Renato Sant'Ana é Advogado e Psicólogo.
E-mail: releituras21@gmail.com
"Pessoas sensatas, com valores bem afirmados, que optam por não votar deixam que suas vidas sejam decididas por fanáticos movidos por ódio e com espírito destrutivo", ouvi afirmar um jornalista veterano. E suas palavras pareceram-me ter sentido.
Lembrei o que houve nas eleições presidenciais do Chile em 1970. Foram 36,2% dos votos válidos que elegeram Salvador Allende. Seus oponentes, Jorge Alessandri Rodríguez e Radomiro Tomic Romero, somados, receberam 62,70% dos votos válidos. E cerca de 17% dos eleitores habilitados não votaram, número que se pode dizer baixo. Não tinha 2º turno. Foi tudo dentro da regra. Portanto, o eleito, embora rejeitado por uma maioria, tinha legitimidade plena para governar.
Mas o que veio a seguir é uma história triste. Pode ser simplificada em dois capítulos, fatos documentados que não geram controvérsia a não ser em mesas de bar.
No primeiro capítulo, Allende, que se dizia numa "guerra não declarada", formou seu governo com uma coalizão de grupos cujo método de ação era a guerrilha e o terror, com destaque para o agressivo MIR (Movimiento de Izquierda Revolucionaria), fundado para fazer a luta armada. Durante seu governo, os socialistas introduziram no país uma imensa quantidade de armas: planejavam uma guerra civil. Sua segurança como presidente, em vez de ser feita pelas forças armadas ou pela polícia, coube ao chamado Grupo Amigos do Presidente, guerrilheiros com instrução militar recebida em Cuba e chefiados por um membro do Serviço de Inteligência cubano.
A melhor síntese de Allende está no livro "O Arquivo Mitrokhin", de Vasily Mitrokhin (um desertor da KGB, a temível polícia secreta da União Soviética) e Christopher Andrew (historiador). A obra traz informações confidenciais da KGB. E revela que Salvador Allende era um agente pago do serviço secreto soviético: recebia seu "soldo" das mãos de Svyatoslav Kuznetsov, espião da KGB no Chile. Note-se que o crime de alta traição de Allende só veio a ser conhecido em 2005, com a publicação do livro.
O segundo capítulo é bem conhecido, relembrado à exaustão por acadêmicos que costumam esquecer o primeiro. Começa com a quartelada de 11/09/1973, que depôs Salvador Allende, instaurando o regime militar sob comando de Augusto Pinochet. Uma ditadura sangrenta que durou 17 anos, marcada por violações de direitos fundamentais, muitas mortes por motivos políticos, cerceamento das liberdades e tudo mais que teve e tem ampla divulgação. A história julgou e condenou Pinochet por vários crimes.
Mas por que evocar o drama chileno? Para, quem sabe, com ele aprender algo. Fica claro que regimes autoritários matam a liberdade e promovem uma Disneyland para psicopatas, em que a crueldade e a impunidade andam juntas: a maior ameaça para as pessoas comuns não vem de gente graduada, mas do guarda de esquina e das denúncias anônimas feitas por quem quer provar lealdade aos detentores do poder, que não respeitam o direito de defesa dos denunciados. Foi assim com Allende, foi assim com Pinochet. Quer dizer, tanto faz se é de esquerda ou de direita: o autoritarismo é sempre mau, injusto e repudiável.
Porém, a lição chilena que mais importa e que nos remete à frase com que inicia este comentário é a inconveniência de que o futuro do país seja decidido por uma minoria. No Brasil, há dois turnos para as eleições majoritárias, o que faculta decidir pela vontade da maioria.
Não há por que tapar o sol com a peneira: há e sempre houve uma minoria fanática que se farda para a "luta" e, obstinada, não deixa de votar. Já a maioria, que se ocupa mais de aspectos concretos e inadiáveis da vida e não se mete em debates políticos, facilmente se deixa abater, perde o ânimo e não vai votar. E não pondera o apontado pelo velho jornalista, o risco de que sua vida esteja sendo decidida por "fanáticos movidos por ódio e com espírito destrutivo".
Há como ignorar que, para alguns setores da política, é conveniente que "pessoas sensatas, com valores bem afirmados" caiam no desânimo e não compareçam às urnas? Se isso for fato, então a rebeldia sensata será votar, reagindo contra conveniências indignas e não confessadas.
Leia e entenda mais sobre Allende aqui:
https://blogdopolibiobraga.blogspot.com/2023/10/a-verdadeira-face-de-salvador-allende.html
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