Artigo, especial, Renato Sant'Ana - Sem querer dizer, dizendo

Renato Sant'Ana é Advogado e Psicólogo.

E-mail: releituras21@gmail.com

 

"Quem vota em Lula tá votando em Alexandre de Moraes", disse o ministro Flávio Dino, um militante comunista que Lula escolheu para ocupar uma vaga no Supremo Tribunal Federal, STF. Ele o disse em tom de comício nas manifestações do Sete de Setembro de 2026.

O que é mesmo que o ministro está dizendo? Será que o brasileiro médio consegue decodificar o sentido de suas palavras?

Para começar, um magistrado, ainda mais um membro da corte maior, não pode manifestar-se tomando partido por um candidato político. E foi o que ele fez, notadamente em apoio à reeleição de Lula.

E as coisas não param por aí. Note-se a data: 07/09/2026. Mais de nove meses antes, em dezembro de 2025, a jornalista Malu Gaspar, de O Globo, publicou informações que, vivêssemos sob o império da lei, provocariam um terremoto: Gaspar revelou ligações de Moraes (inseparável de Lula, segundo Flávio Dino) com Daniel Vorcaro ou, se preferirem, com o "caso Master. (Vorcaro fora preso em 17/11/2025.) Desde então, Moraes não vai além de manifestações escapistas.

Os fatos, amplamente difundidos, são graves ao ponto de fazerem mudar a linha editorial dos jornalões e redes de TV, que passaram da conivência com o arbítrio, um padrão nos últimos sete anos, à cobrança de medidas saneadoras à luz da legislação do país.

A polícia federal (PF) investiga o caso. E com a apreensão e perícia do celular de Vorcaro, apontou indícios de crimes praticados por Alexandre de Moraes. O relatório da PF, vindo a público em 01/09/2026, não traz opiniões, mas conclusões objetivas de atos periciais. Conforme O Globo, 01/09/2026, dois dias antes de ser preso, Vorcaro escreveu a Moraes: "Não conseguimos reverter isso com Paulo ou Andrei?", referência que se presume seja ao procurador-geral (Paulo Gonet) e ao diretor-geral da PF (Andrei Rodrigues), "ambos convidados dele numa viagem a Londres em abril de 2024, coroada por degustação de uísque", diz o jornal. E mais: "Acha que segunda já tenho que estar fora?", perguntava, "insinuando estar preparado para deixar o país caso necessário" conforme O Globo.

O inquérito da PF aponta indícios de condutas do ministro Alexandre de Moraes que o Código Penal tipifica como "advocacia administrativa" (uso de cargo público em proveito privado), "corrupção passiva" e, pasmem, "obstrução da justiça": crimes.

A novela já tem muitos capítulos. Vamos a só mais um, que traduz muita coisa. O jornalista Lauro Jardim, cujos dentes já estiveram na mira dos capangas de Vorcaro, publicou, em 19/09/26, vídeo mostrando Alexandre de Moraes e esposa, Viviane Barci, saindo de um jatinho Legacy 650, prefixo PP-NLR, associado ao banqueiro Daniel Vorcaro. O registro é de 22/08/25 e foi extraído de uma transmissão ao vivo da "Aviation TV" da pista de pouso do Aeroporto Santos Dumont, no Rio de Janeiro.

Ocorre que, havendo Mônica Bergamo, da Folha de S. Paulo, apontado em março de 2026 oito voos de Moraes em aeronaves ligadas a Daniel Vorcaro, ele não fez mais do que dizer que "as ilações da fantasiosa matéria são absolutamente falsas" e negou ter viajado em aviões de Vorcaro.

Pergunta: as imagens reveladas por Lauro Jardim serão suficientes para condenar Moraes? Num Estado de Direito Democrático (prefiro essa forma), em que a lei está acima da subjetividade do juiz, elas não bastam. Mas na lógica do próprio Moraes, que por muito menos já condenou e arruinou a vida doutras pessoas, talvez sim.

Ele poderia explicar as imagens do jatinho, assim como aquilo que a PF captou em celular de Vorcaro, o que, para ser desmentido, requereria uma perícia em seu celular, o que ele jamais admitiria. No entanto, ele não mostra o intuito de esclarecer nada, mas apenas ataca e acusa quem ouse evocar a lei e pedir investigação.

O mais grave está aqui: em 15/09/2026, o STF foi palco talvez do evento mais antirrepublicano de nossa história. O órgão magno do Judiciário, que tem a tarefa de zelar pelo respeito intransigente da Constituição, mostrou estar dividido, mas não por divergências doutrinárias nem por dissenso na interpretação da lei, senão por haver uma facção determinada a proteger Alexandre de Moraes, o que implica impedir que ele passe à condição de investigado e que sejam esclarecidos os fatos.

E assim chegamos ao real sentido das palavras de Flávio Dino. Conhecendo o que a PF apurou e a iniludível ligação de Lula com Moraes, ele afirma: "Quem vota em Lula tá votando em Alexandre de Moraes." Ele não queria destapar a verdade, mas foi o que fez: "quem vota em Lula está votando na impunidade." Votar em Lula é dar um aval à seletividade que trata com excesso de rigor a uns, enquanto a outros deixa impune.

 

Releia coluna anterior aqui:

https://blogdopolibiobraga.blogspot.com/2026/09/artigo-especial-renato-santana-escolha.html

 


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