O
Datafolha de sábado dava 42% de válidos ao senador; a urna deu 47,03% (Veja).
A inferência: erro sistemático em uma só direção é a assinatura clássica do
voto envergonhado, do eleitor que não declara a preferência ao entrevistador e
muito menos a publica com nome e foto em uma rede onde 78% das vozes vão
chamá-lo de miliciano. Há outras explicações possíveis, como diferenças de
abstenção entre os eleitorados, e os institutos ainda não fecharam o
diagnóstico. Mas a hipótese do silêncio é a mais coerente com o que vejo nas
redes: uma conversa em que o campo adversário praticamente não fala.
Esses
dois silêncios se reforçam. Quando a timeline é unânime, o eleitor neutro não
encontra nela nenhum argumento que o convença, só a confirmação de que um dos
lados o despreza. E o eleitor envergonhado encontra mais um motivo para
continuar calado até domingo.
O
risco de uma segunda decepção
A
noite de 4 de outubro já mostrou o preço de confundir timeline com país. A
expressão mais frequente na conversa petista naquela noite foi "sensação
de derrota", acima do nome do adversário, apesar de Lula ter ido ao
segundo turno com 2,2 milhões de votos de diferença. A frustração foi
proporcional à expectativa, e a expectativa tinha sido fabricada por semanas de
uma timeline que só mostrava um lado vencendo.
O
cenário se repete agora, com um agravante. Depois de dois debates em que a
esquerda celebrou a cada noite e acusou o adversário de dezenas de mentiras
checadas, a militância progressista chega ao domingo convencida de que venceu a
campanha. Pode ter vencido a conversa. A urna é outra métrica. Se o resultado
for o empate que as pesquisas desenham, ou uma vitória apertada do senador, a
decepção não virá da derrota em si, mas da distância entre a derrota e a
timeline que a precedeu.
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