lema do Espiritismo: "Fora da caridade não há salvação", como se fosse por caridade, não para manter o eleitor no cabresto, que o governo faz assistencialismo sem critério. O Espiritismo dá à caridade um sentido muito mais amplo, profundo e transformador, que não é compatível com ódio, vingança, mentira nem apego ao poder.

Nada traduz melhor o cinismo do tal manifesto do que a imagem clássica do "lobo em pele de cordeiro": não, isso não foi escrito por espíritas.

Clique no link e leia: Camaleões e a arte de enganar

https://blogdopolibiobraga.blogspot.com/2022/10/artigo-renato-santana-camaleoes-e-arte.html



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