Neste domingo, 4 de outubro, os brasileiros voltarão às urnas. Em dezembro passado, alertei para o risco de chegarmos a outra eleição presidencial sem enfrentar uma questão importante: a distância entre as garantias técnicas oferecidas pela Justiça Eleitoral e a possibilidade de o próprio eleitor conferir um registro independente de seu voto.
A eleição chegou e o problema continua — com consequências potencialmente mais graves diante de uma disputa que tudo indica será decidida por uma margem estreita.
O sistema brasileiro dispõe de auditorias, testes de segurança, fiscalização por entidades habilitadas e mecanismos de conferência dos resultados. Os boletins de urna permitem verificar a totalização, e o Registro Digital do Voto possibilita a recontagem eletrônica. Esses mecanismos são relevantes, mas não oferecem ao eleitor a conferência independente que aqui defendo.
O que faz falta é uma garantia adicional: que o eleitor possa conferir um registro de sua escolha que permaneça disponível para eventual auditoria independente. Conferir na tela o nome do candidato é importante, mas não equivale a verificar esse registro. Da mesma forma, recontar os dados digitais não equivale a confrontá-los com uma fonte independente.
Essa proposta encontra respaldo na experiência internacional. Levantamento publicado pelo International IDEA em 2023 identificava 17 países que utilizavam máquinas de votação de registro direto, em âmbito nacional ou subnacional. Desses, 12 adotavam registro impresso verificável pelo eleitor. Na Índia, esse complemento permite visualizar a escolha impressa, que fica retida no equipamento. No Paraguai, o eleitor confere a escolha impressa e deposita a cédula na urna. São experiências que merecem ser examinadas com rigor.
Há preocupações válidas que precisam ser enfrentadas. Uma solução que permita conferir o voto deve também preservar o sigilo e oferecer proteção contra a compra de votos e a coação. O eleitor não pode sair da seção com um comprovante de sua escolha para apresentar a terceiros. Os registros físicos, por sua vez, exigem controles de custódia e procedimentos confiáveis de auditoria. Tudo isso deve integrar o debate sobre o aperfeiçoamento do sistema.
Agora, às vésperas da votação, o que nos cabe é utilizar plenamente os instrumentos existentes: acompanhar a fiscalização, conferir os boletins de urna, documentar eventuais ocorrências e exigir respostas fundamentadas. Será que estamos organizados para fazer isso? A Justiça Eleitoral tem o dever de explicar seus procedimentos, tornar acessíveis as evidências de seu funcionamento e responder a questionamentos legítimos.
Essa cobrança não pode terminar com a divulgação dos resultados do pleito próximo. Qualquer que seja o vencedor, precisamos continuar clamando por maior confiabilidade, transparência e possibilidades de verificação, .
Vejo nessa tarefa uma responsabilidade ainda maior diante da crise de confiança que pesa sobre a Justiça brasileira. Persistir na cobrança por instituições transparentes, responsáveis e abertas à fiscalização é uma das frentes em que devemos atuar para restabelecer, em sua plenitude, o Estado de Direito no País.
02-10-2026
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