Cientista Político
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O presidente Lula (PT) terá uma complexa equação para resolver no quarto mandato: efetivar o cumprimento das promessas populares com que se comprometeu na campanha diante da situação fiscal desafiadora do país.
Na semana em que Lula conquistou a vitória, os ativos domésticos registraram as maiores desvalorizações do ano. A Bolsa caiu 17,5% na semana passada. A desvalorização semanal da Bolsa foi a quinta maior desde o início do Plano Real (1994). É o maior recuo desde a semana encerrada em 20 de março de 2020, quando teve início a pandemia da Covid-19.
A Economatica aponta que as companhias brasileiras perderam R$ 996,5 bilhões em valor de mercado na semana passada. Além disso, o dólar avançou 9,18%, a maior elevação semanal em 18 anos.
O pessimismo dos agentes econômicos tem relação com os tímidos sinais emitidos pelo governo em relação a como Lula lidará com os temas fiscais. Vale recordar que, no segundo turno, Lula se comprometeu com um conjunto de medidas populares junto aos eleitores. Mais do que isso, a campanha petista explorou a narrativa de que a suposta vitória do senador Flávio Bolsonaro (PL) representaria uma “ameaça aos direitos sociais conquistados”. Ou seja, foi criada uma expectativa de “avanços sociais”.
Por ora, a sinalização de Lula para o mercado se resume à especulação do governador do Piauí, Rafael Fonteles (PT), como possível ministro da Fazenda. Fonteles é um nome mais aberto ao diálogo e está “à direita” na correlação de forças internas do PT. No entanto, apenas a eventual escolha de Fonteles é pouco para acalmar os agentes econômicos.
O debate sobre como conciliar o cumprimento das promessas populares com a necessidade de o país cortar gastos já provoca reações no PT. Em entrevista concedida ao portal Metrópoles, o ex-ministro da Casa Civil, Rui Costa (PT-BA), declarou que “o Brasil precisa discutir o setor financeiro, aqueles que fazem formação de preço, formação de expectativas. Eles precisam também pensar no país".
O ministro da Secretaria Geral da Presidência, Guilherme Boulos (PSOL), ao abordar o assunto em entrevista concedida à Folha, falou em “chantagem do mercado” e afirmou que os cortes devem mirar privilégios, não o "lombo dos mais pobres".
Além das manifestações de Rui e Boulos, o economista André Lara Rezende, um dos formuladores do Plano Real, em artigo, propôs um tabelamento dos juros. A repercussão negativa da proposta e o rumor de que Lara Rezende se reuniria com Lula levou o ministro da Fazenda, Dario Durigan, a negar que o tabelamento de juros esteja no radar do governo.
Embora quem sempre arbitre as questões econômicas seja Lula, a falta de sinais concretos em relação à questão fiscal combinada com declarações ideológicas e ultrapassadas dos setores mais à esquerda do PT em relação ao mercado gera ruídos e desgastes.
Além da questão econômica, Lula terá o desafio de gerenciar a governabilidade no Congresso. Apesar de os presidentes da Câmara, Hugo Motta (Republicanos-PB), e do Senado, Davi Alcolumbre (União Brasil-AP), terem se fortalecido diante da vitória de Lula, a correlação de forças é desafiadora para o Palácio do Planalto.
Outro aspecto a ser observado é que, embora a vitória de Lula tenha ocorrido por uma margem de votos maior que o esperado – acima dos 4 milhões de votos –, o país saiu dividido das urnas, o que deve gerar uma “fase de lua de mel” com a opinião pública.
Neste ambiente político, outra questão a ser observada é como Lula lidará com as pressões vindas das ruas, principalmente dos movimentos estudantis, que, no segundo turno, lideraram atos em favor de Lula, e querem o cumprimento da agenda popular defendida na campanha. Lula, pelos sinais emitidos, buscará manter as ruas “aquecidas”, principalmente nas grandes metrópoles, com objetivo de demonstrar força política.
Manter o compromisso com a agenda popular defendida na campanha, sem corte de gastos, significará uma piora das expectativas econômicas. Por outro lado, para enfrentar as questões fiscais, Lula teria que descumprir as promessas realizadas na eleição. Em seu último mandato como presidente, Lula buscará manter sua popularidade alta. Ao mesmo tempo, precisa mostrar previsibilidade aos agentes econômicos. Nesse complexo desafio, não há soluções fáceis.
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