As eleições que podem paralisar Trump e abrir caminho para a esquerda radical em 2028

Na terça-feira, os americanos decidem o Congresso. O que está em jogo vai muito além dos próximos dois anos.

Na próxima terça-feira, 3 de novembro, os Estados Unidos renovam as 435 cadeiras da Câmara dos Representantes e 35 das 100 cadeiras do Senado. São 33 disputas regulares e duas eleições especiais, em Ohio e na Flórida, para as vagas deixadas por JD Vance e Marco Rubio. Ou seja, a Câmara inteira e pouco mais de um terço do Senado.

O ponto de partida é uma maioria republicana estreita. Na Câmara, são 218 republicanos, 214 democratas, um independente (Kevin Kiley, da Califórnia, que deixou o partido, mas continua na bancada republicana) e duas vagas abertas. A maioria exige 218 votos. No Senado, os republicanos têm 53 cadeiras, contra 47 do bloco democrata, que inclui dois independentes. Para virar o Senado, os democratas precisam de um ganho líquido de quatro cadeiras, já que um empate de 50 a 50 é desempatado pelo vice-presidente Vance.

O histórico joga contra quem governa

As eleições de meio de mandato, as chamadas midterms, acontecem a cada quatro anos, dois anos depois da eleição presidencial. E funcionam quase sempre como um plebiscito sobre o presidente. Desde a Segunda Guerra Mundial, o partido que ocupa a Casa Branca perdeu cadeiras na Câmara em praticamente todas as midterms. As exceções foram 1998 e 2002. O próprio Trump sentiu isso em 2018, quando os democratas ganharam 41 cadeiras e retomaram a Câmara.

As pesquisas confirmam a tendência. A média do Silver Bulletin, atualizada em 30 de outubro, aponta vantagem democrata de 8,9 pontos na intenção de voto para o Congresso, ou 9,1 pontos entre os eleitores mais prováveis. A pesquisa Fox News de meados de outubro registrou 54% a 45% para os democratas entre eleitores registrados. O Cook Political Report já fala em até 240 cadeiras democratas na Câmara, e o mercado de previsões Kalshi projeta número semelhante.

Mas há bons motivos para desconfiar dos números. Nas três eleições que tiveram Trump na cédula, as pesquisas erraram, e erraram para o mesmo lado. Em 2020, segundo a própria associação dos pesquisadores americanos (AAPOR), as pesquisas nacionais superestimaram a vantagem de Biden em 3,9 pontos, o maior erro em 40 anos. Nas disputas para o Senado e para os governos estaduais, inflaram os democratas em 6 pontos, em média. Em 2016 e em 2024, o eleitor de Trump também apareceu menos nas pesquisas do que nas urnas. Ou seja, o tamanho de uma eventual derrota republicana ainda é uma incógnita. A medida real só começa a aparecer na terça-feira à noite, com o fechamento das urnas. E, nas disputas mais apertadas, pode demorar mais: a Califórnia leva dias para contar os votos pelo correio, e no Alasca a apuração do voto ranqueado costuma sair semanas depois da eleição.

A Câmara, portanto, é o terreno em que a derrota republicana parece mais provável. A guerra de verdade está no Senado. Pela classificação do Cook, seis cadeiras republicanas estão em situação de empate técnico (Alasca, Iowa, Kansas, Maine, Ohio e Texas), além da vaga aberta da Carolina do Norte, que já pende para os democratas. Do outro lado, a cadeira democrata mais ameaçada é a de Michigan. No Alasca, aliás, a disputa ganhou nesta semana um ingrediente que diz muito sobre os métodos do adversário: a revelação, pelo New York Times, de que a campanha democrata ajudou a recrutar um segundo "Dan Sullivan" para confundir o eleitor do senador republicano de mesmo nome.

Quem vota e como se vota

Segundo o Pew Research Center, cerca de 250 milhões de cidadãos adultos estão aptos a votar em 2026. É o eleitorado potencial, não o número de registrados: nos Estados Unidos, o registro não é automático e o voto não é obrigatório.

A eleição também não é centralizada. Cada estado define suas regras de registro, voto antecipado, voto pelo correio e equipamento. Na eleição de 2024, a referência consolidada mais recente, cerca de 30% dos eleitores votaram pelo correio, segundo a comissão eleitoral federal (EAC). Mais de dois terços votaram presencialmente, divididos quase meio a meio entre o voto antecipado e o dia da eleição.

E vale uma explicação para o leitor brasileiro: o "voto eletrônico" americano não tem nada a ver com a urna brasileira. O padrão é a cédula de papel, preenchida à mão e lida por scanner. Onde há máquina, ela imprime um registro físico que pode ser auditado. A quase totalidade das jurisdições trabalha com cédula ou comprovante em papel. Quem poderia imaginar que a democracia mais rica do planeta confia no papel...

Por que Trump chega mais fraco

A primeira razão é o bolso. A inflação anual voltou a subir em setembro e chegou a 3,7%, puxada pela energia, que ficou 20,4% mais cara em um ano. A gasolina subiu 34,2% no período. Segundo a AAA, o galão custa em média US$ 4,33, contra US$ 2,98 antes da guerra com o Irã, e o diesel bateu recorde de US$ 6,29 no fim de setembro.

O choque tem duas origens externas. A primeira é a guerra com o Irã e a instabilidade no Estreito de Ormuz, por onde passa boa parte do petróleo do mundo. O Brent voltou a tocar US$ 110 em meados de outubro. A segunda é a campanha de drones ucranianos contra refinarias russas, que derrubou o refino da Rússia ao menor nível em mais de duas décadas. Mesmo sob sanções, a Rússia era uma das grandes fornecedoras de diesel do mundo, e hoje proíbe a própria exportação. Quem paga a diferença é o caminhoneiro americano, e com ele toda a cadeia de preços.

Por trás disso há um problema estrutural que nenhum dos dois partidos enfrentou: o déficit. O governo federal fechou o ano fiscal de 2026 com um rombo de cerca de US$ 2 trilhões, segundo o CBO. O descontrole acelerou com a pandemia e nunca mais foi corrigido. Um Estado que gasta muito mais do que arrecada alimenta a inflação, e a inflação que corrói o salário desde 2021 é a mesma que hoje corrói a popularidade do presidente.

O resultado aparece nas pesquisas. Na Fox News, a aprovação de Trump caiu para 36%, a menor já registrada pelo instituto em qualquer dos seus mandatos. Na inflação, a aprovação é de apenas 22%.

A segunda razão é a imigração. Fechar a fronteira e moralizar o caos herdado de Biden, que abriu as portas para todo tipo de ilegal, continua popular. Mas uma parcela relevante do eleitorado acha que o governo pesou a mão na repressão. Em fevereiro, 52% disseram à AP-NORC que Trump "foi longe demais" nas deportações, e 62% disseram o mesmo sobre o envio de agentes federais para as grandes cidades.

A terceira razão é a de sempre: uma imprensa e todo um aparelho de esquerda que atacam Trump 24 horas por dia, sete dias por semana. Não por ignorância, mas por método. A piada corrente nos Estados Unidos é que, se Trump curasse o câncer, a militância de redação daria um jeito de transformar isso em notícia ruim.

Trump chega mais fraco do que em 2024. Não tanto quanto a imprensa diz, mas mais fraco.

O que muda se os democratas vencerem

Uma derrota nas duas Casas seria muito negativa para o governo. Com a Câmara, a oposição controla o orçamento, as comissões de investigação e o ritmo de tudo o que precisa de aprovação legislativa. Com o Senado, controla as confirmações: ministros, embaixadores, juízes federais e, sobretudo, qualquer eventual vaga na Suprema Corte.

Uma ressalva importante: os democratas não poderiam impor sua agenda nos próximos dois anos. Trump mantém o poder de veto, e derrubá-lo exige dois terços das duas Casas. O que está em jogo em 2026 é a paralisia do governo Trump. O que está em jogo em 2028 é outra coisa.

O partido que a esquerda radical está tomando

Porque o Partido Democrata de 2026 não é mais o de Bill Clinton. Está sendo tomado por dentro por figuras ligadas aos Democratic Socialists of America, o DSA, um movimento abertamente socialista que cresceu à sombra de Bernie Sanders e de Alexandria Ocasio-Cortez.

O símbolo dessa transformação é Zohran Mamdani, prefeito de Nova York desde janeiro. Ele chegou ao cargo prometendo uma sobretaxa sobre quem ganha mais de US$ 1 milhão, aumento do imposto sobre empresas, congelamento de aluguéis, ônibus de graça e supermercados municipais. O imposto sobre milionários foi barrado pela governadora Kathy Hochul, que é democrata. Mas o congelamento de aluguéis passou: em junho, um conselho em que Mamdani nomeou seis dos nove integrantes congelou os aluguéis de cerca de um milhão de apartamentos. E a prefeitura já reservou US$ 70 milhões para os supermercados estatais. Controle de preços, mais impostos e mais gasto público: a velha receita, agora no coração financeiro do capitalismo mundial.

E as ambições do DSA vão muito além de Nova York. A plataforma lançada pelo movimento em julho propõe abolir o Senado e substituí-lo por uma legislatura única, e extinguir a Suprema Corte, trocandoa por um Judiciário "subordinado ao Congresso". Até Bernie Sanders, quando perguntado se apoiava a ideia, respondeu apenas: "Não".

Na ala mais tradicional do partido, a agenda é menos espalhafatosa, mas aponta na mesma direção. A primeira proposta é o fim do filibuster, a regra que exige 60 dos 100 votos do Senado para encerrar o debate e levar a voto a maioria dos projetos de lei. É a trava que obriga a maioria a negociar com a minoria. A segunda é transformar Washington, D.C., hoje um distrito federal, e Porto Rico, hoje um território, em estados, o que criaria quatro novas cadeiras no Senado, quase certamente democratas. A Câmara democrata já aprovou a criação do estado de D.C. em 2020 e em 2021. A terceira é aumentar o número de juízes da Suprema Corte para desfazer a maioria conservadora. Somadas, as três mudanças dariam a uma maioria simples o poder de reescrever as regras do jogo sem depender de ninguém.

O DSA ainda não manda no partido. Um levantamento da Brookings mostrou que seus candidatos a cargos estaduais e ao Congresso venceram menos da metade das primárias de 2026. Mas venceram onde importa. Em Nova York, Darializa Avila Chevalier derrubou o deputado democrata Adriano Espaillat na primária. Em Michigan, o candidato democrata ao Senado é Abdul El-Sayed, um nome da ala de Sanders, numa disputa considerada empatada.

Há ainda um componente que a militância de redação prefere ignorar: a aliança entre a esquerda radical e o fundamentalismo islâmico, a mesma que se vê no mundo inteiro. Em 2025, no segundo aniversário do 7 de outubro, o Ministério das Relações Exteriores de Israel acusou Mamdani de agir como "porta-voz da propaganda do Hamas". Neste ano, já prefeito da cidade com a maior população judaica fora de Israel, ele repetiu a fórmula: chamou o massacre de "crime de guerra horrível" e dedicou o restante da declaração a acusar Israel de "genocídio". Questionado, recusou-se a mudar uma vírgula.

Em Michigan, o problema tem nome e sobrenome. Abdul El-Sayed, o candidato democrata ao Senado numa disputa empatada, passou as últimas semanas tentando se explicar sobre suas ligações com a Irmandade Muçulmana, a matriz do islamismo político e do próprio Hamas, que nasceu como seu braço palestino. A Irmandade é um grupo terrorista. Egito, Arábia Saudita e Emirados Árabes a classificam assim há mais de uma década. Em janeiro, o governo americano designou como terroristas os braços egípcio, jordaniano e libanês, este último incluído na lista de organizações terroristas estrangeiras do Departamento de Estado. Os braços egípcio e jordaniano foram enquadrados, segundo Washington, por dar apoio material ao Hamas. Segundo o Washington Free Beacon, o pai dele, o imã Mohammed El-Sayed, integra o conselho da Life for Relief and Development. A entidade pagou US$ 780 mil em acordo com o Tesouro americano por ter enviado dinheiro ao Iraque de Saddam Hussein, sob sanções, e teve o escritório revistado pelo FBI em 2006. Seu diretor-executivo aparece numa lista de líderes da Irmandade nos Estados Unidos, anexada pela Promotoria federal ao processo da Holy Land Foundation, o maior caso de financiamento ao terrorismo da história americana. Posts de 2010 da meia-irmã do candidato, resgatados nesta campanha, afirmam que a mãe e a família eram "há muito tempo" ligadas à Irmandade. El-Sayed nega qualquer vínculo e diz repudiar o grupo. Mas, quando a Fox News lhe perguntou, em abril, se o mundo não estaria melhor

sem os radicais que governam o Irã, preferiu dizer que "radicalismo de qualquer tipo é ruim" e emendar um ataque ao "movimento MAGA".

2028 no horizonte

Enquanto Trump estiver na Casa Branca, essa agenda continua contida. Mas a esquerda radical não está mirando em 2026. Está mirando em 2028, na eleição que define quem governa a partir de janeiro de 2029.

E o cenário é revelador. Numa pesquisa da AtlasIntel de maio, Ocasio-Cortez apareceu em primeiro lugar na disputa pela candidatura democrata, com 26%, à frente do governador da Califórnia, Gavin Newsom (21,2%), e de Kamala Harris (12,9%). Nos mercados de previsão, ela também já ultrapassou Newsom.

Vale lembrar que, em 2016, o establishment democrata fechou fileiras em torno de Hillary Clinton justamente para barrar Bernie Sanders. Dez anos depois, a herdeira política de Sanders é quem lidera as pesquisas. O partido que antes continha sua ala socialista agora pode ser liderado por ela.

Elon Musk, o maior doador individual destas midterms, com mais de US$ 440 milhões aplicados para manter o Congresso nas mãos dos republicanos, resumiu o risco nesta sexta-feira. Em posts no X, disse que sua maior preocupação é uma vitória democrata completa: Câmara e Senado agora, Presidência em 2028. E listou o que viria em seguida: transformar D.C. e Porto Rico em estados para garantir a maioria no Senado, legalizar os imigrantes ilegais para garantir uma maioria duradoura e aumentar a Suprema Corte para ter maioria imediata. São as mesmas peças descritas acima, com o acréscimo da anistia, que fabrica milhões de futuros eleitores. O resultado, escreveu, seria "um Estado de partido único permanente e o fim da democracia em qualquer sentido significativo da palavra".

Seria, nas palavras dele, "game over" para os Estados Unidos.

Para Musk, uma única condição impede esse desfecho: 51 senadores republicanos em 2029. E é por isso que o Senado é a disputa decisiva de terça-feira. Os senadores eleitos agora têm mandato de seis anos, até 2033. Ou seja, são eles que estarão sentados no Senado quando o próximo presidente tomar posse. Cada cadeira perdida em 2026 é uma trava a menos contra o partido único em 2029.

Uma vitória democrata na terça-feira não entrega o país ao DSA. Mas paralisa o último governo que hoje se opõe a ele, e dá à esquerda radical dois anos de palanque, comissões e manchetes para chegar a 2028 com o caminho aberto.

O farol

Na terça-feira não se decide apenas o Congresso. Começa a se decidir se o último grande bastião da liberdade no Ocidente continuará de pé.

Os Estados Unidos não são apenas a maior economia do planeta. São a única grande nação fundada sobre uma ideia: a de que os direitos do indivíduo são dados pelo Criador, não concedidos pelo governo. Liberdade de expressão garantida pela Primeira Emenda, propriedade protegida, poder dividido entre instituições que se vigiam mutuamente. É exatamente esse desenho que o DSA quer desmontar, a começar pelo Senado e pela Suprema Corte que Madison ajudou a criar.

Para o resto do mundo, isso não é detalhe. No Reino Unido, gente é presa por post. No Brasil, o Supremo censura, persegue e prende opositores, e a pressão mais concreta contra esse regime veio de Washington. Por toda parte, quando a censura avança, é para os Estados Unidos que os perseguidos olham. Milhões de pessoas, entre elas muitos brasileiros, encontraram ali a liberdade que perderam em casa.

Se a esquerda radical tomar o país que serve de farol, ela não apaga apenas o futuro dos americanos.

Apaga a última luz para todos os que vivem sob regimes que já se renderam.

E, se o farol se apagar, não haverá outro lugar para onde correr.


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